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sexta-feira, 15 de março de 2013

Vá procurar sua turma


Já quis ser sozinha e curti muito meus momentos de solidão. Embora saiba que ninguém consegue viver isolado por muito tempo afinal, não deve ser saudável passar longos períodos sem ninguém por perto. Por isso a importância de estar em sintonia, de encontrar a própria turma. Com vcs, um texto delicioso,



Por Martha Medeiros




"(...)





Da série "Coisas que a gente aprende com o passar dos anos": abra-se para o novo, mas na hora da intimidade, do papo reto, da confiança, procure sua turma. É fácil reconhecer os integrantes dessa comunidade: são aqueles que falam a sua língua, enxergam o que você vê, entendem o que você nem verbalizou.





São aqueles que acham graça das mesmas coisas, que saltam juntos para a transcendência, que possuem o mesmo repertório. São aqueles que não necessitam de legendas, que estão na mesma sintonia, e cujo histórico bate com o seu. Sua turma é sua ressonância, sua clonagem, é você acrescida e valorizada. Sua turma não exige nota de rodapé nem resposta na última página. Sua turma equaliza, não é fator de desgaste. Com  ela você dança no mesmo compasso, desliza, cresce, se expande. Sua turma é sua outra família, aquela, escolhida.





Não tenho mais paciência com o que me exige atuação, com quem me obriga a usar palavras em excesso para ser compreendida. Não tenho mais energia para o rapapé, para o rococó, para o servilismo cortês, para o mise-en-scène social. Não tenho motivo para ser quem não sou, para adaptações de última hora, para adequações tiradas da manga. Não quero mais frequentar estranhos, em cujas piadas não vejo a mínima graça.





Não quero ser mais apresentada, muito prazer, e daí por diante ter que dissecar minha árvores genealógica, me explicar em nome dos meus tataravôs, defender posições que me farão passar por boa moça. Não quero mais ser convidada surpresa.





Se você mandar eu procurar minha turma, acredite, tomarei com carinho."



Portanto, vá procurar sua turma.




quinta-feira, 7 de março de 2013

Quando um apito e a lavagem de roupa tornam-se símbolos da luta feminina


Tive uma vida marcada por mulheres e elas todas foram uma referência muito forte na minha formação. Nenhuma delas - bisavó, avó, tias, tias-avós - representavam o estereótipo da fragilidade feminina, que tanto se propaga.





Como mulheres humildes, pobres, chegavam a ser rudes nos seus modos.



Minha mãe costumava contar as histórias de sua infância, à beira do rio ouvindo o lamento das lavadeiras, que usavam da força para alvejar as roupas, batendo-as contra as pedras; de como sua avó abatia com determinação e frieza um animal para a refeição; de como era acordar de madrugada para acompanhá-la ao mercado para vender cuscuz, bolo de goma e café, empunhando um carrinho de mão por um caminho escuro. E de como essa mesma mulher, tão forte, tão determinada, que vivia sem marido nos idos dos anos 60, sabia ser carinhosa e  ainda conservava uma certa vaidade. Parecia desconhecer o medo e só conhecer a coragem. Fortaleza e ternura - a antítese feminina.





Nas férias, quando visitava o interior do Piauí com meus avós, pude ver outras mulheres da família carregando água na cabeça - com um peso muitas vezes superando o seu próprio - tão franzino! Percorria o único caminho que lhe deram como opção, com um equilíbrio invejável e, com uma força inconcebível ia riscando o chão vermelho com seus pés rachados. Conservava um modo de viver tão antigo! Era como se o tempo para ela - não tivesse passado.



Essa tia-avó, que passava o dia pra lá e pra cá com baldes d´água na cabeça, deu a luz a vinte e seis filhos. Eu disse 26!!! Os criou com sacrifício, suor e afeto. Costumava falar das agruras da vida, embaixo de uma mangueira que ficava em frente a sua casa de aspecto tão frágil quanto o seu, nos raros momentos de folga, enquanto mascava fumo. "A vida é dura, mia fia, mas ainda assim é boa. Vai entender..." - e gargalhava com os dentes enegrecidos de fumo. Fortaleza e ternura - a antítese feminina.





Essas histórias do passado, que ainda tive o privilégio de ver acontecer, moldaram a mulher que me tornei.  Essa realidade, que julgava ser em outra dimensão, era também a minha.



Cresci admirando as mulheres que lutam. Que lutam por seus ideais, por seus filhos, por sua família, por uma causa, por si mesma. Que sabem ser fortaleza e ternura.





Anos atrás, através da televisão, tomei conhecimento de dois grupos de mulheres, que são exemplos pra mim. Um é formado por pernambucanas que se uniram para se proteger mutuamente. Juntas elas conseguiram atrair a atenção para os incontáveis crimes de violência contra a mulher na localidade onde vivem. Antes, apesar de numerosos, eles eram invisíveis, pois estavam protegidos pela intimidade do lar - onde acreditava-se, tudo ser possível.







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ONG Grupo de Mulheres Cidadania Feminina








A forma como essas mulheres conseguiram quebrar o silêncio foi usando um apito. Um simples apito. Pode parecer ingênuo, mas funciona assim: se uma mulher está sendo agredida, um apito dá o alerta, que é seguido por outro e mais outro e mais outro...formando uma verdadeira corrente de solidariedade. Pois é, com o apitaço, elas conseguem intimidar o agressor e tentam resgatar a vítima. Quando não conseguem, acionam a polícia. É o Gulag Gang do Brasil!





Com a união, formou-se uma corrente de mulheres solidárias, comprometidas com o bem estar umas das outras, que passaram a valorizar-se fazendo barulho. Fazendo barulho, estão dizendo: não me calarei mais.





O outro grupo de mulheres, me remete às memórias de infância. Por isso, a primeira vez que as vi na televisão, chorei. Como soou familiar pra mim!!! Encanto e surpresa. São as Lavadeiras de Almanara, que cantam antigas canções  - batuques, sambas, afoxés, frevos, modinhas, toadas e rodas - cuja origem já se perdeu na memória do tempo.







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via








A história delas começou em 1991, quando da construção de uma lavanderia comunitária. Cantavam enquanto lavavam suas roupas. Descobertas, foram incentivadas por um cantor e pesquisador cultural (Carlos Farias) e passaram a cantar em grupo. Assim, criaram a ASLA - Associação Comunitária das Lavadeiras de Almenara. Hoje, com mais de cinquenta componentes, gravaram um cd e participam de festivais na região em outras cidades do país. Ganham seu sustento lavando, batendo roupa e cantando a vida, essas mulheres perpetuam uma cultura que não deve ser esquecida.





Dia desses, Fernanda Reali, compartilhou um texto da Martha Medeiros que dizia assim:





"Sua turma é sua ressonância, sua clonagem, é você acrescida e valorizada. Sua turma não exige nota de rodapé nem resposta na última página. Sua turma equaliza, não é fator de desgaste."




Cada uma de nós tem suas próprias referências, que são fruto do vivido. As minhas são as reais: as de mulheres que são fortaleza e ternura, que se unem para se fortalecer, que entendem que a dor de uma é a dor de todas, que não se omitem, que não esmorecem. Aqui cabe a minha gratidão à Lígia Sena.





Feliz Dia Internacional da Mulher - e que esse dia, um dia, deixe de ser de luta, para ser apenas de comemoração por conquistas.








segunda-feira, 4 de março de 2013

Da vida para o corpo - a nova tatuagem


Reza a lenda que quem faz uma tatuagem, não consegue mais parar.




Como contei aqui, demorei dez anos até tomar a decisão de fazer uma. Para fazer a primeira, vc precisa vencer o medo do definitivo, que sempre assusta e este, uma vez vencido...deixa o caminho livre para uma segunda, uma terceira, uma quarta...





Dessa vez, escolhi um desenho simples, até bem comum, mas que tem um sentido enorme pra mim. Procurei o Tadeu e juntos chegamos ao resultado final. Adoro o traço dele e a forma com que trabalha o conceito. Considero muito importante a energia boa que ele tem, porque o que vai no corpo é bem mais que tinta.














Resolvi fazer desse, um passeio pra toda família. Todo mundo curte o Tadeu e o estúdio agora funciona na casa dele. Muito mais acolhedor, Otto que o diga.









A Rosa dos Ventos representa as quatro direções fundamentais da Terra, corresponde a uma volta completa do horizonte. Ideal para quem precisa se encontrar, mas nem foi essa a causa da minha escolha.



Já sentiu um amor te nortear? Um amor tão grande capaz de vencer o tempo?



Norte - era assim que eu me referia à minha avó, porque o amor que sentimos (ainda) uma pela outra, era a minha orientação, o meu guia, nas vezes em que me senti perdida.



Preferimos fazê-la da forma mais limpa possível, suprimindo as orientações de símbolos nas coordenadas - o que deixou o desenho bem mais subjetivo. O timão em segundo plano, foi uma sugestão do Tadeu e evidencia que depois da partida dela, passei a controlar o barco.



Um amor tão grande só podia mesmo virar tatuagem.











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"O corpo: superfície de inscrição dos acontecimentos."


M. Foucault.