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quarta-feira, 28 de agosto de 2013

O Renascimento do Parto - uma volta à origem da minha própria história





renascimento do parto, parto com amor, parto humanizado, potência de vida, hormônio do amor











Estive presente na pré-estreia do filme O Renascimento do Parto aqui em Florianópolis onde tive o privilégio de conhecer muitas pessoas que trabalham em prol da humanização no parto. Pude confraternizar com Erica de Paula e Eduardo Chauvet, Mayra Calvette, Roxana Knobel, com minhas amigas queridas Gabi Zanella e Lígia Sena e outras mulheres importantes da humanização. Foi incrível sentir a energia delas.





Entrei na sala escura bastante concentrada, ansiosa e com uma expectativa nas alturas. Não pude conter a emoção já nos primeiros minutos do filme que é: denso, leve, inspirador e muitas vezes incômodo. Traz questões absolutamente necessárias para a mudança de paradigma que se impõe na realidade obstétrica brasileira. O filme veio para referendar o discurso e o trabalho dos ativistas do bem nascer que há anos estudam e enfrentam o sistema, propondo mudanças. Nele não há achismos e a discussão vai além, muito além, da dicotomia cesária x parto normal.





Questiona-se o parto medicalizado, mercantilizado e a cesariana - procedimento médico - fica reservada para casos em que há de fato, uma indicação. 





Não há a responsabilização de um único culpado, pois entende-se o assunto como uma questão multifatorial.





Profissionais qualificados, respaldados por evidências científicas derrubam um a um os mitos que sustentam o sistema e questionam a naturalização da violência institucional. Por que achamos que essas intervenções absolutamente desnecessárias, que não constam em nenhum livro de medicina, normal? Que ideologia é essa que nos faz defender o indefensável? 





As cenas mostram com crueza a violência a que nos submetemos, independente da via de parto. Nessa hora sentimos o desconforto da verdade e vemos como nossas convicções estão sedimentadas por uma medicina paternalista onde o médico se coloca como autoridade máxima, como o detentor do saber.





Até há bem pouco tempo atrás todas as mulheres sabiam parir. Todas elas tinham seus filhos em lugares tranquilos e ao lado de outras mulheres que lhes davam segurança e amparo. Em que momento da história passamos a não saber fazer aquilo que já nascemos programadas para fazer? 





No filme, uma argumentação do médico obstetra Ricardo Herbet Jones ilustra bem essa necessidade de racionalização de um evento puramente fisiológico: "o parto mexe com as três questões mais intensas da humanidade: a vida, a morte e o sexo, daí a necessidade da humanidade ritualizar esse evento, tão fisiológico, tão parte da mulher. Sabendo disso, não fica mais fácil perceber que esses rituais não são pro bem, pelo melhor, pela saúde, mas apenas pelo medo da intensidade da vida?"







violência obstétrica, medicalização do parto, uso indiscriminado de cesariana, autonomia da mulher
o que acontece no meio do caminho?








Esses questionamentos são urgentes num país com a maior taxa de cesarianas do mundo. Chega a 90% na rede suplementar de saúde. O que justifica a adoção indiscriminada de cirurgias senão mover a indústria do nascimento? Qual o problema das brasileiras? Somos todas defeituosas? 





Existe mesmo uma escolha isenta no atual contexto obstétrico? Ou nos levam à descrença da nossa capacidade inata, nos fazendo reféns de uma medicina intervencionista? Nos dizem que a dor é insuportável, que o ato de parir é feio, desnecessário e sujo. A cultura contamina nossa determinação em parir, mina a nossa confiança e nos faz adepta da praticidade, dispensando o ritual iniciático que nos transforma em mães. 





Agora, foi na fala de Michel Odent, que meu mundo caiu, pela seriedade da questão levantada por ele: "até recentemente, o amor era um tema para os poetas, filósofos e romancistas. Mas hoje é estudado por cientistas. Hoje nós podemos entender que a capacidade de amar é em grande parte organizada e construída durante o período em torno do nascimento. Para dar à luz a mulher precisa liberar uma mistura de hormônios. De acordo com cientistas modernos, trata-se de um coquetel de ´hormônios do amor´. Em todo o planeta, o número de mulheres que dá à luz a seus bebês somente graças à liberação desse coquetel está chegando a zero. Zero, na era da ocitocina sintética e da cesariana fácil e rápida. Atualmente, não consigo pensar em uma pergunta mais importante que essa: qual o futuro da humanidade nascida por cirurgia cesariana ou pelo uso de ocitocina sintética? Quando falamos de ocitocina sintética, é uma forma de substituir o hormônio natural que as mulheres deveriam liberar por si próprias. É óbvio que quando uma mulher tem seu filho por cesárea ela não está no mesmo equilíbrio hormonal que uma mulher que dá à luz por ela própria. Isso significa, em outras palavras, que podemos tornar os hormônios do amor redundantes inúteis no momento crucial em torno do nascimento. Isso é inédito na história do nascimento e provavelmente na história da humanidade."





Nessa altura percebi que o filme não trata só sobre a nossa realidade obstétrica, mas sobre o futuro da nossa humanidade. 





Somos levados a questionar sobre o caminho que estamos percorrendo e de que maneira estamos recebendo nossas crianças neste mundo; sobre essa cultura imediatista em que impera a lei do menor esforço e totalmente desconectada que estamos vivendo. Precisamos transpor as barreiras da violência sob todos os aspectos, para que iniciemos a revolução, buscando ter de volta a nossa capacidade de amar.



Ao fim do filme, quase toda a plateia enxugava suas lágrimas. Durante o debate que se seguiu, várias pessoas pediram a palavra e quase todas as que se manifestaram faziam a pergunta que cada um dos presentes se fazia: o que podemos fazer, como sociedade, para mudar o sistema?



Saímos de lá impactados, porém muito esperançosos. O filme não trata de possibilidades perdidas mas principalmente, das oportunidades que podemos criar para os outros. A essência do ativismo é esta: não querer para os outros o que não quero pra mim.






* * * * * *






Saí do cinema chorando e aproveitei que estava sozinha dirigindo por uma cidade chuvosa, fria e vazia para chorar mais um pouco, já que não conseguia parar de pensar no nascimento da Bia, que foi de longe, o momento mais marcante da minha vida, mesmo tendo sido violento.



Nunca escrevi um relato de parto rico em pormenores, explicitando todos os meus anseios, os meus medos e minhas superações seja por medo da extensão do texto, seja por falha na minha memória que vislumbrava apenas aqueles fragmentos eleitos como importantes. Sempre que o faço acrescento um dado novo, o que me dá a impressão de estar sempre reescrevendo um evento do passado, estático. Talvez porque tenha me faltado a distância necessária para contemplar este parto em seu conjunto do início ao fim.



Foi há dez anos e eu tinha apenas vinte e três anos, nova e imatura. Lembro de ter corrido para o hospital com minha tia e meu marido ainda nas primeiras contrações. Confesso que a dor que sentia com elas me deixava ainda mais assustada. Chegamos lá, um hospital público, por volta da meia noite. Estava certa de que teria a companhia da minha tia e do meu marido comigo durante todo o processo. Assim assegurou meu obstetra, que era chefe dessa unidade, meu ginecologista pessoal e colega dos meus tios. Enquanto dava entrada, preenchendo aquela papelada, minha tia se apresentou como chefe da farmácia de outra unidade do mesmo hospital. Nesse momento chegou o médico plantonista, nos olhou de cima abaixo, sem dizer uma palavra, me puxou pra dentro. Segui com a confiança que os meus estariam vindo atrás de mim. Ao olhar para trás, vi minha tia chorando de raiva e o Paulinho com as mãos esticadas, como querendo me tocar, se despedir. Fecharam a porta e esta foi a última visão que tive deles. A lei que conferia direito a acompanhante só entraria em vigor um ano depois.




Fiquei perambulando pelo corredor com aquela camisola azul, ou seria verde? sem saber ao certo o que deveria fazer, como deveria me comportar. Ninguém me dirigiu palavra. As contrações apertaram e comecei a chorar. Gritando eu pedia ajuda. Não conseguia me manter em pé, muito menos deitada. Meus gritos começaram a incomodar aquele médico que aparentava ser um pouco mais velho que eu. Ele se aproximou e por um átimo sustentei a esperança de que ele pudesse me ajudar de alguma maneira. Ao chegar bem perto, apontou o dedo para uma sala e dirigindo-se à enfermeira, gritou a ordem: manda ela pro sofredouro.





Nem sabia que ainda existia essa sala, para essa finalidade, com esse nome. A enfermeira obedeceu e me deixou lá. Quando saiu, fechou a porta. Estava sozinha. Sozinha, no momento mais importante da minha vida. Gritei, chorei, me contorci. Nunca me senti tão assustada e tão desamparada. Não sei precisar quanto tempo permaneci sozinha naquela sala de paredes esverdeadas, mas foi o suficiente para eu rever toda a minha trajetória de vida. Queria a minha avó, queria meu marido, queria colo. Nesses momentos me sentia tão infantil, na acepção mais pura da palavra. Como uma criancinha, eu queria colo. Não queria sentir dor, não queria ter aquela filha. No segundo seguinte me via como responsável por aquela vida. Minha filha queria nascer e cada contração sinaliza que era hora de eu crescer. 





Muitas horas se passaram até que a enfermeira, a mesma que havia me confinado, foi oferecer o seu apoio. Desconfiada, perguntei o porquê da mudança repentina. Rindo um riso envergonhado, ela disse que o médico estava "operando". Ela me ofereceu um banho quente e com cuidado fez uma massagem nas minhas costas (com óleo de amêndoas paixão). A massagem não era nem um pouco confortável, mas o toque humano sim. 





O dia estava clareando e não parava de pensar na minha tia e no meu marido que estavam do lado de fora.





Perto das seis horas da manhã, fizeram o último toque e me disseram que estava na hora. Estava exausta e cambaleando fui conduzida para a sala de parto. Pediram que deitasse na cama ginecológica mas consegui dizer com um fio de voz que queria ter minha filha de cócoras. "Deita logo". Obedeci. Nenhuma contração era eficiente. Nenhuma contração trazia minha filha para perto de mim. A equipe de mascarados começava a dar sinais de nervosismo. "Tenta de novo". "Faz mais força, menina". Não sei como, mas a força vinha lá do íntimo. Ainda assim, ineficiente. A líder dos mascarados beirou à histeria quando começou a bater nas minhas pernas gritando com um som abafado pela máscara " VO-CÊ-VAI-MA-TAR-A-SUA-FI-LHA". Nesse momento, vi duas mulheres trazendo uma espécie de cordinha. Queriam me amarrar nos estribos.





Não me perguntem como, já que naquele momento estava completamente exaurida, mas num ímpeto, rompi a barreira da inércia, subi na cama e me posicionei de cócoras, que era a minha vontade desde o início. A enfermeira que me ajudou resolveu fazer um pouco mais por mim e trouxe uma barra para que eu pudesse manter o equilíbrio. Chamem do que quiserem, mas chamo isso de instinto.





Naquela posição senti um domínio maior sobre o meu corpo e não demorou para eu ter a Bia em meus braços. Com a decisão de subir na mesa e não me deixar submeter, a menina assustada cedeu lugar a uma mulher capaz de tomar a melhor decisão para a sua filha. 





A menina nasceu e a mulher cresceu.





Cresci quando vivi essa possibilidade de transcender meus limites, quando vi a minha potência como ser humano e a coragem de procurar e encontrar novos caminhos. E é com muito orgulho que hoje olho pra minha filha e digo que fui até a origem para buscá-la.



Depois de trinta minutos no oxigênio, recebi minha filha em meus braços. Contemplei. Beijei. Cheirei. Chorei. Nunca me sentira tão mãe, tão dela.



Ao sair dessa sala para ir à enfermaria, sentada numa cadeira de rodas com a bebê nos braços, pude ver meu marido e minha tia através de um portão. Ela segurava um terço e ele tentava segurar a minha mão. Pai e filha se conheceram através destas grades.







dor do parto, superação, autonomia da mulher, parto ativo, maternidade consciente
presente da Renata Montenegro, a Mulher Vitrola  <3









Faço minhas as palavras da Andrea Santa Rosa, esposa do Márcio Garcia e mãe de três filhos: "Eu não podia passar por essa vida sem a experiência de parir um filho."





Tome o poder para si.

Renasça.


Suba na mesa.









segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Panaceia - Os livros do primeiro semestre


Na mitologia grega, Panaceia era a deusa da cura. E o nome dela passou a ser utilizado com o significado mais abrangente de remédio para todos os males. 





Para mim a leitura funciona mesmo como remédio para todos os males, me emociona, me transforma, me agrega tanto! Retomei este hábito desde que o Otto atingiu uma certa autonomia e já não me sentia tão cansada para acompanhar o raciocínio de uma leitura mais longa que duas páginas. Além de querer também ter um momento que fosse meu, lendo coisas de meu interesse, sem ter que ser necessariamente sobre maternidade.





Esse ano estou até participando de um círculo de leitura! Pessoas bacanas disponibilizaram um livro escolhido entre três títulos, que passeiam pelo Brasil. Estou amando a experiência.





Como não mantive a disciplina de falar aqui no blog sobre cada um deles no momento em que os lia, vou compilar todos os livros lidos do semestre. O ideal seria comentar logo após a leitura, pois muito da paixão se arrefece com o tempo. Está longe de ser uma resenha, mas fica a dica para quem se interessar pelos livros que me fizeram refletir, que me divertiram, que me fizeram companhia.







O Diário de Helga









indicação livro, segunda guerra mundial, livro emocionante, sobrevivente







"Calcula-se que das 15 mil crianças que passaram pelo campo de internamento em Terezín, na Tchecoslováquia, apenas cem chegaram ao fim da Segunda Guerra Mundial.

Helga Weiss, uma dessas raras sobreviventes, é autora de um dos mais comoventes testemunhos do Holocausto. Seus escritos e desenhos registraram com o olhar infantil tudo o que aconteceu com a sua família, desde a segregação dos judeus ainda em Praga até a desumana rotina de privações e doenças de Terezín, onde um carro fúnebre fazia rotineiramente o transporte de gêneros alimentícios.

Artista Plástica respeitada, Helga Weiss, 83 anos, vive em Praga, no mesmo apartamento onde morou com os pais antes da deportação."





As histórias sobre os horrores da guerra, sempre me fascinaram. Quando um amigo me falou sobre esse livro, fui correndo comprar. Fiquei interessada em ver a guerra sob a perspectiva de uma garotinha. O livro é escrito sob a forma de um diário mesmo e a linguagem claro, bem infantil. O que pode tornar a leitura um tanto enfadonha, mas os desenhos e o desenrolar da história são emocionantes!







A sociedade dos filhos órfãos






responsabilidade dos pais, maternidade ativa, maternidade consciente, relação pais e filhos, o poder de consumo






"Crítico severo do modelo social em que vivemos, o argentino Sergio Sinay, terapeuta, palestrante e pesquisador dos vínculos humanos, sustenta neste livro a predominância atual de uma "sociedade de filhos órfãos" de pais vivos. Para ele, não basta colocar um filho no mundo para ser pai ou mãe. Na sociedade atual, em que pais e mães vivem excessivamente atribulados, crianças e adolescentes carecem de orientação, referências, limites e valores que deem sentido às suas vidas. O autor faz um chamado para que seja assumida a responsabilidade da educação dos filhos, tarefa que não cabe exclusivamente às escolas, muito menos às mídias, apresentando uma reflexão extremamente lúcida das consequências dessa omissão, como a violência crescente entre grupo de adolescentes, a obesidade infantil, números estarrecedores de dependentes menores de idade de álcool e outras drogas etc. Esclarece ainda que o acesso à tv e à internet sem qualquer supervisão de pais que não filtram nem esclarecem mensagens de manipulação publicitária, puramente mercadocráticas, são alguns dos fatores responsáveis pelo desencadeamento dos males que cabe a pais e mães presentes e atentos estancar."




Neste livro, o autor desmistifica a falácia do tempo de qualidade na criação dos filhos, propondo um debate sério sobre a responsabilidade de criar um filho. Numa época em que as relações humanas são tratadas como relações comerciais, é urgente a reflexão sobre o nosso compromisso como pais. Recomendo fortemente essa leitura.





Reportagens sobre esse livro aqui e aqui.





Precisamos Falar sobre Kevin











psicopatia, mãe omissa, relação conflituosa mãe e filho, pai omisso







"Para falar de Kevin Khatchadourian, 16 anos - o autor de uma chacina que liquidou sete colegas, uma professora e um servente no ginásio de um bom colégio do subúrbio de Nova York -, Lionel Shriver não apresenta apenas uma história de crime, castigo e pesadelos americanos: arquiteta um romance epistolar em que Eva, a mãe do assassino, escreve cartas ao marido ausente. Nelas, ao procurar porquês, constrói uma reflexão sobre maldade e discute um tabu: a ambivalência de certas mulheres diante da maternidade e sua influência e responsabilidade na criação de um pequeno monstro. Precisamos falar sobre o Kevin discute casamento e carreira; maternidade e família; sinceridade e alienação. Denuncia o que há de errado com culturas e sociedades contemporâneas que produzem assassinos mirins em série e pitiboys. Um thriller psicanalítico no qual não se indaga quem mandou, mas o que morreu. Enquanto tenta encontrar respostas para o tradicional onde foi que eu errei? a narradora desnuda, assombrada, uma outra interdição atávica: é possível odiarmos nossos filhos?"






Sabe quando vc lê um livro e fica pensado nele 24h por dias a fio? Esse livro mexe com as todas as nossas certezas. Nos sacode. Nos faz pensar, nos enche de questionamentos. É perturbador. Existe mesmo alguém que nasce ruim? É possível odiarmos um filho? A Eva é uma mulher bem sucedida e tem uma relação muito forte com o marido. Nunca quis ser mãe, porque não queria perder sua independência, muito menos sacrificar a convivência e a intimidade com seu marido. Ele a pressiona querendo um filho, por amor ela cede. Não viu a mágica da maternidade acontecer, viveu o horror de uma gestação indesejada e logo após o nascimento,  rejeitou o filho. Na primeira análise que fiz do livro, tomei partido da mãe, fiquei com asco do pai omisso e permissivo e com ódio do Kevin. Assisti ao filme - péssimo na minha opinião - e o senso aguçado da Pri Perlatti me fez perceber que toda a narrativa era apenas do ponto de vista dela, da mãe. Isso muda tudo. Muda?






Princesa






machismo, misoginia, violência estatal, instituição religiosa do oriente médio, indicação de livro, autoridade de homem







"Filha da Casa Real da Arábia Saudita, Sultana é uma lutadora rebelde inconformada com seu destino - o mesmo de geração de mulheres submetidas à realidade de total restrição e impedimentos imposta pelas instituições familiares, religiosas e sociais no Oriente Médio. Personagem de um relato verídico e comovente, suas palavras são, acima de tudo, um pedido de socorro que vem das desérticas paisagens do Oriente Médio para ecoar na memórias e na consciência do leitor ocidental."






Esse livro chegou até a mim, pelo círculo de leitura do qual participo. Tinha muita vontade de ler, pois retrata o sofrimento de mulheres que têm seus direitos usurpados por uma sociedade patriarcal e mostra a força vital de lutar por equidade. Insurgir-se é um ato de coragem. Foi isso que essa princesa fez ao denunciar abusos, estupros coletivos, privilégios concedidos única e exclusivamente por serem homens. As mulheres, independente de sua classe social, vivem sob constante ameaça, sujeitas a julgamentos bárbaros em nome da honra. Elas são como objetos sem nenhum valor e sua única função é a de adorno. Esse tipo de leitura nos permite traçar um paralelo entre a cultura deles e a nossa que, convenhamos, não é tão diferente assim. A única diferença, é que o julgamento na nossa sociedade, igualmente machista, é de ordem moral. Quero muito ler os outros dois livros. Aqui um trecho:



"A autoridade do homem saudita é ilimitada; sua esposa e filhos só sobrevivem se ele assim o desejar. Dentro de casa, ele é o governo. Esta situação complexa começa na criação dos nossos meninos. Desde a tenra idade, o menino aprende que as mulheres têm pouco valor: elas só existem para o conforto e conveniência dos homens. A criança vê o desprezo com que sua mãe e irmãs são tratadas pelo pai; esse desprezo explícito o induz a desrespeitar todas as mulheres (...)"










Holocausto Brasileiro






holocausto brasileiro, institucionalização do seu humano, medicalização da vida, luta antimanicomial









"Neste livro-reportagem fundamental, a premiada jornalista Daniela Arbex resgata do esquecimento um dos capítulos mais macabros da nossa história: a barbárie e a desumanidade praticadas, durante a maior parte do século XX, no maior hospício do Brasil, conhecido por Colônia, situado na cidade mineira de Barbacena. Ao fazê-lo, a autora traz à luz um genocídio cometido sistematicamente, pelo Estado brasileiro, com a conivência de médicos, funcionários e também da população, pois nenhuma violação dos direitos humanos mais básicos se sustenta por tanto tempo sem a omissão da sociedade. Pelo menos 60 mil pessoas morreram entre os muros da Colônia. Em sua maioria, haviam sido internadas à força. Cerca de 70% não tinham diagnóstico de doença mental. Eram epiléticos, alcoólatras, homossexuais, prostitutas, gente que se rebelava ou que se tornara incômoda para alguém com mais poder. Eram meninas grávidas violentadas por seus patrões, esposas confinadas para que o marido pudesse morar com a amante, filhas de fazendeiros que perderam a virgindade antes do casamento, homens e mulheres que haviam extraviado seus documentos. Alguns eram apenas tímidos. Pelo menos 33 eram crianças."





Um livro que relata os horrores dentro do maior hospício do Brasil, num passado recente e desconhecido da maioria dos brasileiros. Eis o perigo da institucionalização que, disfarçado de política pública visa tão somente, uma limpeza social com a manutenção da violência e da medicalização da vida. Os que recebiam o passaporte para o hospital, tinham sua humanidade confiscada. "O fato é que a história do Colônia é a nossa história. Ela representa  a vergonha da omissão coletiva que faz mais e mais vítimas no Brasil. (...) O descaso diante da realidade nos transforma em prisioneiros dela."











Marina











carlos ruiz záfon, literatura gótica, indicação de livro, mistério
[reprodução]





"Na Barcelona dos anos 1980, o menino Óscar Drai, um solitário aluno de internato, conhece Marina, uma jovem misteriosa que vive num casarão com o pai idoso. Em passeios pela cidade, os dois presenciam uma cena estranha num cemitério e se envolvem na resolução de um mistério que remonta aos anos 1940. Numa tentativa inútil de escapar da própria memória, Óscar abandona sua cidade. Acreditava que, colocando-se a uma distância segura, as vozes do passado se calariam. Quinze anos mais tarde, ele regressa à cidade para exorcizar seus fantasmas e enfrentar suas lembranças - a macabra aventura que marcou sua juventude, o terror e a loucura que cercaram a história de amor."




O primeiro livro que li do Zafón foi A Sombra do Vento e amei seu estilo, a leitura fluida e uma história bem construída, cheia de suspense. Com esse livro não foi diferente. Marina é um livro tocante, com uma trama envolvente e bem amarrada. Já posso dizer que sou fã do estilo e desse autor.







Por favor, cuide da mamãe






indicação de livro, por favor, cuide da mamãe, família, reencontro, busca







"Park-SO-nyo, 69 anos, esposa e mãe, levou uma vida de sacrifícios. Há alguns anos, sofreu um derrame que a deixou vulnerável e confusa. Certo dia, viajando do interior da Coreia do Sul até Seul para visitar seus filhos já crescidos, Park perde-se do marido quando as portas do metrô se fecham. Ela nunca mais é vista. Começa então a procura, liderada pela família, que se transforma em uma exploração emocional, repleta de remorso, de lembranças do passado e da triste descoberta da mãe que eles nunca conheceram."






Em que ponto da nossa existência ficamos invisíveis?  O sumiço da mãe dá início a uma busca repleta de fortes emoções e remorso. Os filhos têm a possibilidade do reencontro consigo mesmos e com essa mulher que eles nunca conheceram. Apesar de sensibilizada com a história, fiquei um tanto decepcionada com a forma confusa com que a narração é construída.









Leu ou ficou com vontade de ler algum desses?



Já estou preparando a listinha para o segundo semestre, alguma indicação?







segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O que importa?


Ultimamente tenho preferido assistir a documentários por me proporcionarem reflexão e por tratarem de questões que interessam a todos nós e que não se vê retratado com imparcialidade por nenhuma grande mídia. O último que assisti chama "A linda verdade" sobre as descobertas de um jovem na exploração do funcionamento do corpo humano. Mostra como tratamentos alternativos que podem curar doenças crônicas são fortemente combatidos pelo forte poder financeiro da indústria farmacêutica internacional, que tem por função precípua tratar o "sintoma" e não as causas da doença.





Bom, fiquei particularmente tocada com a parte final do documentário e por isso transcrevo aqui:







documentário, uma linda verdade, terapia de gerson, cura do câncer, esperança, indústria farmacêutica
foto: Paulo Waldehiny








"Para cada um de nós, eventualmente, se estamos prontos ou não, um dia essa vida vai chegar ao fim. Não haverá mais alvoradas. Ou minutos, horas ou dias. Todas as coisas que você guardou, valorizadas ou esquecidas, vão passar para outra pessoa. Sua riqueza, fama e energia, se reduzirão à irrelevância. Não importará o que você tem ou deve. Seus rancores, ressentimentos, frustrações e ciúmes vão finalmente desaparecer. Então, suas esperanças, ambições, planos e listas expirarão. As vitórias e as perdas que antes pareciam tão importantes desaparecerão. Não importa de onde você tenha vindo, ou de que lado da pista você está. Não importa se você é bonito ou brilhante. Mesmo qual o seu sexo ou a cor da pele, tudo isso será irrelevante. 





Então, o que importa? 





Como o seu valor será medido? O que importa não é o que você comprou, mas o que você construiu. Não o que você tem, mas o que vc deu. O que importa não é o seu sucesso, mas o seu significado. O que importa não é o que vc aprendeu, mas o que você ensinou. O que importa é todo ato de integridade, coragem, compaixão ou sacrifício, que enriqueceram, encorajaram ou ajudaram outros a imitar o seu exemplo. O que importa não é a sua competência, mas sua personalidade.  O que importa não é quantas pessoas conheceu, mas quantas sentirão sua falta quando você se for. O que importa não são suas memórias mas as lembranças que vivem naqueles que te amaram. 





Uma vida que importa não é uma questão de circunstâncias, mas de escolhas."







quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Toma que a responsabilidade também é tua!


Há poucos dias vi uma página no facebook que foi criada com o objetivo de ofertar uma criança à adoção longe da supervisão legal. A mãe da criança alegava que não estava suportando o peso da responsabilidade, que seus pais não a apoiavam e ela não tinha pra onde ir. Uma história como a de muitas mulheres que levam a gestação e o nascimento de um bebê como se sozinhas tivessem reproduzido





Antes de denunciar a página no site da Polícia Federal e antes mesmo das denúncias serem apuradas e chegarem a grande mídia - descobriram inclusive, outras páginas com o mesmo teor -, me dei ao trabalho de ler alguns comentários. A revolta expressa ali por muitas mulheres não me causou espanto visto a gravidade do ato, que é tipificado tanto no Código Penal, como no Estatuto da Criança e do Adolescente. Incorrendo na pena tanto quem vende como quem compra.



Bom, o teor dos comentários era basicamente o mesmo. Algo que variava "não soube fazer, sua p..., agora cria". Ou "pular fora é fácil, pensasse nisso antes". Ou ainda "pra abrir as pernas tu gostou, né sua v...". E foi isso que (também)  me chamou atenção nesse caso: em nenhum momento nenhuma daquelas mulheres que dispuseram do seu tempo para prestar sua indignação questionou a responsabilidade do pai. Como se a questão se restringisse única e exclusivamente à  figura feminina. Isso reflete de uma certa maneira como a sociedade encara a responsabilidade sobre a reprodução.



Não podemos simplesmente punir as mulheres pelo seu desfrute sem levar em consideração a responsabilidade masculina. A menos que elas sejam uma minhoca, que se fecunda, gesta e pari sozinha.



Por que a mulher é totalmente responsabilizada pelo controle de natalidade? Como isso repercute em nossa sociedade?



Não se pode discutir esse assunto sem levar em consideração o papel ideológico do gênero que cria uma espécie de diferenciação como se o campo da reprodução e todas a sua responsabilidade fosse essencialmente feminino, enquanto a sexualidade coubesse aos homens que são reféns (que dó!) de seus instintos sexuais. O que gera a dualidade entre natureza materna x natureza sexual que seria intrínseca a cada um de nós.



O método contraceptivo masculino é o preservativo, cujo uso precisa ser incentivado em larga escala pois eles se abstêm de usar. É desagradável, claro. Estamos em 2013 e a pílula anticoncepcional masculina ainda está em fase de teste. Percebam o grande interesse. Se os homens de um modo geral estivessem de fato preocupados com a  sua responsabilidade, tanto na reprodução quanto na criação da prole, poderiam optar pela esterilização - a vasectomia.



No Brasil, segundo o SUS, há critério para um homem realizar a cirurgia. Só pode ser realizada em homens com mais de 25 anos e que tenham no mínimo dois filhos. O número de procedimentos passou de 7,7 mil em 2001, para 34 mil em 2011. Importante ressaltar que faltam políticas públicas voltadas para o público masculino, porque é do senso comum que o controle da natalidade seja de responsabilidade da mulher.



O único programa de saúde do homem que há hoje em dia visa discutir doenças como o câncer de próstata e levá-los para os exames periódicos, sem discussão sobre a interface papel social/saúde masculina. Com relação às mulheres, há o PAISM - Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher, criado na década de 80 e que tem ampliado muito o acesso das mulheres aos programas de saúde, casos de violência e planejamento familiar. Ou seja, programa de saúde do homem = impotência = virilidade e nada de planejamento familiar. Significa. (grata à Cientista pelo adendo).



Será que é por isso que, segundo o censo do IBGE realizado em 2009, haja aproximadamente 5 milhões de alunos matriculados na rede pública e privada que não tem o pai declarado em suas certidões de nascimento? Situação essa que fez com que o CNJ - Conselho Nacional de Justiça - lançasse o projeto Pai Presente que estabelece medidas a serem adotadas pelos juízes e tribunais brasileiros para reduzir o número de pessoas sem paternidade reconhecida no país, cujo objetivo é identificar os pais que não reconhecem seus filhos e garantir que assumam as suas responsabilidades, contribuindo para o bom desenvolvimento psicológico e social dos filhos.



Não sei se vcs sabem, mas meu marido optou pela esterilização para tomar parte no planejamento familiar. Segundo ele, eu já tinha feito muito e não seria justo que eu me submetesse a uma laqueadura - procedimento bem mais invasivo. Muito menos queria me condenar a pílula até que entrasse na menopausa. A vasectomia dele levou meia hora, teve aplicação de anestesia local e foi tão tranquila que ele foi e voltou sozinho e ainda por cima dirigindo.



Esse procedimento ainda é associado a  (im)potência sexual ou a diminuição do prazer, por incrível que possa parecer. Inclusive, meu marido passa por muitos desses questionamentos por parte dos amigos, dos colegas de trabalho. Estes dizem que jamais se submeteriam a vasectomia, porque se sentiriam invadidos na sua masculinidade. (!)



Mas por que eles se submeteriam, né mesmo? Há quem faça o trabalho por eles.



Em contrapartida, é no corpo feminino que recaem todos os efeitos colaterais das pílulas, as gravidezes indesejadas e o peso do julgamento de uma sociedade estritamente machista.



Claro que o panorama não é de todo ruim. Há uma geração de homens que buscam viver a paternidade ativamente e é por isso que esta deve ser mais inclusiva.



As pessoas têm que parar com essa mania de comprar a ideia do homem imbecilizado - tomando emprestado esse termo do marido, que não se sente representado pelo ideal masculino pintado pela publicidade. Incapaz de gerir uma casa, incapaz de cuidar de alguém ou de alguma coisa, incapaz de respeitar uma mulher, sempre se rendendo aos seus instintos sexuais.



Sendo urgente também a desnaturalização dessa incapacidade por nós. Porque muitas mulheres também compram essa ideia e criam seus filhos sob estes moldes, perpetuando o ciclo.






responsabilidade na reprodução, saúde do homem, feminismo, paternidade ativa, CNJ
Não os subestime. Claro que eles são capazes.

via 





A ideia romanceada e e finamente construída de que a relação entre mãe e filho é insubstituível acaba também por afastar o pai, pois impõe um limite ao seu envolvimento ativo. O homem não deve se sentir de fora de um processo do qual tem profunda importância e relevância.



Temos que abrir espaço para que o homem exercite a sua paternagem, tome um lugar que lhe pertence para que possa participar ativa e intensamente desde o apoio no parto e na amamentação até os cuidados com o bebê.








homem imbecilizado pela publicidade, responsabilidade na reprodução, vasectomia, saúde do homem, responsabilidade recai sobre a mulher, luta feminista, paternidade ativa
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Embora defenda essa participação, acho desnecessário render homenagem quando um pai solteiro assume a responsabilidade da criação de um filho que ele mesmo gerou. Com o apoio da mesma família que geralmente vira as costas para as mulheres que embucharam indevidamente. Afinal, alguém já viu uma manchete dessas: "Mulher solteira cria o filho sozinha, sem ajuda de ninguém"? Eu não.



Espero que pais como esse da reportagem passem a ser vistos com normalidade, para que possamos render homenagens a pais como esse que num momento de desespero resolve amamentar a própria filha por entender que o ato de amamentar vai além da produção de leite. É uma linguagem de amor, carinho e atenção.



Que essa paternidade sim, reverbere.







segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Apego e desapego: para deixar crescer


Olhava pra ela ali deitada ao meu lado e abismada constatei: já ocupa o comprimento da cama. Apesar de tão grande, consigo ver seus traços de menina ainda tão fortes, que a fazem tão especial, tão diferente. Ouvi-la falar, perceber seus trejeitos, a forma como arruma o cabelo, as músicas que seleciona para ouvir fazem com que eu me reconheça nela. Outras vezes, o pai. São muito parecidos. Agora, a melhor parte, é quando eu a vejo com coisas que só pertencem a ela, a mais ninguém.





A puberdade não é uma fase tão difícil como pintam, nem tão fácil como se desejaria. Como tudo na vida, aliás. É uma fase deliciosa de descobertas, de uma vivacidade que jamais deveria nos abandonar. Os cuidados são os mesmos que temos com quem está aprendendo a andar. Porque de fato, eles estão, num outro contexto, é claro.



* * * * * *





Os nossos semestres começaram e com ele um desafio para toda a família. Paulinho retomou seu curso e a aula cai num dia da semana que no semestre passado estava vago para mim, coisa que não se repetiu neste. Tentamos achar uma pessoa que pudesse ficar em casa com os meninos neste dia, mas não encontramos, embora isso tenha gerado um choque entre responsabilidade e necessidade.



Bia que sempre pedia uma chance, viu nessa situação uma oportunidade e pediu que confiássemos nela, pois se sentia preparada para assumir o compromisso de ficar só em casa, cuidando do irmão por um tempo.





Em nossas conversas, sempre tentava ponderar lhe dizendo que confiávamos nela, que o fato de não permitir não significava desconfiança, mas a estávamos protegendo do inesperado, daquilo que não se pode prever. Caso acontecesse algo - sempre trabalhamos com situações hipotéticas - ela carregaria uma culpa demasiado grande por ser tão nova.



Analisando friamente, sim! estávamos desconfiando de sua capacidade e de sua maturidade para lidar com situações inesperadas. Afinal, estaria ela preparada para agir sob pressão? Como ela se sairia na hora de assumir o controle? E a pergunta voltou para nós: como nós nos sentiríamos como pais delegando esse controle? Como saber e orientar se não tentarmos? Se trabalharmos sempre com hipóteses?





Ela não desistiu e sempre trazia novos e irrefutáveis argumentos. Passamos quase um mês nos preparando mas nada lhe dissemos. Uma preocupação: as briguinhas entre eles.



Fortalecer o amor dos irmãos, fomentar a união é uma preocupação de toda mãe que tenha mais de um filho. Sempre quis que meus filhos fossem unidos, porque acredito que é uma amizade para a vida toda. Só o laço de sangue não é suficiente pra isso. 



Nesse período de férias, um pouquinho antes até, um fato curioso aconteceu. Otto ao invés de tomar o caminho pra nossa cama, como eventualmente faz em noites de pesadelo, procurou o quarto da irmã. Levando travesseiro, lençol e um edredom subiu escadas. Como queria ter presenciado essa cena!





Temos presenciado uma das cenas mais lindas dessa vida de pais de dois: ver os filhos dormindo abraçados. No começo esse sumiço dele no meio da noite me rendeu sustos homéricos ao me deparar com a cama vazia, mas ele fez disso um hábito. Como os dois pareciam satisfeitos, não interviemos. Passaram a fazer coisas que irmãos adoram fazer juntos antes de dormir: cantam, conversam, contam histórias. Tudo aos sussurros. E eu sempre fingindo que nada ouvia.



Desde que meus filhos começaram a dormir juntos, estão mais unidos. Isso despertou neles a necessidade de cuidado com o outro, aprimorou o diálogo, os tornou mais cúmplices. Cama compartilhada fortalece vínculos. Quem duvida?



Isso tudo foi muito importante para definitivamente tomarmos a nossa decisão. Bia já vem demonstrando ser dona de sua capacidade volitiva e quer se fazer respeitar, quer mostrar que pode, nos pede confiança. Quer crescer. Não vê necessidade de nos acompanhar a padaria e até já manifestou vontade de ir para a escola a pé, como muitos dos seus colegas.



Além de conversamos muito, de instrui-la, contamos com uma rede de apoio. O colega de trabalho  do Paulinho e nosso amigo, fica sempre de olho e atento para o que acontece na casa. Paulinho, tacitamente, fica responsável pelas ligações enquanto estamos fora. Isso jamais poderia fazer sem conter o ímpeto de pegar o carro e voltar pra casa.



Na primeira vez que aconteceu, saí de casa sem racionalizar para não perder o foco. Quando cheguei em casa, tarde da noite, ela estava a minha espera. Embevecida, a olhava enquanto ela me passava orgulhosa o relatório da noite. Terminaram de jantar sozinhos, acomodaram as louças na pia e Otto dormiu no horário de sempre. "Mãe, foi tudo tão tranquilo, como se vc estivesse em casa."



Na segunda vez, ao invés de sair como de costume, caí na besteira de olhar para trás. Os dois sentadinhos à mesa, retribuíram o olhar. Fui chorando de casa até a faculdade. Ainda na primeira aula, segurei o impulso de voltar. Pensei na Bia. O que ela acharia de mim se me visse desistir, vacilar no primeiro desafio? Que valores ela levaria para a vida dela?



Afinal, para eu estar aqui, eles estão lá. Por ela e por mim preciso ir até final. Lavei o rosto, tomei um café forte e ressignifiquei a expressão força de vontade.



Minha relação com meus filhos tem disso: me propicia atribuir novos significados a velhas palavras.



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É inegável a força do exemplo.



Bia insistiu tanto em se mostrar capaz de assumir compromissos, porque sabe que não podemos contar com ninguém. (moramos longe da família). Porque ela vê como nos desdobramos para dar conta de tudo e como nos apoiamos mutuamente. Porque ela sabe que cada um dentro dessa família tem um papel a desempenhar, para o bem estar de todos.




esta família é uma cooperativa, mafalda, quino, responsabilidade, amadurecimento, puberdade





Ela quis enfim, assumir o dela.






"Crianças sentem o que sentimentos, acessam nossos sentimentos e são capazes de ser grandes companheiras, parceiras de vida, de uma vida inteira. Vão mudando de fases, nos surpreendem a cada fase e nosso dever, por mais violência que haja no mundo, por maiores que sejam nossas inseguranças e medos, é acompanhar e respeitar suas necessidades. (...) compreendidas e atendidas, elas também compreendem e atendem." - trecho do Buena Leche







sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Sem maquiagem nos sobra a realidade







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A maternidade é o arremate de uma vida bem sucedida.





Experimente ter tudo o que sempre sonhou, ter uma boa colocação no mercado de trabalho, conhecer os lugares que sempre quis conhecer, falar várias línguas, mas nada disso terá sentido se você não tiver um filho. É nisso que acreditam e que nos fazem acreditar.





Nesses termos a maternidade encerra em seu significado a ideia de plenitude, de felicidade. Portanto, é uma experiência idealizada, fantasiada, romanceada. Afinal, a família é por definição, um lugar de congregação, harmonia e bem-estar.



Ir contra isso é violar o mais sagrado dos pactos. Nem todo precisa optar, nem todo mundo precisa querer, mas quem entrar nesse universo tem que saber o que o aguarda. Embora existam percalços, prefiro acreditar na força transformadora da maternidade. Quando engravidei, pensei de forma equivocada que estivesse mergulhando no universo materno, mas qual não foi minha surpresa ao constatar que estava mergulhando em mim mesma.



Todo mundo se prepara para receber o bebê e não para ter o bebê. Estamos mais preocupados com a montagem do enxoval, se vamos ou não comunicar à sociedade de forma oficial que seremos pais, ficamos   mais envolvidos com a escolha do nome, com o planejamento do parto do que necessariamente amadurecendo a ideia de ser responsável vitaliciamente por alguém. 





É verdade que ninguém fala sobre como as noites insones nos deixam amargas e à beira da loucura. Ninguém fala abertamente sobre a solidão que uma puérpera sente após o nascimento do bebê. Ninguém fala com clareza sobre o rombo no orçamento. Ninguém nunca fala que sua vida de antes, nunca mais será a mesma. Ninguém te fala sobre os desencontros no seu relacionamento e que aquele bebê tão esperado poderá gerar fricções e disputas. Ou melhor, até falam, mas costumamos não dar ouvidos, por pensar que com a gente tudo vai ser diferente. Talvez isso explique o choque quando nos deparamos com a realidade, quando enfrentamos tudo isso pela primeira vez.



Choque e espanto geram a culpa. Isso nos divide emocionalmente.



Para se ter um bebê, mais do que roupinhas e berço, é necessária uma maturidade que vc, tão otimista quanto eu, até achava que tinha. Sim, porque é preciso muita maturidade para entender que a partir daquele momento, vc não será o centro de suas decisões, haverá outro ser menor e indefeso que dependerá totalmente de vc, que te acordará todas as noites, seja por sono ou por carência. Sendo tirado de ti o direito que te pertencia até então, o de simplesmente se negar, de não dar a mínima. Essa é uma tarefa que devemos assumir com afinco, amor e responsabilidade. Afinal, é para sempre.




Maturidade e responsabilidade deveriam ser itens básicos de todo e qualquer enxoval. Mas sabe por que não figura em nenhuma listinha? Porque só podem ser adquiridos com a prática.





Lembro da solidão que senti na minha licença-maternidade. Enquanto estava ali, isolada, com aquela sensação estranha de deslocamento, via da janela que o mundo continuava igualzinho. Admirando toda aquela  pressa, por pouco não esqueci que deveria aproveitar o momento para interagir com minha filha. Era um momento nosso, da família, de nos conhecermos e criarmos um vínculo, criarmos intimidade. Se eu a queria tanto, por que estava preocupada com a vida de antes? Responsabilidade assusta. E a vida jamais voltaria a ser como antes, porque eu já não era mais a mesma.



Por falar em intimidade, as mudanças na vida conjugal também nos dividem emocionalmente. Isso porque nos falta o entendimento de que a vida nada mais é que o conjunto de mortes e renascimentosDeixamos de ser casal e passamos a ser uma família. Isso, em hipótese alguma, implica na diminuição do amor, nem no desfazimento dos laços. É só uma questão de adaptação.


É como família, que devemos acolher nosso filho. Esse é o amor mais forte e verdadeiro que já pude um dia experimentar. Foi com a força desse amor, que como qualquer outra mulher, consegui superar os imprevistos da maternidade.



O que une mãe e filho fisicamente é cortado logo após o nascimento, mas existe um elo muito mais forte que continuará nos unindo por toda a vida.



Continuaremos ligados pelo coração, pelo amor, pelo afeto.









*  texto publicado originalmente no blog Mãe bacana.