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quarta-feira, 27 de abril de 2011

A transgressora







We heart it








Estou prestes a viajar e, já preocupada em como os filhos ficarão na minha ausência, me peguei pensando em como ficava quando era o marido quem viajava e me deixava sozinha com os filhos.





Lembro da primeira viagem dele à trabalho. Ainda estava em Manaus e morávamos numa casa grande e alta. Além do medo por nossa segurança, sentia uma saudade absurda dele, uma preocupação com pousos e decolagens nunca vistas na história desse país.





Era um tal de telefonema choroso pra cá, declarações de amor pra lá cheias de lamúrias melosas,  e quando o recebia estava sempre tentando irradiar carência e tragicidade...era de dar nojo! O tempo passou e ao invés de chorosa, passei a ficar puta! Baita injustiça ele passar uma semana no bem-bom, de folga e eu aqui...feito uma mula de carga, com trabalho dobrado. Ficava mal-humorada, reclamando entredentes e estava sempre, aferrando-me à autopiedade.





As coisas mudam. E sempre mudam pra melhor.





Poucos anos depois, minha postura é outra. Lembra de quando vc, adolescente, vivia rezando pra sua mãe sair de casa puxando seus irmãos menores pelo braço, permitindo que ficasse em casa sozinha, gozando de um pouco de liberdade? E aproveitava para fazer tudo que não podia ou não queria fazer na frente dela/deles todos que dividiam o mesmo teto contigo? Tipo ouvir Led Zeppelin nas alturas, ligar pro carinha da vez, fumar um Gudang......pois é....





Agora me sinto assim! Experimentar a sensação deliciosa da solidão ocasional pode ser libertadora. Passei a gostar e a curtir a minha companhia.





Só que agora, aos 31 e mãe de dois filhos, troquei as goladas furtivas de vodka, por latas e mais latas de coca-cola. Bebendo-as torno minhas tardes mais festivas. É o mais transgressor que consigo ser nessas circunstâncias!!! Longe do olhar zeloso do cônjuge, não tenho hora pra dormir e posso, tranquilamente, saborear um chocolatinho na cama, enquanto coloco a leitura em dia.





Cama essa que, durante a noite, após o sono das crianças, se entulha de livros, revistas, notebook e a televisão fica sempre ligada pra fazer companhia. E como é bom me esparramar na transversal madrugada afora...!!!





Porque agora sou uma mulher de atitude, segura e autoconfiante....dessas, daquelas que leem Marie Claire.










terça-feira, 26 de abril de 2011

O causo da janela










Otto não usa mais a janela como penico. E os traseuntes já não se assustam mais ao ver o jatinho amarelo aguando as plantas do jardim.





A finalidade da janela agora é outra.





O que não tenho de espontaneidade, sobra nele.A moda agora é se sentar com as perninhas penduradas para o lado de fora, se apoiando na grade e puxar conversa com quem passa.



Há dias ouço papos e mais papos vindo do meu quarto. Pensei ser dele com a Bia. Chequei, não era. Pensei ser ele conversando com amigos imaginários. Chequei, também não era. Até que, o que era mero blá blá blá com as belhas, passou a ser um diálogo bem elaborado e estou constantemente sendo surpreendida ao ouvir suas saudações efusivas....





E é algo mais ou menos assim:





"Ôôôôô, Seu Antônio! (vizinho do lado que aparece sempre em horários pré-determinados) Tudo bem?" - daí ele, o Otto - que fique claro, começa a tergiversar sobre as flores, as abelhas e as joaninhas do jardim...pouco ouço a voz do Seu Antônio, pois o Otto fala tanto que não lhe dá oportunidade.





"Ôôôô, Seu Walmor! Tudo bem? - Otto levanta a mão imitando gestos que aprendeu com seus amigos septuagenários. "Tá consetanu o carrrrro? Meu pai também essa ferramenta...... - papo segue normalmente, e para quem ouve, parece entre iguais.





"Ooooooiii, vovoxinha!" - assim bem meloso pra senhorinha que passa com a sacola de pão - "comprou pão, foi? Minha mãe nem comprou hoje, sabia? Comi bolacha" - shame on me! o que será que a velhinha vai pensar de mim, Deus?





E isso acontece sempre, todos os dias.

Pelo menos por enquanto.....já que ele está sempre inventando moda! Juro, que já tentei, ao largar a pia cheia de louças ou a panela no fogão, correr com a máquina em punho pra registrar esses momentos, mas minha presença o inibe, pois basta me ver, pra ele dar o assunto por encerrado.





HUNF.




Mais de uma coisa não duvido: ele continua cada vez mais bem quisto pela vizinhança.



segunda-feira, 25 de abril de 2011

Entre caixas, poeira e lembranças - me entregando ao inesperado




Mudar é sempre bom e as expectativas que antecedem a mudança são uma mistura de medo e adrenalina. Nada me assusta e me impulsiona mais que o novo, o inesperado. É nesse abismo que me jogo, embora com medo da queda.





Já falei aqui que estou de mudança pra uma casa nova, pra um bairro novo e que as crianças irão pra uma escola nova, experimentar uma nova pedagogia. Tudo novo de novo.





No começo, a catarse. Depois, a resolução.





A vida corre numa velocidade tão grande, que não dá pra perder tempo chorando pitangas. Além do que, preciso passar confiança para que meus filhos se sintam seguros para enfrentar os desafios que também chegarão pra eles. Ambos estão apreensivos com a nova escola.





A parte boa da mudança é só e somente só a perspectiva, porque arrumar caixa é um saco! Passamos o  feriadão entre caixas, trecos, coelhos, chocolate e poeira.





Incrível como a gente mesmo não querendo junta uma porção de tranqueira. E olha que não sou apegada a nada material e faço faxinas sazonais, separando sacoladas e mais sacoladas de coisas para doação. Há muito venho exercitando meu desapego...também pudera! Sou praticamente uma cigana.





E enquanto enchia caixas, esvaziava meu coração das lembranças.





Das lembranças que amealhei durante o curto tempo que passei nessa casa....foi aqui, que perdi meu bebê e desde então, a casa, pra mim, passou a ter uma atmosfera cinza, carregada.





Assim como não quero nada atulhando minhas gavetas,também não quero nada que não me sirva guardado em meu coração. Não posso dar a essa perda, um peso maior do que eu possa suportar e, pensando nisso, decidi deixar pelo caminho um sofrimento que não cabe mais...





As caixas estão cheias.


Já meu coração nunca esteve tão leve...







E nesse momento só consigo lembrar dessa música que sempre me tocou de uma forma muito especial:











"Cada um de nós compõe a sua historia

Cada ser em si

Carrega o dom de ser capaz

De ser feliz..."










Viva o novo.


De novo.







sábado, 23 de abril de 2011

Das diferenças




Espontaneidade nunca foi meu forte.


Nunca fui dessas pessoas que puxam assunto no salão de beleza, na padaria, nos consultórios, em porta de escola...também sempre fui desajeitada com gentilezas.





Isso tem mudado...um pouco, mas tem. E essa mudança teve início com o marido e tem se aprimorado com os filhos, que são as criaturas mais easy going com as quais convivo.





A espontaneidade da Bia acaba quando ela comete um erro e precisa pedir desculpas. Ela prefere ficar de cara amuada, fechada, magoada. E a questão aqui não é falta de educação, vai além...ela tem a natureza questionadora, prefere lutar pelo que acredita, para só depois de aplicar o método dialético descobrir que não tinha razão. É sofrido mas o pedido de desculpas sai.





Já o Otto vive aprontando das suas, poderia já ter vindo com um desculpe carimbado na testa, mas com ele não dá tempo de questionar nada, ele pede desculpas tão-logo incide no erro. O que causa uma espécie de pânico nele é perceber que ele nos chateou com suas danações. Ignorar é o freio. Porque pra ele o que importa não é ter razão, o seu compromisso é com a felicidade - como já falei pra vcs.



E eu sigo assim: ora me reconhecendo em um, ora aprendendo com o outro.

Num ciclo que se alterna sempre.










We heart it



quarta-feira, 20 de abril de 2011

Das lembranças da Páscoa




We heart it





Não adianta, Semana Santa assim como Natal, é uma data que me remete à família. Àquela que eu tive quando menina...quando morava na casa da minha avó, rodeada por quatro tios.




A Semana Santa da década de 80 em nada se parece com a que celebramos hoje em dia, estávamos mais presos aos costumes que a religião nos impunha.





Não lembro dessa orgia chocolatística, mas de um momento de instrospecção. Até meu tio, jejuava na sexta-feira santa e, olhe que a única lembrança que tenho dele em uma missa, foi na de sua formatura.





E lá em casa, na sexta-feira santa não se podia:





* Ouvir música e nenhuma ação decorrente disso, como dançar - isso em hipótese alguma.




* Não se podia varrer casa, tirar o pó....nenhum afazer doméstico - minha avó dizia que isso expulsaria Jesus de dentro de casa. (mas hein?)




* Passávamos a quaresma sem comer carne. Isso era obedecido e quando terminava a quaresma, estávamos cheios de escamas!




* Nossa liberdade de brincar gritando e gargalhando era tolhida.




* O almoço deste dia era o mais simples possível e só era permitido comer o suficiente para saciar a fome.




* Também era o dia de minha avó reproduzir uma receita de pão que era uma verdadeira via crucis gastronômica. Era o pão de Jesus. Demorava sei lá quantos dias pra ficar pronto, mas valia a pena. Sempre roubava uns pedaços a mais, tapeando a vigília sobre o prazer da gula.





Era um dia austero. Vivíamos de fato um luto. E eu, criança, não via muito sentido nisso, mas tratava de respeitar. Isso fazia eu me sentir mais adulta *cof* no auge de meus 7 anos.





No sábado de Aleluia, esse rigor desaparecia e as coisas iam voltando ao normal. Ah! e era dia de malhar o Judas, aquele boneco meio espantalho que era confeccionado com o único objetivo de ser destruído. Pessoas com pedras, paus, sucedido por um desfecho apoteótico: quando ateavam fogo, produzindo um efeito catártico nos presentes. Isso, era tão nonsense quanto não poder varrer a casa. Desnecessário dizer, que nunca participei.





E, somente no domingo de Páscoa podíamos comer os ovos de chocolate. E na era mezozóica, eles vinham recheados de chocolate mesmo. E quanto mais chocolate dentro do ovo, mais feliz a gente ficava!





Hoje muita coisa mudou.


Em pensar que esse passado não tão distante já causa estranhamento em nossos filhos....


E com vcs foi assim também? O que mais te marcou?





segunda-feira, 18 de abril de 2011

Puro modismo?


Marquei médico.


Um só não, marquei vários.





Isso pode ser algo super corriqueiro para a maioria das mulheres, mas pra mim, não é mais. Nem sei explicar o porquê desse boicote, dessa negligência a que, sem motivo, me infrinjo.





A verdade é, que depois que nos tornamos mãe, o foco sobre a vida muda. Isso até explica mas não justifica. Como ser humana, preciso de cuidados e negá-los tendo ciência da necessidade, é no mínimo leviano.





Um dos médicos com o qual marquei consulta, foi um psiquiatra. Espero que dessa vez eu vá, porque não é inédito eu faltar às consultas e, também espero que esse olhe na minha cara enquanto eu falo e que não se limite a me prescrever um tarja preta qualquer. Não posso tomar qualquer coisa...eles bem deveriam saber disso.





Não tenho vergonha, nem medo de aceitar minha condição de bipolar e, apesar de assumir, muitas vezes nego a doença, negativa que aliás, é uma de suas características. Não abriria mão de forma alguma da terapia, faz bem a toda e qualquer pessoa, independente de patologias. Só encontram a minha resistência quando o assunto é remédios.





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Há 14 anos, convivo com isso. E na época nem tinha esse nome. A designação era outra.


Tive altos e baixos, fiz tratamento medicamentoso e terapêutico por anos a fio e fazia litemia a cada tres meses (para medir a quantidade de lítio no sangue e, assim, ajustar a medicação)....e, graças a terapia consegui achar um ponto de equilíbrio nessa eterna gangorra de emoções. Já não tenho crises há dez anos - ou seja, desde que me casei.





Uma coisa anda me incomodando ultimamente. É quando ouço, em forma de escracho, que bipolaridade tá na moda.





Na moda onde? Na moda pra quem?


Nem sou abalizada pra dizer que hoje o diagnóstico é muito mais preciso do que costumava ser anos atrás. O que pode justificar o aumento no número de casos. Doenças mentais sempre foram tabu, até mesmo entre os médicos....e graças ao conhecimento, a forma de tratar esses doentes mudou, pois beirava o medievalismo.





Há centenas de anos atrás não se falava em câncer. Se morria de tudo, até de tristeza, de desgosto...mas não se morria de câncer. E isso me dá o direito de dizer que câncer está na moda? Para, né? Escrotice tem limite.





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Uma vez que vc se assume, todas as suas emoções devem ficar engessadas. Te tiram o direito de se entristecer, de se emputecer, de se alegrar, de não aceitar calada certos desmandos por aí...





Deixa eu só avisar uma coisinha: bipolar continua sendo humano, certo? Com todas as emoções inerentes à raça. E as mulheres continuam com seu carrossel de hormônios infelizmente.





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Isso aqui é mais do que mera exposição.


É uma oportunidade que me dou de passar as emoções, os meus sentimentos a limpo.





Escrever também é uma forma de se libertar.





















domingo, 17 de abril de 2011

Simples assim


Desde que Rio estreou, planejo levar os meninos para o cinema. E planejo tudo. Cada detalhe. Onde vamos comer, o que vamos comer e a que horas vamos comer, se antes ou depois. Planejo também o que pode acontecer, porque o Otto ainda tem lá suas inconstâncias.





Alguns finais de semana se passaram e meus planos não se concretizaram. Poha!


Aí, hoje, assim, do nada, na hora do café da manhã, marido nos convida a todos para assistir o filme. E quando pergunto sobre o almoço, se ele sabe a hora da sessão, ele simplesmente diz que não. "A gente vê na hora."





E deu certo. Tudo certo.


Ei de aprender a ser mais leve, a viver mais e planejar menos.





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Estávamos na fila pra comprar o ingresso, daí o Otto começa a se comunicar por sinais com o atendente do Burger King. Era um tal de "beleza" pra cá, "beleza" pra lá e, acabei me distraindo com a vitrine do  lado oposto, quando ouço Otto agradecendo. Mas agradecendo o quê, meldels? Quando olho, lá se vem o pequeno com um copo cheio de sorvete. O preço? Carisma.





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O filme é muito bom. Dinâmico, colorido, com uma trilha sonora muito bacana. Adorei, apesar de meus olhinhos adultos terem detectado estereótipos bem negativos dos brasileiros. Mas ó, as crianças não notaram nadinha e riram às gargalhadas. Aprovamos.












Bom restinho de domingo e uma boa semana pra vcs!





sexta-feira, 15 de abril de 2011

Do sensor e da relatividade do tempo












Isso, Sr. Einstein. Fresque!




Preceito básico da maternidade é a valorização do tempo. E um minuto passa a valer mais, muito mais, do que costumava valer. Coisas acontecem em frações de segundo e não se pode vacilar.


Todos os filhos nascem com uma espécie de sensor que soará em forma de choro agudo, sempre de forma inesperada e sem motivo aparente a cada vez que:





* LIGAR O CHUVEIRO. - ele não acordará no momento em que vc entrar no banheiro, muito menos quando estiver se despindo. O alarme soará tão-somente quando a ação for, de certa forma, irreversível, de preferência com xampu no cabelo.





À PRIMEIRA GARFADA -  mães costumam almoçar, depois que seus bebezinhos adormecem. Isso é fato. E toda pimposa, vc corre pra preparar aquele pratinho, enquanto maquina suas próximas ações, afinal esse será seu último horário livre durante a tarde. Prato feito, e vc iludida se senta, liga a tv e....





À PRIMEIRA SENTADA - vc passa o dia in-tei-ro querendo fazer cocô, se segurando, pra tentar juntar essa atividade com o banho e, o momento mais seguro pra vc é a hora da soneca, certo? Experimente sentar no bacio...vai tenta...um dia até cogitei fralda geriátrica, mas.....né?





* À PRIMEIRA TECLADA- quando ele dorme, vc fica lá, impassível. Não espirra, não tosse, chega a não respirar, tudo pra não acordar o infante. Daí, os minutos passam arrastados só pra ficar ao seu lado e....vc certa de que ele realmente FERROU  no sono, sente-se livre pra dar uma olhadinha no que se passa no mundo virtual e na hora que senta....



* Já experimentei não fazer nada dessas coisas. Quis dar olé e tapear o sensor. Já que sempre acorda quando resolvo fazer alguma coisa, resolvi não fazer nada. Quero ver! HUNF! E nesses dias em que eu tentava ser pragmática, a soneca dele durava sabe quantas horas? Eu disse horas mesmo. Durava duas horas. DU-AS.





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Eles crescem é verdade. Rápido demais....concordo!


Mas o sensor continua ali, ativo e, hoje, meu menino GRANDE, sempre, inevitavelmente na hora das refeições (pode ser qualquer uma, a escolher), ouço:





MANHÊÊÊÊÊÊ....CABEIIIIIIII.....vem me limpaaaaaaaaaaaaarrrr!





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Isso dura o quê? mais uns dois anos?







quarta-feira, 13 de abril de 2011

Nada será como antes

Apertem o play, por favor...












Sempre gostei de ninar meus filhos, os embalar para dormir.

E os embalava sempre com sons, sensações, toques...nos conectávamos. Só assim dormiam!





E enquanto os embalava, eu ia sonhando um futuro lindo pra eles, pra mim, pra nós.





Apesar de gostar muito, havia dias em que eu não estava a fim ou não estava com humor só sentia vontade de me jogar na frente da tv pra zapear interesses ou simplesmente queria chorar ao invés de cantar, queria ficar só ao invés de afagar. 





Nessas férias, aconteceu o que ansiei em momentos de cansaço. O Otto passou a dormir sozinho, sem minha voz, sem meu abraço...e...aconteceu muito de repente, antes mesmo do meu querer. Minha mãe, querendo um pouco de filha pra ela, me aconselhou a deitar os meninos no quarto, dar boa noite e sair. Achei simples demais e mesmo zombando segui seus conselhos.





Para a minha surpresa, deu certo. Cada um na sua cama. Isso se repetiu durante todos os dias em que estivemos lá. E, quando voltamos, resolvi retomar meu momento de acalanto, mas quem disse que o Otto quis? Orgulhoso, disse para mim que já era um menino! Grande!





Ontem, estava cheia de saudade daquele abraço que só ele sabe dar, que de tão apertado, tão aconchegante, dá a impressão de que, de novo, somos um só. Estava com saudade do cheirinho da cabeça dele, de como os cabelos pendiam por sobre meu braço, daquela mãozinha inquieta que pousava no meu corpo somente quando ele adormecia, do cheiro quente de sua respiração...



Na hora de colocá-lo na cama, resolvi deitar junto e antes mesmo de ser expulsa por aquele bebê grande que se acha um menino, pedi pra que ELE me colocasse pra dormir.





De novo, tive ele enroscado em mim e quando nossas respirações entraram em sintonia, ele começou a passar de leve a mão no meu braço e cantou: "mãezinha do céu, eu não sei rezar...".






Nesse acalanto, ele acabou dormindo.


Com a certeza da inexorável da passagem do tempo, acabei chorando.






Nada será como antes.








We heart it





segunda-feira, 11 de abril de 2011

A majestade - o ponto de vista de quem ganha um irmãozinho


Estávamos jantando, quando a Bia chegou com um livro na mão, querendo ler um texto. A carinha era de quem havia se identificado...daí, ela com um sorriso malicioso e me olhando de canto de olho, começa a leitura:





" Intrometido! Chegou faz tão pouco tempo e já é o rei da casa. Manda e desmanda, sem nem falar. É só chorar um pouquinho e pronto. Todo mundo querendo adivinhar o que a majestade deseja. E, como majestade está sempre querendo a mesma coisa, todo dia, toda hora, todo minuto, não sobra tempo pra mais nada. E para mais ninguém, claro.





Clara ficou na cama um tempão. Agarrada no travesseiro, chorando. De dor e de raiva. Tudo misturado numa coisa só. A mãe não apareceu pra dar bronca. Nem isso! Na certa, estava ocupada, medindo a febre do bebê.





Era tão bom. Bom, nada. Era maravilhoso quando o pai chegava em casa de noitinha e corria atrás dela. Corriam os dois em volta da mesinha da sala, até caírem no sofá. Língua de fora e coração aos pulos. Depois, no colo do pai, Clara ia contando para ele o que tinha feito naquele dia. As brincadeiras que tinha inventado, as novidades da escola, as chateações, tudo de tudo.





Domingo de manhã também tinha colo. Em dose dupla! Do pai e da mãe. Quer dizer, não era bem colo, mas a gostosura era a mesma. Ia todo mundo lá pra sala. Aí eles ficavam esparramados no tapete, no meio das almofadas. O pai e a mãe liam o jornal. E Clara mergulhava gostoso numa porção de livros. Histórias incríveis. De vez em quando ela perguntava alguma coisa. Queria saber o significado de uma palavra ou de um pedaço da história que não tinha ficado bem entendido. A mãe explicava. Ou o pai. Às vezes até os dois juntos. Era bom demais!





Depois o chato do irmão apareceu e estragou tudo. Nada de colo, nada de corrida em volta da mesinha da sala, nada de manhã gostosa de domingo, nada de nada!





Só ele que podia tudo. A mãe corria pra trocar a fralda, sem nem reclamar. Nos últimos dias, então, não desgrudava dele. Toda hora com o termômetro na mão, querendo saber se o bebê estava com febre. Nem aí pra Clara.





O bebê adoeceu e ficou internado em um hospital. Clara se sentiu culpada, pois  havia desejado que ele não existisse. Quando o bebê voltou para casa, Clara se aproximou dele e percebeu que ele era frágil e pequenino. O coração de Clara ficou cheio de ternura pelo irmãozinho e a convivência dela com os pais voltou ao normal. "


(Sônia Barros. O que é que eu faço, Afonso? - trechos selecionados In: Adson Vasconcelos. Aprender Juntos. São Paulo: Edições SM.)





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Quando terminou de ler, ela disse que tinha achado tão parecido com a vida dela, que TINHA que nos mostrar. A diferença, ela salientou, foi que não sentiu ciúmes a ponto de ter raiva do irmãozinho.





Disse que só sentiu e ainda sente a nossa falta.


Saudade do trio que formamos um dia.







Imagem: We heart it










sábado, 9 de abril de 2011

Dos momentos que merecem registro




We heart it






Ser surpreendida por um filho, não é novidade pra nenhuma mãe, certo? Esses momentos acontecem o tempo inteiro e alguns merecem sim, um registro. Ou dois. Talvez três...enfim...





Otto, o sabido





Tava todo mundo brincando com aqueles joguinhos de letras, tentando formar palavras e o Otto, super entusiasmado, conseguiu identificar algumas no meio do bolo:





- Olha mãe, a letra O - de Otto.


- Olhe mãe, a letra M - de Mc´Donald´s (garoto corrompido)


- E essa, é a letra A - de a sapa lava pá.





Otto, o singelo





- Filho, o que são essas lágrimas? (pergunta retórica)


- Não são lágrimas, mãe. São gotinhas.





Otto, o assustado





Tava tomando banho e, quando estou sozinha com as crianças, nunca tranco a porta. De repente, ele entra e, apressado tira a cueca. "Quero tomar banho, com voxê". Entra. Agarrou o pote de xampu e ficou brincando debaixo do chuveiro e de repente, me olha....aliás, não pra mim, pra lá...bem lá...e pergunta:





- Mamãe, cadê o seu pintinho?





Fui tentar uma explicação sucinta sobre a diferença na anatomia dos sexos e ele, com os olhos esbugalhados, uma cara de assustado, lágrimas prestes a cair, diz:





- Mamãe, vc clebou o seu pinto??????? Má por que????? (enquanto segurava o seu próprio. Na certa, com medo)





HUNF.


Terá ele sofrido algum trauma?










sexta-feira, 8 de abril de 2011

Blogagem coletiva - Maternidade REAL


Era daquelas mães que nunca antes havia pensado em se tornar uma. Não fazia parte dos seus planos, mesmo assim, resolve se preparar com afinco para imergir nesse mundo meio desconhecido.





Leu material suficiente para defender uma tese, sendo que a única garantia que não tinha era a aprovação! A gravidez nem de longe foi o sonho dourado apregoado por aí e, desde então, conheceu um sentimento que parece ser inerente à maternidade: culpa.





Gravidez terrível em seus aspectos físicos. E o parto? Um parto. Descobriu que seu medo maior é o da tesoura e assim vive o parto mais desumanizado de toda a história. Tudo ficou bem quando a filha nasceu bem..um novo mundo se descortinou sob seus olhos cansados.





Por que não dizem que amamentar dói? Que a "pega" certa é a coisa mais difícil ever? E que nem todas as mulheres conseguem?





E ela achava que só porque havia preparado os seios, conforme o Manual da Boa Mãe, teria êxito já num primeiro momento. Ledo engano! Chorou pra amamentar sua pequena por uma semana in-tei-ra!!!! E postergava sempre o horário da amamentação, pois a pequena havia-lhe arrancado um pedaço de seu peito...





Resolveu ir pro fogão dar conta de tudo, mesmo tendo uma empregada doméstica. Era ela, a mãe zeloza quem cuidava de tudo, como rezava a cartilha. Não saía de casa quase nunca, para não desobedecer os horários de sua pequena...e ai de quem sugerisse potinhos Nestlé! NÃO MESMO!!!





Daí, que o tempo passou e quando olhou para trás percebeu que a espontaneidade na criação de sua filha havia sido perdida...já que o Manual da Boa Mãe tem tantas regras, que a fazia concentrar todo seu esforço e empenho em cumprí-las. 





Tê-las seguido à risca, foi um erro. Agora já sabe.





Resolve ter outro bebê e apesar da gestação ser bem diferente da primeira, nem de longe se parece com aquelas descritas nos livros e revistas. Dessa vez, aquela mãe, aquela do primeiro parágrafo, resolve virar essa, que vos escreve.





Que resolveu confiar mais no seu taco do que nas cartilhas, que resolveu fazer um apanhado de tudo que foi positivo e tudo aquilo que era mera falácia, para montar o SEU próprio manual de sobrevivência. Totalmente personalizado - seguindo a tendência, por que, né?





E a culpa? Ah, resolvi me abster. Sou mais feliz sem ela.





As tendências modernosas para pessoas "conscientes" crescem numa velocidade tão rápida, que não as consigo absorver. É demais pra mim.







Enquanto o mundo paralelo das mães-super-conscientes ditam suas regras, sigo feliz com as escolhas que fiz na minha maternagem.





Hoje, não quero ser perfeita, só quero ser a melhor mãe que eu puder ser.




















(blogagem coletiva proposta por Carol Passuelo

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Puro movimento









Farra com o tio





O Otto é daqueles meninos típicos, que amam o movimento, que são curiosos por natureza, que não tem medo de se sujar e que não conseguem ficar parados. Daqueles que tem uma intimidade enorme com carrinhos, bolas, pedaços de pau e bichinhos de jardim.





Brinco dizendo que ele começou a viver cedo, tamanha sua vontade de explorar o mundo. Assim, ele começou a engatinhar aos quatro meses e meio!!! a se apoiar nos móveis aos seis, a dar pequenas passadas e brincar de equilibrista aos oito e, finalmente, andou aos dez meses!!!



É destemido, corajoso, prefere tentar correndo risco ao medo que paralisa. Sabe ser impetuoso ao mesmo tempo que cativa com seu sorriso. E assim, ele neutraliza tudo!





Vivia com o coração aos saltos, aliás deveria ter vindo um coração extra de brinde quando ele nasceu. Vivia caindo, batendo em alguma coisa e as variadas tonalidades de roxo e verde denunciavam suas peripécias.



Lendo essa descrição, posso imaginar vcs de cabelo em pé....nem eu, me via mãe de menino. Mas sabe que me apaixonei e me contagiei com essa energia toda? E ao invés de moldá-lo, deixei-o viver.



Morávamos na praia e era lá onde ele tomava seus banhos de sol, mesmo no friozinho do inverno. Corria muito no jardim de casa, catava minhocas no canteiro, brincava na grama, com terra, escalou móveis, comeu frutas e verduras às dentadas, dispensando talheres, tomou banho gelado no chuveirão da área externa...e até hoje, apronta das suas. Até assiste televisão, desde que possa dar mil cambalhotas no sofá!








Flagra de uma queda iminente






Não tentei corrigir sua energia, só direcionei....


E ele cresce feliz com o dinamismo de sua liberdade!
















terça-feira, 5 de abril de 2011

Cada um é do jeito que é


A Bia, como já mencionei em alguns posts, sempre teve um temperamento tranquilo, calmo e suave. Também sempre se portou como uma menininha, daquelas que amam rosa e histórias de fadas e princesas.





Acontece que dentre as inúmeras habilidades que possui, a motora não veio no pacote. Prefere a segurança a ousadia. Prefere a calma a correria. E isso é assim desde sempre.





Quando ela tinha 4 anos, nos pediu para fazer ballet. Frenquentou as aulas com muito afinco, mas sempre deixava claro pra nós, que não levava o menor jeito, que não tinha coordenação motora e não sabia dançar como a amiguinha. Mas isso estava longe de fazê-la desistir das aulas e ao final de um ano de perseverança, ainda dançou lindamente a música Piruetas no palco do teatro da escola.





Ano passado, ela pediu pra fazer capoeira - que é uma das minhas paixões, apesar de nunca ter praticado o esporte. A matriculamos e no começo ela era só empolgação. Sempre chegava mostrando que tinha aprendido a gingar, a fazer a ponte, a fazer meia lua...meu marido passou a sair do trabalho direto pra academia da escola, quando notou um desânimo repentino pelas aulas.





Ficou muito claro o porquê. O "professor" pedia para que os alunos (um pouco mais velhos e mais graduados) se juntassem aos pares para treinar alguns movimentos e adivinha quem sobrava? A Bia. Daí, vc me pergunta, por que o professor não treinava com a aluna que sobrou no banco? Ele até tentou responder, mas sua resposta não colou.





Achamos uma tremenda crueldade, deixar a Bia num canto, se sentindo no mínimo, péssima, assistindo o treino dos outros alunos. Na volta pra casa, marido vinha conversando com ela, tentando dizer que não havia gostado da forma como o professor a havia tratado e que iria aceitar o seu pedido e cancelar a matrícula.





Daí ela, ensinando muito mais do que pode aprender, diz: " Pai, não tem problema não ter muito jeito com esportes, né? Por isso que gosto de artes. Nunca tem um jeito certo de fazer as coisas, todo mundo é livre...e eu sei fazer arte! Cada um é do jeito que é, né pai?"





Agora pergunto, dizer que a gente APRENDE com os filhos, é mero clichê?












Aos 4, após a apresentação












Não cuspirás pra cima - parte II - à procura de uma escola







Imagem: We heart it





Passamos uma semana procurando por escolas na internet, interpelando pessoas...catando informação, colhendo impressões. Fizemos uma lista e passamos para o segundo passo: telefone. 





Daí, que ontem, marido e eu saímos decididos e, sobretudo, esperançosos para procurar escola para os meninos. De preferência, que possa acolher os dois. No mesmo turno, para evitar a fadiga!





As visitas foram um espetáculo à parte. De terror, naturalmente.





Escola 1 - fica a 3,5km da nova casa. Estrutura física de primeiríssima qualidade. Já entramos cheios de ternura e amor no coração até que....nos deparamos com uma criatura tosca, que nos mostrou a escola arrastando os chinelos e dando bronca nos alunos que via pela frente. Nos conduziu à secretaria e começou a falar, falar....mascando um chiclete, no maior piriguetimo, pasmem vcs. E mais, enquanto falava, coçava à orelha. Ato ininterrupto. Seria um cacoete? - divaguei.

Depois de nos informar valores, foi a vez de apresentar seu material didático: umas apostilas hor-ren-das! Dei meu sorriso mais amarelo, quando ela perguntou se gostamos. E a gota dágua foi nos propor para adiantar o Otto de turma, para que assim, ele passasse a desfrutar de material tão maravilhoso!!!!





ESSA NÃÃÃÃÃÃOOOO!





Escola 2 - a 3km de casa (pausa) sei lá como aquilo aguenta as chuvas, viu? Alô Defesa Civiiiilll.





Escola 3 - a 2,5 km de casa. Visualmente bacana, mas eu já estava traumatizada. A mocinha que nos atendeu, deve ter sido operadora de telemarketing, pois abusava de gerundismos. A desorganização era tal, um ambiente escuro, meio sujo...aquilo me deu uma aflição, uma crise de pânico, uma...uma...





ESSA NÃÃÃÃÃÃOOOO!





Escola 4 -  a 1 km de casa!!! Inserida numa área verde de 50 mil metros quadrados!!! Emoldurada por colinas...por pouco não saquei da máquina fotográfica e pedi ao Paulinho para tirar fotos minhas agarradas com os pé de pau. Não iria pegar bem...afinal, tinha que manter meu tom sóbrio de quem estava aflita por fazer a melhor escolha. Achei tudo de uma fofura, de uma organização, de uma seriedade ímpares! As crianças felizes e as professoras serenas...amay!





É uma escola alternativa, com opções de atividades artísticas para tudo quanto é gosto. Fora a horta, o minhocário, viveiro de mudas, compostagem, aulas de musicalização, de línguas. Deve ter uns cinco parquinhos diferentes pro Otto, dois campos enormes.

E a avaliação é processual e investigativa, onde se trabalham conceitos e ao final dos projetos, recebemos um portfólio com a avaliação descritiva - que qualificam melhor o processo do aluno. (nuca gostei do sistema de notas mesmo. Hunf!) E os pais estão sempre presentes, fazendo parte do todo.





É ESSAAAAA!





E eu, que implicava com escolas assim, me encantei. De verdade!


Quem manda cuspir pra cima?





E espero que meus filhos se sintam bem ali, tanto quanto eu me senti.


Coração em paz, sereno e tranquilo.





Aguardem cenas do próximo capítulo.













sexta-feira, 1 de abril de 2011

Dos vizinhos, da surpresa e do silêncio


Nunca tive sorte com vizinhos.


Nem mesmo quando morava com a minha mãe.





O que mais me marcou na adolescência foi um vizinho bêbado. Era um homem que parecia ser bem mais velho que o meu avô e que passava as vinte e quatro horas de que dispunha alcoolizado. Era viúvo, tinha dois filhos era casado pela segunda vez, com uma mulher que fazia às vezes de escrava. Ele passava o dia in-tei-ro entoando uma espécie de mantra do mal: vagabunda- cachoooooRRRRRRRRRRRRaaaa - suaputa - vagabuuuuuuuuuunnnda - cachoooooooRRRRRaaaa....e isso durava horas, que aos meus ouvidos pueris, duravam séculos e mais séculos.





Quando morei em Manaus, o casal do andar de baixo me punha a chorar nas madrugadas. Ele, um militar, ela, que fazia às vezes de saco de pancada. Os barulhos, os choros, os gemidos, os urros perduraram na minha cabeça mesmo depois que nos mudamos. Era aterrador!





Aqui, onde moro, a vizinhança também não é das mais simpáticas, mas me pareceu até o momento ser a mais saudável.





Há uma que me brinda todos os dias com sua antipatia gratuita. Nunca em dois anos, retribuindo o Bom dia, que efusivamente lhe dou, incansável, dia após dia. Há ainda, a amante dos animais. Tem uns quatro cachorros, "todos adotados" - gaba-se!, mas que me põe em estado catatônico sempre que os espanca. Nunca soube o real nome deles, pois um atende por desgraçado, o outro por cão duzinferno, outra por safada....enfim...





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Num dia de chuva, fui lá no quintal dar uma espiadinha, quando escuto sons maravilhosos de voz e violão. Eram duas mulheres com vozes tão lindas, que pareciam ter-lhes sido emprestada por anjos, e um homem de voz aveludada que tocava e fazia backing vocal, quando necessário.





Não me contive. Era a primeira vez que era brindada com música de qualidade nas vizinhanças pelas quais passei. Puxei uma cadeira e sentei. (dias depois soube que eles tocavam em casamentos e que, sempre ensaiam! Good to me!)





As músicas falavam de um amor leve, pra quem está começando uma vida! Paulinho que deu pela minha falta, apareceu. Observou e entrou de volta, mas permaneci imóvel...estava meio que em transe pelas vozes angelicais...





De repente o vejo tentando equilibrar uma cadeira, uma garrafa de vinho e uma taça. Viera me fazer companhia.





E ficamos ali, conversando em silêncio por horas a fio....










daqui