Sou uma pessoa organizada. Gosto de saber e me preparar para os compromisso com antecedência. Ainda assim, não gosto da rigidez das agendas com aqueles itens a serem ticados um a um, num padrão meio robótico. Simplesmente, porque nem sempre consigo fazer tudo o que programo. Basta um item não cumprido para eu sentir o caos se instalar me mostrando que não fui capaz.
Sou uma pessoa que custa a tomar decisões sérias e importantes. Penso meticulosamente, analiso os riscos. Mas nem sempre é assim. Nem sempre foi assim. Em algumas (muitas) situações, como boa sagitariana que sou, atropelo tudo, falo o que penso e me jogo no abismo da precipitação. Mas sei retroceder. Sei reconhecer quando faço uma merda. Volto atrás sem culpa e sem rodeios.
Aconteceu isso comigo há pouco tempo. Aliás, isso quase sempre acontece comigo. Talvez seja parte de um plano cármico.
Ao vencer aquela batalha interna por ter que matricular meus filhos numa escola pública, decidi que aceitaria que Otto frequentasse a creche em período integral. Ele tem cinco anos e nunca havia ficado fora de casa por dois períodos, como sua irmã um dia precisou ficar. Para mim e as necessidades que criei diante dessa possibilidade, era perfeito!
Já tinha decidido que iria estagiar numa Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher, dedicaria minhas manhãs à Bia - coisa que não faço desde...que Otto nasceu! - a ajudaria com suas tarefas, em dias de prova e ficaria tranquila para escrever minha monografia. Ótimo! Na minha cabeça, claro.
Parti do pressuposto que meu filho se adaptaria a nova rotina com muita facilidade. Por ser ele um menino muito vivo, muito cheio de energia, muito curioso, muito sociável. Mas frequentar os dois turnos não durou uma semana completa. A creche passa a aceitar as crianças a partir das 7:30min e os entrega aos pais às 18:30min. Comecei a receber meu filho no fim da aula, muito apático, sem vida, sem entusiasmo. Isso porque usei da tolerância e o buscava às 16:30!
Não demonstrava interesse por nada e sequer tinha aprendido o nome das professoras. O que foi recíproco, porque ela até a terceira semana o chamava de Pedro, João e sempre que me via perguntava: como é mesmo o nome dele? No terceiro dia em que ele estava seguindo essa rotina nova, na hora em que o colocava para dormir, ele falou baixinho com lágrimas nos olhos: mamãe, não me leva pra escola de manhã. Deixa eu ficar em casa com vocês? Não gosto de almoçar sozinho. Como não cederia a esse pedido? O abracei, pedi desculpas por ter permitido que ele frequentasse o período integral, expliquei a ele o que me motivou a tomar essa decisão. Deu-me um abraço e adormeceu.
No dia seguinte, assinei um termo para liberar a vaga da manhã para outra criança. Ele continuou indo para escola normalmente, mas apenas no período da tarde. Foi então que agucei meu olhar para o que acontecia em seu entorno e no tratamento dispensado às crianças. As professoras eram frias e distantes, como falei sequer sabiam o nome do aluno. Não custou muito para compreender o porquê do desinteresse do meu filho - um menino que chorava diariamente para NÃO sair da escola antiga, por três anos consecutivos.
Bom, lá tudo funcionava como numa escolinha tradicional. Havia uma preocupação excessiva com os horários, acredito que por conta da quantidade de refeições oferecidas durante o dia, motivo pelo qual as tarefas do projeto desenvolvidas em sala de aula eram muito metódicas, não fluiam. As tarefas não eram grandes coisas. Eles recebiam um desenho pronto e a criança tinha que pintar dentro ou colar bolinhas de papel sem sair da risca. Não havia liberdade para criar. Era aquilo e pronto.
Com relação ao projeto, que tratava do fundo do mar - tema que Otto ama - fui chamada atenção ao final do aula. O motivo? Meu filho falava demais. Sim, querida professora, eu sei. Mas falava o quê, especificamente? Atrapalhou tua aula? Não - ela respondeu. Otto sabe nomes de todos os peixes. Peixes dos quais nunca ouvi falar. Sabe do que se alimentam e em que região do mundo vivem. Mas o problema é que as outras crianças desconhecem essas informações e isso atrapalhou um pouco. Converse com ele, por favor. Ou seja, eu teria que frear meu filho porque o conhecimento que sua cabecinha de cinco anos consegue acumular anda incomodando. Como explicaria isso a ele?
Por fim, um colega da turma, batia no Otto. Aliás, esse não era um privilégio do meu filho. O coleguinha distribuía sopapos em qualquer um que passasse a sua frente. Otto reclamava que não achava justo, que isso não estava certo. Antes de conversar com a professora, orientei o Otto a não revidar. Disse que ele poderia se defender de outras maneiras. A surpresa se deu no dia em que consegui conversar com a professora e ela no tom ríspido de costume disse que já havia tentado resolver a situação. Como? - perguntei. Ora, coloquei o menino na frente e pedi pro Otto dar um soco. Assim, ele iria pensar duas vezes antes de bater nele de novo. Mas teu filho disse que se fizesse isso naquele momento, não estaria se defendendo. Garoto esperto esse meu filho! Claro - retruquei. Seria uma agressão pura e simples. Procure os pais dessa criança para saber o que anda acontecendo no convívio familiar. Isso pode ajudar. Dei as costas e saí.
Tem escolas que funcionam apenas como depósito humano, essa é que a verdade.
Foi então, que naquele dia, naquele instante, decidi que não levaria mais meu filho para escola. Sem nenhuma filosofia em vista, só uma vontade enorme de acolher meu filho. Uma decisão impensada tomada por impulso, muito peculiar a minha personalidade. Não conversamos nesse dia, fui à faculdade e não fui eu a colocá-lo na cama. No dia seguinte, perguntei a ele o que ele achava de ficar em casa comigo todos os dias, durante todo o dia. "Jura, mamãe?"
Expliquei para ele o que costumo fazer das minhas tardes, dizendo que preciso me dedicar a algumas leituras, que às vezes preciso sair pra resolver alguma coisa e que de vez em nunca me permito tirar um cochilo. Há três semanas estamos juntos.
Não houve mudança significativa na minha rotina. Continuo fazendo tudo o que fazia antes, embora tenha reservado um tempo só para ele nas minhas tardes. Ganhou uma lupa enorme para analisar pedras da coleção que herdou da irmã, ganhou livros grossos sobre o funcionamento do corpo humano, de dinossauros, mapas e joguinhos de alfabetização. Como sou contra brincadeiras dirigidas, o deixo livre para brincar com o que quiser. Também diminui os nãos desnecessários. Continua fazendo seus experimentos. Cava buracos no quintal para criar campos de golfe. Junta folhas numa caixinha e vive procurando besouros no jardim. Já faz contas simples, conhece todo o alfabeto e reproduz muitas palavras em folhas soltas.
Longe de tudo o que lhe tolhia, longe de tudo o que aprisionava seu espírito livre. Porque a infância é curta demais para ser desperdiçada com aulas desestimulantes em escolas que desperdiçam o potencial gigantesco de uma criança. Criança precisa sentir prazer.
| Estou vendo uma esperança. |
Estamos vivenciando a aprendizagem como um processo e não como um meio para um fim.















