![]() |
| Com meu andador super moderno |
Quando penso em família, a primeira imagem que me vem à cabeça é da grande mesa retangular com meu avô disposto à cabeceira, meus tios ocupando os outros lugares aleatoriamente e minha avó, como era de seu feitio, servindo a galera. Eram quatro tios! E fizeram com que a minha infância fosse a mais incrível possível.
Estou falando aqui de uma época em que eu reinava absoluta, de uma época onde não haviam primos, muito menos irmãos. Era eu, a única criança, tentando entrar de penetra na adolescência alheia.
Não fui a melhor sobrinha do mundo. Não mesmo. Pentelhei a vida deles todos de uma forma diabólica, com a aura angelical que me rodeava.
Ficava sempre à espreita, pelos cantos, dando conta de cada movimento deles. E quando ouvia as palavras: pracinha, missa, feirinha e festa saía da toca e lhes implorava que me levassem junto. Prometia que me comportaria, que não pediria nada e que muito menos comentaria com meus avós o que de fato eles iam fazer nesses lugares.
Era a glória comer pipoca depois da missa, em companhia de um grupo de adolescentes descolados.
Muitas vezes dava certo, até porque, eu tinha categoria como lobista. Quando eles demoravam a me dar resposta, corria pro vovô e dizia como eu poderia ser-lhe útil. Ia na condição de infiltrada. E recebia como pagamento de ambas as partes, que fique claro, várias dezenas de caramelo do Fofão.
Ah! esse caramelo do Fofão me fez cometer loucura! Numa de minhas espionagens secretas, descobri minhas duas tias fumando escondido lá no fundo do quintal. Perdeu, playboy. Devo ter ganho meia dúzia de cáries com essa chantagem! E sempre que uma tentava me dizer um não, eu ameaçava contar tudo, tu-di-nho pro vovô. Eu não era má, eu era pésssssiiiima! ha ha
Não pensem vcs que só EU aprontava com eles não....eles também sabiam ser cruéis. E a vingança preferida deles era me sentar no quarto e me fazer ouvir repetidas vezes a música do Roberto Carlos chamada Caminhoneiro. Sabe aquela? "eu sei ei ei, todo dia nessa estrada..." Pois é, como meu avô era caminhoneiro e passava semanas fora, eu chorava de soluçar ouvindo essa música, enquanto os perversos riam de se dobrar.
Foi uma época em que se usava gel de cabelo new wave, calças bagg e semibagg, ombreiras, polainas de lurex, assistíamos Armação Ilimitada, O Gato e o Rato, Trovão Azul, McGyver, Kate Mahoney, Ilha da Fantasia com o Batatinha. Se dançava loucamente ao som de Sidney Magal, Gretchen, Morais Moreira enquanto Ritchie arrebatava corações com o seu abajur cor de carne.
Minhas tias também me fizeram acreditar piamente na história do batom Boca Loca, aquele mesmo da novela Tititi. Tudo isso pra me impedir de usar o batom delas, obviamente! Até o dia em que descobri...
E essa camaradagem da infância, virou uma sólida cumplicidade. Eles viraram meus amigos, confidentes e faziam as vezes de pai. Sempre pude contar com eles. Sempre.
A admiração era tanta que cogitei ser professora por causa de duas delas; cientista por causa da versão feminina do Sheldon Cooper e médica por causa do único tio homem.
Cresci amando tanto ao ponto de idolatrar meus quatro tios. Tão diferentes e tão iguais.














