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terça-feira, 14 de agosto de 2012

Denúncia de incoerência





Na minha cidade, de tanto oferecer minha cabeleira para experimentos com profissionais desconhecidos, acabei elegendo aquele que tinha a técnica perfeita para domar meus cabelos ondulados, que, convenhamos, é o mais difícil de cortar. Sabe aquela coisa volumosa que nem é completamente liso nem completamente crespo? É o meu.





Já tive cabelo chitãozinho-xororó no começo da década de 90, franja que faria índia potira shorar de inveja, estaqueado (é o novo!) e retão estilo Irmã Zuleide. Não por escolha, vale dizer. Já fizeram muita merda com eles, que me fizeram chorar em posição fetal e sair de casa escondendo a indignidade com boné.








música sertaneja, quem nunca, corte de cabelo, medo de cortar
Já tive um cabelo desses. Todas se compadece.







De tão traumatizada, fiquei muito criteriosa com a escolha do meu cabeleireiro. Não suporto aqueles que desconhecem os termos degrafilado e desfiado. Tem aqueles que só sabem desfiar as pontinhas, deixando toda a extensão do cabelo reta, sem movimento. E isso, minhas caras, me deixa com vontade de cortar....a cara deles.





Ao chegar a Floripa, sofri por quase um ano em tentativas que só faziam eu me assemelhar a um cogumelo. Isso me deprimia. Ninguém em sã consciência quer ficar parecida com a frutificação de um fungo, não é mesmo? Uma dúvida: o que leva uma pessoa que não sabe fazer um corte decente a abrir um salão? Questão profunda para refletir com calma.






corte de cabelo que deu errado, cabeleireiro, cabelo, corte
Oi, essa sou eu tentando achar um bom profissional







Até que cansada de ouvir meus lamentos uma amiga me apresentou a uma fada das tesouras. A mulher era massa. A mulher se garantia. Sabe aquelas que cortam com o cabelo seco e que repicam até os cabelos dos seu pentelhos se vc deixar? Pois bem. Tudo ia muito bem, estava muito feliz e radiante sempre com minhas madeixas bem cortadas, com excelente caimento quando de repente ela anuncia uma mudança.





Pensei se tratar de mais uma mudança de bairro, coisa que já havia acontecido. Reiterei minha promessa de segui-la fosse aonde fosse. Ela riu. Não gostei do tom e a olhei com uma cara amedrontada de insatisfação e dúvida. Daí ela gargalhou e revelou que estava de mudança pra São Paulo.





Por fora, parecia apenas chatiada, mas por dentro estava com cara de meu mundo caiu. Ficaria órfã outra vez? Estaria fadada a parecer um cogumelo por toda a eternidade?



Orfandade cabeleirística - não curto.





Continuei a vagar pelos vales sombrios da incerteza, até me deparar com um cara chamado Márcio. Que garantiu cortar meus cabelos do jeito que gosto e mereço. Ele tem atitude e sabe repicar, o que já aumenta as perspectivas para um relacionamento duradouro.








doidas e santas, corte de cabelo, repicado, feminices, coisa de mulher
Repica René, repica.







Com aquele medo inicial das virgens puritanas do século XVIII, pedi para que ele aparasse apenas as pontinhas, coisa que não fazia desde 2000. 





Meses se passaram e continuo aparando as pontinhas, o que significa que ainda não passei das preliminares com o Márcio.





Acontece que não sou mais mulher de aparar pontinhas. Ora, me respeitem.


Por isso, tenho uma denúncia de incoerência para lhes fazer neste post: a mocinha que escreveu ESSE texto, está se pelando de medo de cortar o cabelo.





Vejam vcs, como a vida é uma eterna pegadinha.


O que fazemos com ela, afinal?

Que conselhos dariam?
















sábado, 11 de agosto de 2012

Sábados iguais, saudade que não sai


Todo sábado era a mesma história.





Depois de uma semana inteirinha sem vê-los, era dia de acordar cedinho, colocar uma roupa bonitinha e esperar pelos meus avós que sempre tinham alguma coisa para resolver no centro da cidade. Anos se passaram, minha vozinha já se foi e ainda não descobri o que tanto resolviam por lá.





Era dia de expectativa, de receber aquele abraço cheiroso logo cedo me deixava feliz. Por que avós cheiram tão bem? Anos se passaram e ainda não sei responder essa pergunta.





Depois de um dia inteirinho batendo perna no sol quente, chegava em casa e sentia aquele cheiro de limpeza, lençol de cama esticadinho, almofadas arrumadinhas no sofá, irmãos banhados e arrumados e minha mãe nos esperando para o café da tarde.





Era um dia gostoso.




Anos se passaram e não há um só sábado, que eu não lembre desse ritual. Acordo e sonho poder correr para porta e vê-la lá, pronta pra me abraçar.





Sábados são dias que me remetem ao aconchego, a casa cheirosa e gente querida.




Pessoas até se vão, mas as lembranças que elas deixam na nossa vida, nos marcam pra sempre.















terça-feira, 7 de agosto de 2012

O dia em que a cadela pariu

 


Começo de namoro é aquela delícia, aquela vontade de estar perto, aquela certeza de que tudo vai dar certo e que jamais estaremos separados. Planos e projetos. Comigo não foi diferente.





Lembro de estarmos deitados numa rede, curtindo a brisa de finzinho de tarde, enquanto nos balançávamos. No rádio, uma música da qual não consigo lembrar. Enrolava meus cabelos, bem compridos na época, enquanto Paulinho olhava pensativo para o teto.





Nesse dia em especial, falamos sobre filhos. Sobre como educaríamos, sobre a aparência e o temperamento que eles teriam. Até que veio um pedido bem especial: ele fez eu prometer que nossos filhos conviveriam com muitos bichos. Hesitei. Muitos bichos? Assim, no plural? Um cachorrinho não bastaria? A resposta foi categórica. NÃO.





Ele foi um daqueles meninos que não gostava de bolas. Só gostava de bichos. Queria ser biólogo, ornitólogo pra ser mais precisa. Sempre teve cachorros (paixão em especial pelo Akita), viveiro de pássaros e até quati! 





Desejou naquele momento que seus filhos presenciassem, assim como ele, o nascimento de um bicho. Segundo ele, o cheirinho de um filhote é algo inesquecível. Prometi, oras. Não pude com tantos argumentos. Até porque EU também queria vivenciar essa experiência.





Paixão que antecedeu todo esse frisson em torno da adoção de bichos de estimação e, sobretudo à conscientização sobre a aquisição desses animais. Isso está sendo muito positivo, exceto pelo preconceito cruzado contra cachorros de raça.





Anos se passaram e no último mês o seu desejo se tornou realidade. Minha cã pariu seis lindos filhotinhos. Bia esteve ao seu lado o tempo inteiro. Num dado momento pai e filha estavam com olhos marejados. O momento era deles, eu sabia desde o princípio. Mas não me contive em registrá-lo.










scottish terrier parindo, filhotes, terrier escocês
no intervalo entre um nascimento e outro, carinho na parturiente. Não tá de morrer de amor o olhar entre os 3?



  terrier escocês, filhotes, canil flor da ilha canil flor da ilha, scottish terrier, filhotes  terrier escocês, canil flor da ilha, filhotes








Os ensinamentos com a gestação canina foram muitos. Meus meninos aprenderam que se tornar mãe é um processo; que é preciso preparar o ninho para a chegada dos filhos; que é importante as primeiras lambidas na cria; que a amamentação deve ser imediata e em livre demanda; que ter filhotinhos esgota qualquer mãe, independente da espécie, mas que apesar do cansaço e dos pelos que teimam cair, estão sempre a postos;  que larga qualquer brincadeira com a bola preferida quando escuta o primeiro chorinho e que independente de qualquer coisa, estará lá, à frente da ninhada pra protegê-los de qualquer um. Qualquer um.





Sim, filhotinhos tem um cheirinho inesquecível.


Foi muito positivo esse contato das crianças com um parto. Assistimos tudo. 





Sabe, sou a favor da não humanização dos bichos, mas preciso dizer que eles nos humanizam muito.








domingo, 5 de agosto de 2012

O susto


Foi assim: ao meio-dia ele reclamava de um cheiro estranho, muito estranho que só ele estava sentindo. Não sabia dizer como era, dizia apenas que era forte, muito forte.





Liguei as antenas com aquele sensor disponível apenas no modelo mãe.





De toda forma, os arrumei e levei para a escola. Quando os fui pegar, não relataram nada de novo. O pequeno passou o dia todo numa boa. Chegando em casa, ele reclamou de uma dor muito forte bem aqui, no meio das sobrancelhas.





O alarme disparou. Sabia que ele havia inserido alguma coisa dentro do nariz. Mas o quê? Como? Em que horário?





A sessão começa agora.










susto, medicamento longe do alcance das crianças, aprendizado, papo de mãe
só choro escondido no banheiro








O levei para o banho, momento em que ele fica relaxadão. Empregando técnicas refinadas e  avançadíssimas, comecei o interrogatório, que não se aprende em nenhuma universidade do mundo, cabendo somente às mães a sua efetiva aplicabilidade.





- Otto eu sei que vc colocou alguma coisa dentro do nariz. Diga agora o que foi.





Ele nega com veemência.





Depois de muita insistência, ele se declara culpado. Precisava saber o principal: que tipo de objeto estava a lhe subir os seios paranasais. Até que consegui, em parte, a confissão:





- Mamãe foi um remédio.





Neste exato momento, minhas pernas bambeiam, meu coração acelera e sinto a minha língua grudar no meu céu da boca. Não adiantava me desesperar, era preciso frieza. Continuei com minha técnica, agora de negociação, para saber da verdade, de toda a verdade.





- Filho, que tipo de remédio? Onde vc encontrou esse remédio?


- Ah, mãe. Encontrei em São Paulo, ao lado do viaduto Pompéia.





Maldita televisão. Ele tava tirando uma com a minha cara. Até que aumentei em alguns decibéis o meu tom de voz. Cadê a frieza que estava aqui?





- MENINO, PELAMOR DE DEUS, ONDE VC ENCONTROU ESSE REMÉDIO? - enquanto o levava escada acima. - ME MOSTRA AGORA.





Enquanto examinava a caixa de remédio, pude enfim saber se desmaiava, se ligava para o centro de informação antiveneno , para o pediatra ou para a minha mãe.





Foi assim: ele encontrou na cabeceira da minha cama umas pastilhas para garganta. Colocou na boca, chupou e mastigou quebrando em vários pedaços. Não contente, pegou estes pedacinhos e os inseriu no nariz. Queria aliviar a alergia dele e  de quebra, sentir um frescor narina adentro. Ok.





Nessa hora fiz o que toda pessoa madura faz nessas ocasiões: liguei para o marido de dentro do banheiro. Chorando, of course. E depois pra pediatra, só pra garantir.





Como é um remédio que pode ser ingerido, lavei com bastante soro enquanto ouvia seu choro arrependido. Ainda dizia em lamento que iria sentir muito minha falta quando morresse. Dramático?





Disso uma lição: nunca, mas nunca mesmo, deixar qualquer remédio ao alcance de pequenas mãos, por mais inofensivo que possa parecer.