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segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

O poder do discurso materno






Esse texto foi escrito em setembro do ano passado, depois de um encontro com Laura Gutman, e ele traz as impressões da autora sobre esse encontro, que nos convida a pensar a maternidade a partir de nossas infâncias. Mas só ontem tive a oportunidade de lê-lo. Com autorização da autora transcrevo um trecho que veio ao encontro de muitas das minhas reflexões:





Por Anna Gallafrio:




"Laura Gutman diz que a busca deve ser pelo encontro com a criança interior. E o abismo é enorme entre o ser essencial e o personagem. O personagem foi estratégia de sobrevivência diante do desamparo! Ele, o personagem, é também importantíssimo para que consigamos ser o que disse mamãe, ser alguém que existe. Pois passa-se o tempo e nos esquecemos de toda solidão e desamparo e continuamos a pedir o que nos faltou, mas já somos capazes de pedir de maneira que mamãe nos veja: manifestações do personagem, pedidos deslocados, doença.


Do ponto de vista da criança que fui, só me lembro do que foi NOMEADO.


Entender o lugar mais sombrio é entender porque fazemos o que fazemos. Não lembramos como nos tornamos esse personagem e através dessa busca podemos entender o que foi experiência e o que foi DISCURSO MATERNO, a fala da mãe nomeando o que se passava. O que se passava com ela, diga-se.


Precisamos entender todo o enredo. Desde o começo. Organizar a BIOGRAFIA HUMANA, nomear as necessidades e os sentimentos da criança que fomos e, de alguma maneira, ainda somos.


Criar x Educar:


Criar é dar amor, carinho, contato. Educar é fazer o correto, é o que temos na ESCOLA. A escolarização regula por sistemas externos à criança. E a criança vai apagando seu fogo interior, se adaptando a esse sistema externo, a ficar sentado e quieto quando seu corpo pede movimento, a não comer quando tem fome,a comer quando não tem fome. Isso, segundo Gutman, é também REPRESSÃO SEXUAL, é afastar-se da nossa linha vital.


Impor LIMITE é impor sua PRÓPRIA LIMITAÇÃO. Laura Gutman diz que não precisamos nos preocupar com impor limites aos bebês, às crianças pequenas. Com que idade elas estarão saindo sozinha às ruas, na realidade de nossas metrópoles? 15, 16 anos? Pra que limitá-las aos 6 meses, quando começam a comer e brincar à mesa? Brincar e comer são, para os bebês, a mesma coisa. Separar os dois é separar a criança de seus pulsos vitais. Isso também é REPRESSÃO SEXUAL.


A CRIAÇÃO com amor desperta a essência. Na criação sem amor é muito fácil EDUCAR, porque falamos o que se deve fazer e a criança o faz. O bom menino, a boa menina, são aqueles que vão exatamente contra seu impulso vital, contra sua auto regulação.


Chega a adolescência e com ela um RENASCIMENTO. A adolescência é o borbulhar de uma nova potência e de uma libido que foram sendo reprimidas desde os primeiros meses de vida. Laura Gutman aponta a evidência do prazer buscado na amamentação, quando o bebê suga com todo seu corpo, com toda sua potência vital e sexual, até que esteja repleto de PRAZER, satisfeito. Mas na vida dos guerreiros a alimentação é de plástico, artificial, sem prazer, que preenche o estômago de tal forma que só nos resta DORMIR. Pois então, a adolescência é uma oportunidade de despertar para a missão no mundo, para a vocação própria, de ir CONTRA os pais, já que tudo que os pais fizeram até ali é ir CONTRA seus filhos, em essência vital. Não receber o que necessitamos quando bebês é a pior violência que sofremos, uma violência invisível e respaldada socialmente. Aprendemos a viver APESAR da ausência, sem que ninguém nomeie o que sentimos. E vale dizer que a estratégia de sobrevivência é sempre UM EM DETRIMENTO DO OUTRO. Um ciclo de violências visíveis e invisíveis. Quem não atende a necessidade do outro está exercendo violência.


Nos tornamos adultos, em busca de um olhar atento, desempenhando duramente nossos papeis estabelecidos, até que encontramos um AMOR. O amor, segundo Gutman, é o cheiro da própria sombra. (pausa para um delírio)


Existem momentos em que o personagem se QUEBRA, são momentos de CRISE VITAL, quando o personagem não dá conta de sustentar a vida. A MATERNIDADE é um desses momentos e quem é mãe sabe muito bem. Quem é mãe e desempenhou a vida toda o papel da mulher autônoma, segura, que dá conta, que faz sozinha e que se basta, sabe disso com o coração. Quem sentiu fusão emocional com seu filho, entende que, quando esse personagem necessita AJUDA, algo não se encaixa. É quando o personagem faz CRAC, se desmancha. É hora de se entender e compreender o nível de desamparo que temos e que o personagem encobriu. Começar a INDAGAÇÃO PESSOAL- método de Gutman de ir em busca de resposta de maneira assertiva e organizar a biografia. O que você é e o que você pensa que é?


Abandonar os benefícios do personagem é doloroso! Nós, adultos, podemos sair de casa sem o personagem, mas queremos? O LIVRE ARBÍTRIO é isso. É decidir usar outros recursos para vincular-se a outros aspectos e lugares da existência. É incômodo mudar, é difícil, é preciso escolher. ir pelos caminhos tradicionais é mais fácil porque estamos muito desconectadas do que realmente somos. Estamos tão aleijados do que somos que não sabemos o que fazer quando em contato com as crianças! Que difícil é estar disponível ao outro! Somos todas crianças pedindo atenção!


A mudança real é a mudança íntima, cotidiana, dentro de casa."






*** Ana Gallafrio é mãe de dois e coach, uma figura generosa e muito amorosa. Neste mês de dezembro, acontecerá o último workshop de coaching para mulheres do ano, quando elas terão a oportunidade sob a condução de Anna, de refletir sobre diversas questões e a aprender a se relacionar bem consigo e com os outros apercebendo-se de sua potência e  apropriando-se de sua essência. Para mais informações sobre o coach, clique AQUI. Para ler o texto completo sobre Laura Gutman e o poder do discurso materno, clique AQUI. Vale a pena!





terça-feira, 26 de novembro de 2013

Não, eu não amo meus filhos da mesma maneira








dilema materno, mãe de dois, amor de mãe







Quando temos um filho somos apresentadas a um amor tão grande, somos expostas a sentimentos tão intensos que nos permitem descobrir tanto a nosso respeito...é tudo tão grandioso, tão superlativo que somos levadas a crer que não seremos capazes de amar outro alguém com a mesma intensidade.



É um medo muito comum entre nós, até surgir um segundo filho e mudar todas as nossas certezas. 





Somos novamente içados à grandiosidade daquele sentimento tão forte e tão primal. A segunda gestação é sempre tão diferente da primeira e nos brinda com novas possibilidades de aprendizado. Os filhos não poderiam ser iguais e amá-los já não constitui um desafio, pois descobrimos que a capacidade de amar é bem maior do que supomos.



A dúvida inicial é transferida como que por mágica para a sociedade que, por sua vez, a devolvem para nós: de qual filho gostam mais? A pergunta não tem outro propósito senão a de ser cruel. Querem exercer sobre nós uma espécie de vigilância, de controle através da culpa sobre nossa maternagem. Como se existisse uma escala para o amor.





Vou contextualiza-los à minha realidade: tenho uma filha de dez e um filho de cinco anos. Esse lapso temporal que os separa me deixou segura para fazer uma confissão: a de que não os amo da mesma maneira. 



Reza a lenda que para sermos bons pais devemos amar todos os filhos de maneira igual, mas penso ser esta uma ideia equivocada de equidade.



Ora, se eu dissesse que os amo do mesmo jeito, os estaria nivelando, portanto, não estaria reconhecendo as diferenças entre eles, estaria negando suas singularidades, suas particularidades. Seguindo a lógica, se tenho filhos diferentes, sou uma mãe diferente para cada um deles.



A mais velha sempre foi muito suave. Chegou serena para apontar  a mim, uma iniciante, todos os caminhos a que levam a maternidade. É daquelas meninas encantadoramente questionadora. Tem a mente aberta e sonha com as artes plásticas. Com ela aprendi a me despir de todas as expectativas e de que não devo usar minha condição de mãe para exercer uma relação de poder. O mais novo chegou e mudou toda a dinâmica da casa. É daqueles meninos de pé no chão e coração aberto, é a oportunidade que a vida deu de não levarmos a vida tão a sério.





Eles ensinaram que para amar é preciso liberdade para sentir, para deixar ser. Que este é um sentimento em constante construção e requer de nós empatia. Amar exige intimidade e atenção às necessidades específicas de cada um dos filhos. Não há como amar de forma padronizada. Amar significa acolher o outro na sua essência, considerando as qualidades e abraçando os defeitos; é orientar, dar suporte.



Este definitivamente, não é um sentimento mensurável.






Por isso, quando os vejo, eu os enxergo. E os amo muito.

Não da mesma maneira.







*** texto originalmente publicado no Confessionário.





terça-feira, 29 de outubro de 2013

Parto domiciliar humanizado - o relato de um pai






Somos amigos há bastante tempo e fiquei muito feliz quando soube que seriam pais. Foi lindo ver a busca desse casal por um nascimento respeitoso para seu filho com a clareza de quem sabe que caminhos seguir.



Segundo a psicoterapeuta argentina Laura Gutman " O homem e a mulher só conseguem se transformar em um casal de pais quando há apoio mútuo."




Fiquei ainda mais feliz quando o Lucas aceitou meu convite para que escrevesse este relato de parto, mostrando que o pai tem um papel essencial na gravidez, no parto, no puerpério e principalmente, na vida do seu filho. Mostrando também como é importante estarem juntos, conscientes e conectados para essa grande travessia que é o parto.








parto domiciliar humanizado, relato de parto do pai, paternidade ativa, paternidade





* por Lucas Brito



Uma e meia da manhã: - Vem cá...acho que a bolsa estourou. Com estas palavras, me levanto da rede e me encaminho para o banheiro. Lá chegando, vejo minha esposa num estado de tranquilidade aparando aquele líquido translúcido que não parava de descer. 





A partir desse momento começou-se um processo de transmutação, talvez tão intenso quanto a de uma terra plana para uma terra redonda; como se alguém tivesse ajustado as lentes da vida. O nascimento de meu filho, sem dúvida, foi o momento mais espiritual, sagrado e divino pelo qual já passei e, também sem dúvida, é o evento que mais desejo para todos aqueles que terão filhos e principalmente, para aqueles que irão nascer.





Ok, bolsa rompida. O que fazer? Ela enviou mensagens de aviso para a equipe de plantão (doula, amiga, parteira e enfermeira) e eu...bem, naquele momento meu primeiro impulso foi o de esvaziar por completo meu guarda-roupa, dobrar cada roupa e reorganizar cada peça (acho que na hora pensei: como vou criar alguém se não consigo manter um guarda-roupa?) =) Com uma boa dose de humor ela perguntou o que eu estava fazendo e voltou a se deitar. Feito isso, coloquei panelas de água para ferver e fui varrer varanda, sala e cozinha. É válido deixar claro que isso não foi feito de modo a dissipar uma suposta tensão, pelo menos não de modo consciente, mas sim de plena tranquilidade. Num sentimento de deixar a casa limpa para receber o pequeno ser. 





Quarenta minutos após a bolsa estourar as contrações já estavam de cinco em cinco. A mãe buscava qualquer posição que pudesse lhe amenizar o desconforto. Em alguns momentos eu lhe perguntava  sobre seu estado, apenas para perceber que ela havia entrado em outro transe. Aos meus olhos, a cada minuto que passava aquela menina bela e risonha ia ganhando a força e presença de uma guerreira matriarca. A cada minuto que passava eu ia me sentindo mais dentro de uma força condutora da vida. Isso trazia tranquilidade. 





Aproximadamente às 4:30 da manhã uma amiga "convidada especial" chegou. Ficávamos sentados, calados, observando cada movimento da mãe. À medida que as contrações aumentavam e ela entrava nestes transes, eu ia me sentindo cada vez mais envolvido por uma força feminina; como se estivesse tendo a permissão de participar de uma espécie de ritual secreto pertencente às matriarcas. 





Ao vê-la posicionada de joelhos de frente para a cama, instintivamente fui para trás e me posicionei de modo a receber aquele pãozinho que há 39 semanas cozinhava ali dentro. Observava cada contração, cada gesto. Às 5:40 a parteira chegou. Pedi para a amiga abrir o portão. Não podia sair dali naquele momento por nada. Pensei: "como será que faço para saber a dilatação?" Quando olhei por entre as pernas, já era possível ver os cabelos molhados...estava coroando. Posicionei a mão direita de modo a sustentar a cabeça e com a mão esquerda fiquei pressionando o períneo. Quando a parteira chegou, mostrei a coroação e ela confirmou que o momento estava bem próximo. Com muita delicadeza e vendo que eu estava ali preparado, ela se posicionou ao meu lado e ficou ali como que uma rede de segurança.





Contração...contração...contração...e eis que a cabeça sai. Olhei. Sorri. Aquela carinha roxa-azulada me tomou a atenção. Após saber que essa coloração era normal, me tranquilizei. Na próxima contração seria o corpo. Durante a contração fiquei com medo de não aparar com uma mão e acabei removendo a outra mão do períneo.





Numa fração de tempo, que era ao mesmo tempo instantânea e eterna, tive a bênção de poder viver o milagre da vida. As cores mudaram, os sons, os cheiros...





Pude sentir e vivenciar a magia desse ritual essencialmente feminino. Vivi meu feminino e tive prazer nos ensinamentos apresentados.  Às 5:55, com o cantar dos pássaros e com os primeiros raios de sol, nasceu o pequeno grande Otto.





Instintivamente pensei em trazê-lo para perto. Sabiamente a parteira disse que o cordão era curto que deveríamos passar ele por baixo das pernas da mãe. Passei a criança para a parteira, que limpou a boca do pequeno com gaze e logo o entregou a sua mãe. Eu, mãe e filho ficamos ali, no chão de nossa sala, abraçados. Pouco depois chegou a enfermeira. E na sequência nossa querida amiga doula que ainda tentou dirigir mais de 200 km para chegar a tempo, mas não deu. =)



Lentamente fomos limpando aquele ser...

Limpávamos com abraços, limpávamos com com amor. Vinte minutos depois dele, veio a placenta. Esperamos parar de pulsar, a enfermeira colocou o grampo e tive o privilégio de cortar o cordão.



Enfim...20 dias vividos. Posso dizer que muitas revoluções no campo das ideias e concepções ocorreram e continuam a ocorrer. Despreparo médico generalizado (mas não absoluto), violência disfarçada por trás dos partos hospitalares, desconsideração da mulher e criança como principais protagonistas, falta de crença na própria biologia corporal por muitos, incompatibilidade entre carga-horária de trabalho e atividades parentais, processos educativos, etc. Agora acho que o tempo vai encaixar cada coisa em seu devido local. Por ora vou me ocupando esfregando e trocando fraldas, fazendo as refeições, sucos e chás buscando dar a ambos o merecido período de resguardo.



No final, não posso deixar de expressar minha mais sincera gratidão à equipe de acompanhamento Mãe do Corpo (Kelly e Semírames), nossas queridas Karla e Liana e a linda obstetra que conhecemos recentemente, Drª Liduína Rocha. Foram todas pessoas de muita luz que surgiram em seus devidos momentos para que pudéssemos chegar ao tão esperado momento em que O holofote acendeu em nossa sala.



Grato.



* * * * *



Que mais homens possam romper com os paradigmas e se permitam se construir como pais.

Que a paternidade ativa reverbere!






sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Maternidade e carreira - como não conciliar essas duas coisas - BC - FemMaterna



blogagem coletiva, carreira x maternidade, desafios da mulher no mercado de trabalho





O primeiro sentimento que tive ao receber a notícia da (primeira) gravidez foi: vergonha.






A recebi como uma sentença, como uma fatalidade. "Sua vida acabou", ouvi de várias pessoas e senti o peso de cada uma dessas letras. Não era tão nova, mas sentenciada estava por ter posto meu futuro promissor em risco.





Naquele momento e no ambiente de trabalho opressor, tudo o que eu conseguia sentir era incômodo e inadequação. Sentia-me desnuda aos olhares dos outros. Minha sexualidade nunca foi tão exposta. Estava grávida e isso indicava uma vida sexualmente ativa. A gravidez veio para mim como um castigo.






Com o pouco apoio que tive no ambiente de trabalho e o apoio incondicional do meu marido, ergui a minha cabeça e decidi seguir em frente, com a gravidez inclusive. Esta seguiu tranquila e sem intercorrências que me fizessem sair do ambiente de trabalho, mas sempre que precisava me ausentar por conta das consultas de rotina do pré-natal, este afastamento devidamente justificado com atestados médicos era visto com um quê de desconfiança. E os olhares eram sempre muito pesados e jocosos.





É muito difícil ser mãe e empregada celetista. (regida pelo CLT)





Lembro do frio na barriga que senti no retorno da licença-maternidade. É sabido que muitas mulheres perdem seus empregos nesse período em que tanto precisam deles, embora a legislação garanta a estabilidade da empregada gestante a partir da confirmação de gravidez, mesmo se o contrato de experiência e de acordo com a Lei 12.812/13 que acrescentou o art. 391-A à CLT:  a empregada gestante passa a gozar de estabilidade provisória desde a confirmação da gravidez até cinco meses após o parto, ainda que durante o aviso-prévio trabalhado ou indenizado. Felizmente nada aconteceu comigo.





Naquela época, eu tinha vínculo empregatício e meu marido não. Foi então que ele decidiu ficar em casa com a nossa filha e assumir os cuidados diários com a casa e com o bem estar da pequena. Não posso negar que para mim, foi um alívio. Evitou a ida (precoce) dela para um berçário e possibilitou minha ida para o trabalho em tranquilidade. Tive esse apoio e aquelas que não tem?









Essa tranquilidade durou poucos meses. A necessidade de dinheiro o compeliu a procurar trabalho o que mudou por completo a configuração inicial. Decidimos contratar uma empregada para que a Bia não tivesse que sair de casa, mas era muito doído sair e deixá-la sob os cuidados de uma estranha. Trabalhar deixou de ser um prazer, um objetivo de vida e passou a ser um tormento.



Era uma situação muito pouco confortável. Tinha em minha casa uma mulher que também era mãe para cuidar da minha filha para que eu pudesse trabalhar. Essa mulher por sua vez, deixava os filhos dela com outro alguém para poder, também, trabalhar e contribuir para a renda em seu lar. Ela tinha seus motivos para faltar ao trabalho. O que me levava a faltar também.



Passei a nutrir o desejo de não ter que sair de casa para trabalhar. Sentia uma necessidade enorme de estar junto com a minha filha e assumir a autonomia na minha maternagem.



Tudo mudou quando meu marido passou num concurso público federal, o que nos levou de mala e cuia para Manaus. Numa cidade estranha sem conhecer ninguém, sem o apoio de parentes ou amigos, decidimos que ficaria em casa. Sozinha e com minha cria.



Ao contrário do que apregoa o senso comum, me senti realizada por estar em casa. Absolutamente plena, o que aumentou a cobrança social. As pessoas não entendem e não acolhem as opções de vida do outro:











Nesse tempo dedicado a minha maternagem, me redescobri, planejei e pari outro filho! Nos mudamos de cidade e para ele pude me dedicar todo o tempo de que dispunha.

Todos esperavam que por eu estar em casa o tempo inteiro, sem trabalhar, todos os cuidados relativos aos filhos estariam sob minha exclusiva responsabilidade. Mais uma vez contrariamos o senso comum e meu marido passou a ouvir a seguinte pergunta no ambiente de trabalho, sempre que se ausentava (amparado na Lei 8112/90, art. 83): esses meninos não tem mãe, não?



Nesse sentido Iara Domingos questiona:





O FILHO DA MÃE! Da mãe que trabalha!!!








"Como Conciliar o trabalho( os afazeres domésticos) e o filho dentro de um relacionamento "igualitário"? Essa resposta eu não tenho, aliás até onde vai a igualdade das relações MATERNA/PATERNA com a cria? talvez ela não exista e o tal mito do "instinto materno", seja realmente verídico e alimentado pela sociedade patriarcal, afinal de contas, que chefe irá enxergar com bons olhos e romantismo a falta do seu empregado para o acompanhamento de uma consulta médica do filho, O FILHO É DA MÃE oras. Quantas mães tem que se desdobrar para deixar o filho a com a avó, em creches com o peito apertado para enfrentar mais um dia de trabalho? será que é o mesmo drama do pai ao cruzar a porta para mais um dia de trabalho? Sou estatutária, professora (ou seja péssimo salário, mas estabilidade trabalhista) abri mão de dar aula em mais de uma escola, de uma renda extra para poder criar e educar meu filho, mas e o pai será que faria o mesmo? Não, não faria e meu drama é até onde eu consegui implantar minhas ideologias feministas na maternagem e onde deixei de ser feminista para maternar?"




Sempre considerei o meu afastamento do mercado de trabalho como um tempo e não como algo cristalizado, imutável. Senti necessidade de voltar para a minha graduação, que não foi deixada de lado por conta da maternidade. O motivo foi outro. Voltar a estudar naquele momento, com meus filhos mais crescidos e com o apoio do meu marido foi reparador.



Mas enquanto escrevia esse texto, percebi os desafios que também me acompanham no ambiente acadêmico. Agora que estou no turno da noite, sou obrigada a faltar mais do que gostaria. E por que sou "obrigada"? Porque meu marido tem viajado muito e passa a semana fora, como essa por exemplo. Com quem deixar meus filhos? Embora eles já fiquem sozinhos, tem dias que simplesmente não consigo cruzar aquela porta. E falto aula. Alguns professores que não sabem da minha história, nem teriam como saber o caminho que cada aluno precisa percorrer pra estar "presente", me olham torto, me julgam. Faltar significa que me falta comprometimento. Olha, até poderia ir (como vou muitas vezes) mas deixar meus filhos sozinhos durante uma semana inteira é uma responsabilidade muito grande que jogo na Bia, então prefiro deixar meu coração falar mais alto e optar pela tranquilidade.



Este foi o comentário da Dany Santos, que ilustra bem essa pressão no meio acadêmico:









Gostaria muito de voltar a trabalhar, mas não tenho como assumir uma jornada de 8h diárias. Até o estágio deixou de ser uma saída, visto a carga horária de 6h + deslocamento, torna essa opção inviável. Por que não nos possibilitam uma jornada mais flexível, mais curta com salário proporcional? Isso permite a manutenção dos homens no âmbito público e as mulheres no privado.



O home office tem sido uma saída para que muitas mulheres reconfigurem a organização familiar e possam estar ao lado dos filhos mas funciona para todas as mulheres, em todas as famílias, em todas as áreas?









E para aquelas que como eu, não tem vocação para empreender? Que não possuem habilidades manuais? Que não são jornalistas ou publicitárias - geralmente duas áreas que permitem o trabalho nesse formato?



Muitas mulheres se sentem acuadas pelo sistema que nos cobra sucesso profissional e excelência na criação de filhos.



Desculpa, sociedade, mas muitas mulheres não veem saída a não ser renunciar por um tempo suas vidas profissionais em favor dos filhos e por que não de si mesmas. Existem diferentes formas de realização e para sermos completas não necessitamos necessariamente de uma carreia.



É que a ambição de "ser alguém" deixa de ser a coisa mais importante nas nossas vidas. Sinto-me muito mais empoderada para estabelecer prioridades na minha vida, que podem mudar com o tempo.



















*** Esse texto faz parte da blogagem coletiva proposta com o FemMaterna cujo objetivo é refletir sobre o que podemos fazer, como coletivo, para acolher as demandas das mães. No meu caso, mais perguntas que propostas. Sigo na tentativa de uma recolocação que respeite uma jornada flexível e minhas aptidões.





quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Sobre o peso da inadequação





daqui





Todo mundo tem vagina. Ou gosta de uma.


Seja peluda ou pelada.


Toda mulher saudável menstrua. Ou um dia já menstruou.


Mas ninguém gosta de falar sobre isso. Causa repúdio. Causa nojo. A tal ponto de não a chamarmos pelo nome. Na tentativa de lhe estirpar o poder, lhe atribuímos apelidos. Toscos.





Muita gente inclusive, deve estar se perguntando o porquê de um blog focado na maternagem estar falando de vagina. Afinal, vagina nada a ver com maternidade, não é mesmo? Talvez (só talvez) a gente tenha tanta dificuldade em sentir prazer, parir, em aleitar.





Acontece que eu tenho uma filha. Que tem vagina. Que menstrua


Que está com seu corpo em pleno desenvolvimento. Quase que por completo desenvolvido.





Como todo mundo, ela tem pelos. Ela tem fluidos.


E por causa disso já começou a chamar atenção da sociedade. 


Da sociedade que não fala em vagina, que tem nojo dos fluidos, que tem pavor de pelos. A mesma que não gosta de mulheres.





Já estão ensinando a minha menina-moça-que-um-dia-será-mulher a sentir o peso da inadequação. O peso da insatisfação. O peso dos julgamentos. Estão ensinando a minha filha que existe um padrão a ser correspondido, que tem um objetivo a ser alcançado: o da perfeição do corpo.





Não. Não é isso que eu, como mãe, quero ensinar. Não é isso que ela deve aprender.


Quero que ela aprenda o poder que tem como mulher e de como é importante a aceitação do feminino. Quero que ela veja esses padrões como uma tentativa pífia de fazê-la se sentir inferior e de como isso é lucrativo para quem os cria. Quero que ela sinta amor por seu corpo, por ser quem é, do jeito que é. E que isso não a impeça nunca de ser feliz.





"Merecemos mais - mais que ter dias horríveis por pensamentos ligados a nossa péssima forma física, desejando que ela fosse diferente. E não é só sobre você e eu. É também sobre Violet. Sua neta tem apenas 3 anos e eu não quero que esse ódio ao corpo tome conta dela e estrangule sua felicidade, sua confiança, seu potencial. Eu não quero que ela acredite que a aparência é o maior ativo que ela possui, e que vai definir o valor dela no mundo. Quando violet nos olha para aprender a ser uma mulher, precisamos ser os melhores modelos que pudermos. Precisamos mostrar pra ela, com palavras e com as nossas ações, que as mulheres são boas o suficiente exatamente como são. E para ela acreditar, nós precisamos acreditar primeiro."





Trecho do texto "Quando sua mãe diz que é gorda", que precisa ser lido por todos e que propõe uma reflexão urgente.





Faço aqui um convite (apelo): tenham essa conversa com seus filhos. Mostre a eles que perfeição é um conceito imaginário portanto, inalcançável. 




Que devemos aceitar as pessoas pelo que elas são, não pelo que aparentam ser.








terça-feira, 8 de outubro de 2013

ESTOU DE OLHO - porque a regulação é para a publicidade e não para a sua conduta









infância livre de consumismo, publicidade infantil, estou de olho






O PL 5921/01, que visa regulamentar a publicidade infantil no país está em tramitação há (longos) 12 anos e não é difícil imaginar os interesses que impedem a sua aprovação. Em setembro o projeto foi encaminhado para a Comissão de Constituição e Justiça e aguarda há quase vinte dias a designação de um relator, coisa que acontece normalmente em alguns (poucos) dias. Nossa torcida é que este siga o quanto antes para a apreciação do Senado.



O mercado busca se fortalecer criando na sociedade a falsa ideia de que não é o Estado quem deve regular as relações de consumo sob pena de ferir a livre expressão comercial e que a responsabilidade é sim, exclusiva da família. Será que é só isso mesmo, dizer não e desligar a tv?



Eles se unem para preservar seus interesses e nós, a sociedade o que fazemos?



A campanha #estoudeolho veio com o objetivo de dar voz a sociedade e de mostrar a nossa força como grupo. Saiba como ajudar aqui.



Você sabe como é a regulação da publicidade pelo mundo? Eis alguns dados que nos fornecem uma perspectiva maior desse problema:







  • Suécia: é proibida a publicidade na TV dirigida a criança menor de 12 anos antes das 21h.

  • Inglaterra: é proibida a publicidade de alimentos com alto teor de gordura, açúcar e sal durante a programação de tv para público menor de 16 anos.

  • Bélgica: é proibida a publicidade para crianças nas regiões flamencas.

  • EUA: limite de 10min e 30s de publicidade por hora nos finais de semana, 12 min por hora nos dias de semana. Proibido o merchandising testemunhal.

  • Alemanha: os programas infantis não podem ser interrompidos pela publicidade.

  • Canadá: é proibida a publicidade de produtos destinados à crianças em programas infantis. Quebec: é proibida qualquer publicidade de produtos destinados à crianças de até 13 anos em qualquer mídia.

  • Dinamarca: é proibida qualquer publicidade durante os programas infantis, e ainda, 5 minutos antes e depois.

  • Irlanda: é proibida qualquer publicidade durante programas infantis em tv aberta.

  • Holanda: não é permitido publicidade dirigida às crianças com menos de 12 anos na tv pública

  • Áustria: é proibida qualquer tipo de publicidade nas escolas.

  • Itália: é proibida a publicidade de qualquer produto ou serviço durante desenhos animados.

  • Grécia: é proibida a publicidade de brinquedos entre 7 e 22h

  • Portugal: é proibido qualquer tipo de publicidade nas escolas.

  • Noruega: é proibida a publicidade direcionada à crianças com menos de 12 anos. Proibida qualquer publicidade durante os programas infantis.





{fonte: documentário Criança, a alma do negócio}






Por que devemos repensar o consumo?



Recentemente assisti ao "A História das Coisas", que é um vídeo de 20 minutos apresentado pela ambientalista Annie Leonard que trata de forma simples, sarcástica, acelerada e divertida os padrões de produção e consumo e suas implicações na sociedade e na natureza desse sistema compre-use-descarte, passando pelos cinco estágios da economia - extração, produção, distribuição, consumo e descarte.



Dentre todos os assuntos abordados nesse filme tão curtinho, destaco um: a obsolescência perceptiva. Esta é irmã da obsolescência programada, que consiste no consumo de bens que se tornam obsoletos antes do tempo. A diferença entre elas é que a obsolescência perceptiva nos convence a jogar fora coisas perfeitamente úteis. Tem a função de mudar a aparência, o design das coisas para sinalizar para os outros que vc está fazendo o círculo da economia girar através do consumo.













Os produtos que ostento, agregam-me valor. A ideologia publicitária nos leva pra uma disputa de quem tem mais e melhor. Isso interfere não só nas relações interpessoais mas no status de classes. Afinal, qual o objetivo de um anúncio senão nos fazer infelizes com o que temos? Todas as nossas frustrações serão resolvidas se formos às compras? 



As corporações hoje detém o poder de controle do Estado que um dia foi da Igreja.

A maneira como nos relacionamos em sociedade é baseada no consumo e vemos que não só há, uma mercantilização das relações humanas, como de toda a humanidade.





Governo e indústria andam de mãos dadas








  • Ministério da Saúde concede título de PARCEIRO DA SAÚDE à McDonald´s. Profissionais da saúde protestam. (aqui)

  • ANVISA é alvo de críticas por abrigar exposição patrocinada. Mostra com infográficos sobre obesidade tem o apoio da coca-cola. A obesidade pelo olhar da infografia tem o patrocínio da coca-cola. (aqui)




É como costumo dizer: o problema nunca poderá ser parte da solução.





E nós com isso?





Conheço muitas pessoas que não corroboram com a campanha que visa regular e restringir a publicidade voltada ao público infantil por inúmeros motivos:






  •  por defenderem o mercado e achar que o Estado nada tem a ver com isso;






Será que dá pra defender o mercado sabendo que a publicidade atinge as classes AB da mesma maneira que atinge aqueles que não tem condição de comprar comida? O apelo ao consumo é aplicado indistintamente. Quais as implicações sociais? Isso não me parece muito democrático. Quem se preocupa com isso? Quem se preocupa com eles, àqueles que não tem condição de comprar comida?



"Os defensores da televisão, os anunciantes e os publicitários se escudam em uma desculpa cínica e universal segundo a qual a culpa é de quem liga a televisão. Basta desligá-la para evitar tudo isso, dizem, com hipocrisia. Como qualquer sofisma, soa lógico. Mas atenta contra o valor da responsabilidade. O conteúdo dos anúncios destinados a captar consumidores infantis é psíquica e moralmente venenoso." Sergio Sinay






  • por não se sentirem ausentes na criação de seus filhos; por terem consciência de seu papel como mãe/pai/cuidador e por terem certeza de que cumprem com seu papel na atenção dispensada aos seus diariamente; 






A meu ver, isso acontece com quem gosta de se usar como parâmetro, com quem não consegue vislumbrar a realidade do outro, anulando sua existência.



Acredito que seja muito pouco produtivo negar o debate e rechaçar as pessoas que arduamente se propõem a contestar a omissão do Estado como "patrulha do politicamente correto", "radicais", "xiitas". Será mesmo que não se faz urgente discutir e achar o equilíbrio em nossas relações de consumo? Que não seja por seu filho, que seja por outras crianças.



Seu filho não toma refrigerante? Que bom, pois saiba que:




* 56% dos bebês tomam refrigerante frequentemente antes do primeiro ano de vida.

    fonte: UNIFESP: departamento de comunicação institucional




"Abra a felicidade" - é o que eles anunciam.




* O brasileiro consome cerca de 51 kg de açúcar por ano. São mais de 4 kg por pessoa por mês. O consumo excessivo de açúcar contribui para a morte de 35 milhões de pessoas por ano no mundo. O equivalente a população do Canadá.


  fonte: Journal Nature - The toxic truthabout sugar apud Portal Terra








Deve-se parar de pensar em si mesmo como consumidor para que reste claro que regular a publicidade não é uma tentativa de regular suas escolhas. Só assim passará se sentir parte de uma coletividade. Como diz Raphaela Rezende: quando vc  tenta compreender o outro baseado no que vc mesmo gosta, na sua realidade, é egoísmo. 





Não, vc não é a régua do mundo.






Deve-se começar a pensar e sobretudo, a agir como cidadãos.








terça-feira, 1 de outubro de 2013

Pelo direito de permanecer de pijama

Há um tempo atrás li um texto da Ro Lippi no Projetinho de Vida e a metáfora que ela usou para falar da relação dela com a blogosfera foi tão boa que nunca mais esqueci. Fui procurar o texto para linkar e levei um susto com a data em que ela postou. Sim, faz mais de um ano. O que significa dizer que há mais de um ano ando levando esse blog sem muito ânimo.



Ro dizia assim: "Antes eu me sentia totalmente à vontade nesse universo bloguístico, era como se eu pudesse andar descalça, de shorts e de cabelos despenteados porque todo mundo era de casa. Agora me sinto um pouco estranha. Tanta gente nova e tanto blog bom que eu me sinto obrigada a botar uma maquiagem e uma roupa arrumadinha pra sair de casa, sabe como? Tive que abandonar aquele pijamão, e tem dias em que não me sinto mais tão à vontade." (leia na íntegra aqui)




O Balzaca Materna vai completar três anos em outubro e nasceu de uma necessidade egoísta: a de passar a minha vida a limpo. Na verdade, essa foi a ideia de uma terapeuta que pretendia trabalhar a minha assertividade. Escreve - ela disse. Vai te fazer bem. Como escrevi a minha vida inteira me questionei o porquê de ter abandonado o hábito e assim nasceu o BM.





O primeiro ano foi o melhor de todos. Estava empolgada e deslumbrada com o tamanho da blogosfera e com todas as conexões que poderia fazer através dessa ferramenta. Vibrava a cada novo comentário a cada novo seguidor. Tinha assunto de sobra. Tudo era novidade, meus filhos eram menores e eu não fazia nada (hohoho) além de ficar em casa com eles. Ao voltar pra faculdade, custei a voltar ao ritmo de estudos, a conciliar os afazeres de casa e os cuidados com as crianças. Foi aí que deixei de lado a blogosfera para me dedicar a outras leituras menos prazerosas, mais complexas...



No segundo ano, murchei. As postagens diminuíram bastante e a minha interação na rede idem. Muito embora esse afastamento tenha me propiciado acompanhar movimentos que, apesar de julgar importantes, me mantinham afastada. Parada mas em constante movimento. Isso me possibilitou uma síntese, um amadurecimento. Hoje me sinto inserida nestes movimentos, mas mantenho distante o tom professoral. Aliás, essa nunca foi minha intenção, justamente por entender que as relações humanas são demasiado complexas. Estou aqui mais para aprender, para refletir, informar do que para ensinar. 





Pensei em parar de blogar milhares de vezes. Uma vez até anunciei uma pausa breve para testar minha vida sem essa fonte de escapismo. E como resposta recebi um carinho sem precedente! Pouco depois, voltei com a cara mais limpa do mundo. Não consegui.





Quando penso em desistir, programo uma mudança no layout, como se fosse a casa a culpada por minha falta de inspiração. De fato não é. A verdade é que a blogosfera está bem mais exigente com o conteúdo dos textos. Não se pode mais blasfemar escrevendo bobagem. Na verdade, isso é mais a forma como percebo o movimento, entende? E não uma cobrança real. 





Confesso que nem sempre tenho saco nem tempo nem inspiração para escrever um artigo científico por dia. E sinto muita vontade de voltar a escrever sem muitos compromissos. Muitas vezes tenho vontade de sentar e escrever sobre como me sinto em dias de chuva. Ou como dias de sol me deixam mais felizes. Ou compartilhar aquela receita maneira de bolo de banana.





Esse é meu lazer, meu prazer.





Bom, ali no lado direito tem uma imagem convidando meus leitores a responder uma pesquisa - dessas que os blogueiros fazem pra preparar media kit e já adianto que propus esse questionário com o objetivo oposto. Agora tenho dados suficientes pra espantar qualquer assédio comercial, como manifestei nesse post, sinto vergonha por ter topado fazer publieditoriais para grandes empresas.





Gente, na boa, se eu soubesse que vcs seriam tão maravilhosos ao responder esse questionário, teria proposto há meses. Muita gente respondeu e o melhor de tudo foi terem doado um pouco a mais de tempo para deixar algumas sugestões. Vamos às considerações a esses comentários?




Uma das leitoras disse sentir bastante falta de postagens com dica de filme. Verdade seja dita: de fato não tenho assistido a muitos filmes. Na verdade, há séculos não assisto a um bom filme. Outras disseram que o intervalo entre as postagens é muito longo. Concordo e acho que expliquei o porquê.





Uma outra sugeriu algo fantástico: a participação dos leitores. Nos use - ela pediu. Adoro a ideia e confesso que isso já me passou pela cabeça há séculos, mas apesar de desavergonhada, sou bastante tímida. Portanto, quem quiser escrever, sugerir ou mesmo bater um papo sabe onde me encontrar, né gente? Ali tem e-mail, facebook, pinterest...mesmo tímida, sou facinha.





Uma única leitora mencionou a falta de resposta nos comentários, coisa que antes de frequentar uma fábrica de diplomas (aka faculdade), eu fazia com o maior prazer. Hoje, além de não ter tempo, muitas de vcs não habilitam o e-mail, de modusquê nunca dá pra responder diretamente. Estou programando uma (outra) reforma no blog e vou procurar um mecanismo porreta que me permita responder a todos.



Como não sou boba nem nada, perguntei o que os leitores achavam do blog e as respostas todas falavam do meu estilo, das reflexões que meus textos suscitam, da maneira identitária com que escrevo...isso me surpreendeu sobremaneira e vou lhes dizer por quê.



O que me motivava a querer parar de escrever era justamente achar que postagens pessoais não eram atraentes para o leitor. (risadas) Que ninguém mais queria saber disso, que eu já não tinha mais lugar nesse mundo blogosférico. (mais risada). GENTE! Por isso foi tão gostoso e tão surpreendente ler as centenas de comentários nesse sentido. E o melhor foi ler coisas como: continue; vá em frente; não pare. (lagriminhas) Gratidão a todos os envolvidos.



O mais engraçado disso tudo é constatar que as cobranças nem sempre são reais, externas a nós e perceber principalmente como a cobrança interna, por preciosismo, por perfeccionismo nos limita e nos engessa.



Nos libertemos todos dessas armadilhas, mas pleiteio meu direito de permanecer de pijama.

Estamos conversados?









segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Sumiço e projeto - porque para tudo há uma explicação


Para quem está aprendendo a andar, dar o primeiro passo sempre assusta. Afinal, o medo de cair é inevitável. Para quem já sabe andar essa vacilação natural fruto da vontade e da prudência, pode parecer uma bobagem.





Há três semanas este blog não é atualizado, mas o motivo é bem simples. Estou às voltas com as deadlines do fim do trimestre. Peças processuais para produzir, atividades complementares, visitas a instituições e um projeto de pesquisa para apresentar. Fui pega de surpresa, afinal o projeto só deverá ser entregue no fim do semestre. Mas como forma de avaliação e treino para a banca da monografia, o professor exigiu que apresentássemos. Eu não tinha uma linha escrita.





O tema estava escolhido há pelo menos dois semestres. Queria muito falar sobre mulheres e da luta para fazer valer direitos já conquistados. Não qualquer mulher. Tenho um quê de Geni, aquela cantada por Chico Buarque. Tenho a estranha mania de voltar o meu olhar para os errantes, os cegos, os retirantes, quem já não tem mais nada. Foram duas semanas intensas em que me vi obrigada a estudar todo o material pesquisado e ainda assistir a alguns documentários. O assunto é forte e eu me vi completamente absorta. Não fiz outra coisa senão sentar, estudar, chorar. Não necessariamente nessa ordem, não necessariamente pelo mesmo motivo. 







via








Será um estudo sobre mulheres. Aquelas mulheres que ousaram violar as leis, que carregam um estigma, que são condenadas e abandonas por suas famílias e por seus companheiros, que encontram-se encarceradas. Foi um trabalho de desconstrução do senso comum, que a reduz a condição de delinquentes onde todo e qualquer ato de violência cometido contra elas passa a ser legitimado. Uma vez sob a tutela do Estado, o julgamento dessas mulheres se perpetua ao longo de todo cumprimento da pena. 





Será um estudo sobre a violência institucional cometida àquelas que engravidam no cárcere e se proporá a analisar de que forma os dispositivos jurídico-penais restringem o contato dessas mulheres com suas potencialidades de vida, com seus corpos através do parto, com seus filhos (sujeitos de direitos) e com o exercício da maternagem. 





Numa sociedade em que ser humano tem sido há séculos sinônimo de masculino, o sistema prisional foi pensado por homens e para homens. A ideologia machista evidencia-se em todas as vertentes do sistema de justiça criminal. Se as normas penais e sua execução, foram estruturadas sob a perspectiva masculina, não é difícil imaginar quão deficitária é a estrutura penitenciária para atender estas mulheres que ousaram romper o pacto social. Além de presídios arquitetados para receber mulheres que continuam, independente do encarceramento, com suas necessidades e especificidades femininas - como menstruar, parir e aleitar. 





"Para se ter uma ideia, o sistema penitenciário brasileiro conta com apenas 15 médicos ginecologistas para uma população de 35.039 presas, o equivalente a um profissional para cada grupo de 2.335 mulheres, de acordo com o Conselho Nacional de Justiça." via





Com base nesses dados, dá pra traçar um panorama sobre o quão aterrador é parir no cárcere. Estas mulheres encontram-se numa situação de extrema vulnerabilidade por estar sob o jugo de duas instituições: uma que deveria prestar assistência a sua saúde e outra que deveria garantir a eficácia de direitos positivados. A condição de invisibilidade não pode ensejar a opressão e a violência institucional por esta condição de encarceramento se afastar do paradigma hegemônico.





A apresentação do trabalho se deu na sexta-feira e superou todas as minhas expectativas. Há tempos não me sentia tão feliz, tão realizada. Vai ser incrível terminar a faculdade falando sobre mulheres. Gostaria de agradecer a todas as mulheres que me apoiaram, que me incentivaram e que me inspiraram.





O primeiro passo foi dado, agora é só aprender a andar.










violência obstétrica no cárcere, mulheres encarceradas, direitos das presas
via Moça, você é machista







quarta-feira, 28 de agosto de 2013

O Renascimento do Parto - uma volta à origem da minha própria história





renascimento do parto, parto com amor, parto humanizado, potência de vida, hormônio do amor











Estive presente na pré-estreia do filme O Renascimento do Parto aqui em Florianópolis onde tive o privilégio de conhecer muitas pessoas que trabalham em prol da humanização no parto. Pude confraternizar com Erica de Paula e Eduardo Chauvet, Mayra Calvette, Roxana Knobel, com minhas amigas queridas Gabi Zanella e Lígia Sena e outras mulheres importantes da humanização. Foi incrível sentir a energia delas.





Entrei na sala escura bastante concentrada, ansiosa e com uma expectativa nas alturas. Não pude conter a emoção já nos primeiros minutos do filme que é: denso, leve, inspirador e muitas vezes incômodo. Traz questões absolutamente necessárias para a mudança de paradigma que se impõe na realidade obstétrica brasileira. O filme veio para referendar o discurso e o trabalho dos ativistas do bem nascer que há anos estudam e enfrentam o sistema, propondo mudanças. Nele não há achismos e a discussão vai além, muito além, da dicotomia cesária x parto normal.





Questiona-se o parto medicalizado, mercantilizado e a cesariana - procedimento médico - fica reservada para casos em que há de fato, uma indicação. 





Não há a responsabilização de um único culpado, pois entende-se o assunto como uma questão multifatorial.





Profissionais qualificados, respaldados por evidências científicas derrubam um a um os mitos que sustentam o sistema e questionam a naturalização da violência institucional. Por que achamos que essas intervenções absolutamente desnecessárias, que não constam em nenhum livro de medicina, normal? Que ideologia é essa que nos faz defender o indefensável? 





As cenas mostram com crueza a violência a que nos submetemos, independente da via de parto. Nessa hora sentimos o desconforto da verdade e vemos como nossas convicções estão sedimentadas por uma medicina paternalista onde o médico se coloca como autoridade máxima, como o detentor do saber.





Até há bem pouco tempo atrás todas as mulheres sabiam parir. Todas elas tinham seus filhos em lugares tranquilos e ao lado de outras mulheres que lhes davam segurança e amparo. Em que momento da história passamos a não saber fazer aquilo que já nascemos programadas para fazer? 





No filme, uma argumentação do médico obstetra Ricardo Herbet Jones ilustra bem essa necessidade de racionalização de um evento puramente fisiológico: "o parto mexe com as três questões mais intensas da humanidade: a vida, a morte e o sexo, daí a necessidade da humanidade ritualizar esse evento, tão fisiológico, tão parte da mulher. Sabendo disso, não fica mais fácil perceber que esses rituais não são pro bem, pelo melhor, pela saúde, mas apenas pelo medo da intensidade da vida?"







violência obstétrica, medicalização do parto, uso indiscriminado de cesariana, autonomia da mulher
o que acontece no meio do caminho?








Esses questionamentos são urgentes num país com a maior taxa de cesarianas do mundo. Chega a 90% na rede suplementar de saúde. O que justifica a adoção indiscriminada de cirurgias senão mover a indústria do nascimento? Qual o problema das brasileiras? Somos todas defeituosas? 





Existe mesmo uma escolha isenta no atual contexto obstétrico? Ou nos levam à descrença da nossa capacidade inata, nos fazendo reféns de uma medicina intervencionista? Nos dizem que a dor é insuportável, que o ato de parir é feio, desnecessário e sujo. A cultura contamina nossa determinação em parir, mina a nossa confiança e nos faz adepta da praticidade, dispensando o ritual iniciático que nos transforma em mães. 





Agora, foi na fala de Michel Odent, que meu mundo caiu, pela seriedade da questão levantada por ele: "até recentemente, o amor era um tema para os poetas, filósofos e romancistas. Mas hoje é estudado por cientistas. Hoje nós podemos entender que a capacidade de amar é em grande parte organizada e construída durante o período em torno do nascimento. Para dar à luz a mulher precisa liberar uma mistura de hormônios. De acordo com cientistas modernos, trata-se de um coquetel de ´hormônios do amor´. Em todo o planeta, o número de mulheres que dá à luz a seus bebês somente graças à liberação desse coquetel está chegando a zero. Zero, na era da ocitocina sintética e da cesariana fácil e rápida. Atualmente, não consigo pensar em uma pergunta mais importante que essa: qual o futuro da humanidade nascida por cirurgia cesariana ou pelo uso de ocitocina sintética? Quando falamos de ocitocina sintética, é uma forma de substituir o hormônio natural que as mulheres deveriam liberar por si próprias. É óbvio que quando uma mulher tem seu filho por cesárea ela não está no mesmo equilíbrio hormonal que uma mulher que dá à luz por ela própria. Isso significa, em outras palavras, que podemos tornar os hormônios do amor redundantes inúteis no momento crucial em torno do nascimento. Isso é inédito na história do nascimento e provavelmente na história da humanidade."





Nessa altura percebi que o filme não trata só sobre a nossa realidade obstétrica, mas sobre o futuro da nossa humanidade. 





Somos levados a questionar sobre o caminho que estamos percorrendo e de que maneira estamos recebendo nossas crianças neste mundo; sobre essa cultura imediatista em que impera a lei do menor esforço e totalmente desconectada que estamos vivendo. Precisamos transpor as barreiras da violência sob todos os aspectos, para que iniciemos a revolução, buscando ter de volta a nossa capacidade de amar.



Ao fim do filme, quase toda a plateia enxugava suas lágrimas. Durante o debate que se seguiu, várias pessoas pediram a palavra e quase todas as que se manifestaram faziam a pergunta que cada um dos presentes se fazia: o que podemos fazer, como sociedade, para mudar o sistema?



Saímos de lá impactados, porém muito esperançosos. O filme não trata de possibilidades perdidas mas principalmente, das oportunidades que podemos criar para os outros. A essência do ativismo é esta: não querer para os outros o que não quero pra mim.






* * * * * *






Saí do cinema chorando e aproveitei que estava sozinha dirigindo por uma cidade chuvosa, fria e vazia para chorar mais um pouco, já que não conseguia parar de pensar no nascimento da Bia, que foi de longe, o momento mais marcante da minha vida, mesmo tendo sido violento.



Nunca escrevi um relato de parto rico em pormenores, explicitando todos os meus anseios, os meus medos e minhas superações seja por medo da extensão do texto, seja por falha na minha memória que vislumbrava apenas aqueles fragmentos eleitos como importantes. Sempre que o faço acrescento um dado novo, o que me dá a impressão de estar sempre reescrevendo um evento do passado, estático. Talvez porque tenha me faltado a distância necessária para contemplar este parto em seu conjunto do início ao fim.



Foi há dez anos e eu tinha apenas vinte e três anos, nova e imatura. Lembro de ter corrido para o hospital com minha tia e meu marido ainda nas primeiras contrações. Confesso que a dor que sentia com elas me deixava ainda mais assustada. Chegamos lá, um hospital público, por volta da meia noite. Estava certa de que teria a companhia da minha tia e do meu marido comigo durante todo o processo. Assim assegurou meu obstetra, que era chefe dessa unidade, meu ginecologista pessoal e colega dos meus tios. Enquanto dava entrada, preenchendo aquela papelada, minha tia se apresentou como chefe da farmácia de outra unidade do mesmo hospital. Nesse momento chegou o médico plantonista, nos olhou de cima abaixo, sem dizer uma palavra, me puxou pra dentro. Segui com a confiança que os meus estariam vindo atrás de mim. Ao olhar para trás, vi minha tia chorando de raiva e o Paulinho com as mãos esticadas, como querendo me tocar, se despedir. Fecharam a porta e esta foi a última visão que tive deles. A lei que conferia direito a acompanhante só entraria em vigor um ano depois.




Fiquei perambulando pelo corredor com aquela camisola azul, ou seria verde? sem saber ao certo o que deveria fazer, como deveria me comportar. Ninguém me dirigiu palavra. As contrações apertaram e comecei a chorar. Gritando eu pedia ajuda. Não conseguia me manter em pé, muito menos deitada. Meus gritos começaram a incomodar aquele médico que aparentava ser um pouco mais velho que eu. Ele se aproximou e por um átimo sustentei a esperança de que ele pudesse me ajudar de alguma maneira. Ao chegar bem perto, apontou o dedo para uma sala e dirigindo-se à enfermeira, gritou a ordem: manda ela pro sofredouro.





Nem sabia que ainda existia essa sala, para essa finalidade, com esse nome. A enfermeira obedeceu e me deixou lá. Quando saiu, fechou a porta. Estava sozinha. Sozinha, no momento mais importante da minha vida. Gritei, chorei, me contorci. Nunca me senti tão assustada e tão desamparada. Não sei precisar quanto tempo permaneci sozinha naquela sala de paredes esverdeadas, mas foi o suficiente para eu rever toda a minha trajetória de vida. Queria a minha avó, queria meu marido, queria colo. Nesses momentos me sentia tão infantil, na acepção mais pura da palavra. Como uma criancinha, eu queria colo. Não queria sentir dor, não queria ter aquela filha. No segundo seguinte me via como responsável por aquela vida. Minha filha queria nascer e cada contração sinaliza que era hora de eu crescer. 





Muitas horas se passaram até que a enfermeira, a mesma que havia me confinado, foi oferecer o seu apoio. Desconfiada, perguntei o porquê da mudança repentina. Rindo um riso envergonhado, ela disse que o médico estava "operando". Ela me ofereceu um banho quente e com cuidado fez uma massagem nas minhas costas (com óleo de amêndoas paixão). A massagem não era nem um pouco confortável, mas o toque humano sim. 





O dia estava clareando e não parava de pensar na minha tia e no meu marido que estavam do lado de fora.





Perto das seis horas da manhã, fizeram o último toque e me disseram que estava na hora. Estava exausta e cambaleando fui conduzida para a sala de parto. Pediram que deitasse na cama ginecológica mas consegui dizer com um fio de voz que queria ter minha filha de cócoras. "Deita logo". Obedeci. Nenhuma contração era eficiente. Nenhuma contração trazia minha filha para perto de mim. A equipe de mascarados começava a dar sinais de nervosismo. "Tenta de novo". "Faz mais força, menina". Não sei como, mas a força vinha lá do íntimo. Ainda assim, ineficiente. A líder dos mascarados beirou à histeria quando começou a bater nas minhas pernas gritando com um som abafado pela máscara " VO-CÊ-VAI-MA-TAR-A-SUA-FI-LHA". Nesse momento, vi duas mulheres trazendo uma espécie de cordinha. Queriam me amarrar nos estribos.





Não me perguntem como, já que naquele momento estava completamente exaurida, mas num ímpeto, rompi a barreira da inércia, subi na cama e me posicionei de cócoras, que era a minha vontade desde o início. A enfermeira que me ajudou resolveu fazer um pouco mais por mim e trouxe uma barra para que eu pudesse manter o equilíbrio. Chamem do que quiserem, mas chamo isso de instinto.





Naquela posição senti um domínio maior sobre o meu corpo e não demorou para eu ter a Bia em meus braços. Com a decisão de subir na mesa e não me deixar submeter, a menina assustada cedeu lugar a uma mulher capaz de tomar a melhor decisão para a sua filha. 





A menina nasceu e a mulher cresceu.





Cresci quando vivi essa possibilidade de transcender meus limites, quando vi a minha potência como ser humano e a coragem de procurar e encontrar novos caminhos. E é com muito orgulho que hoje olho pra minha filha e digo que fui até a origem para buscá-la.



Depois de trinta minutos no oxigênio, recebi minha filha em meus braços. Contemplei. Beijei. Cheirei. Chorei. Nunca me sentira tão mãe, tão dela.



Ao sair dessa sala para ir à enfermaria, sentada numa cadeira de rodas com a bebê nos braços, pude ver meu marido e minha tia através de um portão. Ela segurava um terço e ele tentava segurar a minha mão. Pai e filha se conheceram através destas grades.







dor do parto, superação, autonomia da mulher, parto ativo, maternidade consciente
presente da Renata Montenegro, a Mulher Vitrola  <3









Faço minhas as palavras da Andrea Santa Rosa, esposa do Márcio Garcia e mãe de três filhos: "Eu não podia passar por essa vida sem a experiência de parir um filho."





Tome o poder para si.

Renasça.


Suba na mesa.









segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Panaceia - Os livros do primeiro semestre


Na mitologia grega, Panaceia era a deusa da cura. E o nome dela passou a ser utilizado com o significado mais abrangente de remédio para todos os males. 





Para mim a leitura funciona mesmo como remédio para todos os males, me emociona, me transforma, me agrega tanto! Retomei este hábito desde que o Otto atingiu uma certa autonomia e já não me sentia tão cansada para acompanhar o raciocínio de uma leitura mais longa que duas páginas. Além de querer também ter um momento que fosse meu, lendo coisas de meu interesse, sem ter que ser necessariamente sobre maternidade.





Esse ano estou até participando de um círculo de leitura! Pessoas bacanas disponibilizaram um livro escolhido entre três títulos, que passeiam pelo Brasil. Estou amando a experiência.





Como não mantive a disciplina de falar aqui no blog sobre cada um deles no momento em que os lia, vou compilar todos os livros lidos do semestre. O ideal seria comentar logo após a leitura, pois muito da paixão se arrefece com o tempo. Está longe de ser uma resenha, mas fica a dica para quem se interessar pelos livros que me fizeram refletir, que me divertiram, que me fizeram companhia.







O Diário de Helga









indicação livro, segunda guerra mundial, livro emocionante, sobrevivente







"Calcula-se que das 15 mil crianças que passaram pelo campo de internamento em Terezín, na Tchecoslováquia, apenas cem chegaram ao fim da Segunda Guerra Mundial.

Helga Weiss, uma dessas raras sobreviventes, é autora de um dos mais comoventes testemunhos do Holocausto. Seus escritos e desenhos registraram com o olhar infantil tudo o que aconteceu com a sua família, desde a segregação dos judeus ainda em Praga até a desumana rotina de privações e doenças de Terezín, onde um carro fúnebre fazia rotineiramente o transporte de gêneros alimentícios.

Artista Plástica respeitada, Helga Weiss, 83 anos, vive em Praga, no mesmo apartamento onde morou com os pais antes da deportação."





As histórias sobre os horrores da guerra, sempre me fascinaram. Quando um amigo me falou sobre esse livro, fui correndo comprar. Fiquei interessada em ver a guerra sob a perspectiva de uma garotinha. O livro é escrito sob a forma de um diário mesmo e a linguagem claro, bem infantil. O que pode tornar a leitura um tanto enfadonha, mas os desenhos e o desenrolar da história são emocionantes!







A sociedade dos filhos órfãos






responsabilidade dos pais, maternidade ativa, maternidade consciente, relação pais e filhos, o poder de consumo






"Crítico severo do modelo social em que vivemos, o argentino Sergio Sinay, terapeuta, palestrante e pesquisador dos vínculos humanos, sustenta neste livro a predominância atual de uma "sociedade de filhos órfãos" de pais vivos. Para ele, não basta colocar um filho no mundo para ser pai ou mãe. Na sociedade atual, em que pais e mães vivem excessivamente atribulados, crianças e adolescentes carecem de orientação, referências, limites e valores que deem sentido às suas vidas. O autor faz um chamado para que seja assumida a responsabilidade da educação dos filhos, tarefa que não cabe exclusivamente às escolas, muito menos às mídias, apresentando uma reflexão extremamente lúcida das consequências dessa omissão, como a violência crescente entre grupo de adolescentes, a obesidade infantil, números estarrecedores de dependentes menores de idade de álcool e outras drogas etc. Esclarece ainda que o acesso à tv e à internet sem qualquer supervisão de pais que não filtram nem esclarecem mensagens de manipulação publicitária, puramente mercadocráticas, são alguns dos fatores responsáveis pelo desencadeamento dos males que cabe a pais e mães presentes e atentos estancar."




Neste livro, o autor desmistifica a falácia do tempo de qualidade na criação dos filhos, propondo um debate sério sobre a responsabilidade de criar um filho. Numa época em que as relações humanas são tratadas como relações comerciais, é urgente a reflexão sobre o nosso compromisso como pais. Recomendo fortemente essa leitura.





Reportagens sobre esse livro aqui e aqui.





Precisamos Falar sobre Kevin











psicopatia, mãe omissa, relação conflituosa mãe e filho, pai omisso







"Para falar de Kevin Khatchadourian, 16 anos - o autor de uma chacina que liquidou sete colegas, uma professora e um servente no ginásio de um bom colégio do subúrbio de Nova York -, Lionel Shriver não apresenta apenas uma história de crime, castigo e pesadelos americanos: arquiteta um romance epistolar em que Eva, a mãe do assassino, escreve cartas ao marido ausente. Nelas, ao procurar porquês, constrói uma reflexão sobre maldade e discute um tabu: a ambivalência de certas mulheres diante da maternidade e sua influência e responsabilidade na criação de um pequeno monstro. Precisamos falar sobre o Kevin discute casamento e carreira; maternidade e família; sinceridade e alienação. Denuncia o que há de errado com culturas e sociedades contemporâneas que produzem assassinos mirins em série e pitiboys. Um thriller psicanalítico no qual não se indaga quem mandou, mas o que morreu. Enquanto tenta encontrar respostas para o tradicional onde foi que eu errei? a narradora desnuda, assombrada, uma outra interdição atávica: é possível odiarmos nossos filhos?"






Sabe quando vc lê um livro e fica pensado nele 24h por dias a fio? Esse livro mexe com as todas as nossas certezas. Nos sacode. Nos faz pensar, nos enche de questionamentos. É perturbador. Existe mesmo alguém que nasce ruim? É possível odiarmos um filho? A Eva é uma mulher bem sucedida e tem uma relação muito forte com o marido. Nunca quis ser mãe, porque não queria perder sua independência, muito menos sacrificar a convivência e a intimidade com seu marido. Ele a pressiona querendo um filho, por amor ela cede. Não viu a mágica da maternidade acontecer, viveu o horror de uma gestação indesejada e logo após o nascimento,  rejeitou o filho. Na primeira análise que fiz do livro, tomei partido da mãe, fiquei com asco do pai omisso e permissivo e com ódio do Kevin. Assisti ao filme - péssimo na minha opinião - e o senso aguçado da Pri Perlatti me fez perceber que toda a narrativa era apenas do ponto de vista dela, da mãe. Isso muda tudo. Muda?






Princesa






machismo, misoginia, violência estatal, instituição religiosa do oriente médio, indicação de livro, autoridade de homem







"Filha da Casa Real da Arábia Saudita, Sultana é uma lutadora rebelde inconformada com seu destino - o mesmo de geração de mulheres submetidas à realidade de total restrição e impedimentos imposta pelas instituições familiares, religiosas e sociais no Oriente Médio. Personagem de um relato verídico e comovente, suas palavras são, acima de tudo, um pedido de socorro que vem das desérticas paisagens do Oriente Médio para ecoar na memórias e na consciência do leitor ocidental."






Esse livro chegou até a mim, pelo círculo de leitura do qual participo. Tinha muita vontade de ler, pois retrata o sofrimento de mulheres que têm seus direitos usurpados por uma sociedade patriarcal e mostra a força vital de lutar por equidade. Insurgir-se é um ato de coragem. Foi isso que essa princesa fez ao denunciar abusos, estupros coletivos, privilégios concedidos única e exclusivamente por serem homens. As mulheres, independente de sua classe social, vivem sob constante ameaça, sujeitas a julgamentos bárbaros em nome da honra. Elas são como objetos sem nenhum valor e sua única função é a de adorno. Esse tipo de leitura nos permite traçar um paralelo entre a cultura deles e a nossa que, convenhamos, não é tão diferente assim. A única diferença, é que o julgamento na nossa sociedade, igualmente machista, é de ordem moral. Quero muito ler os outros dois livros. Aqui um trecho:



"A autoridade do homem saudita é ilimitada; sua esposa e filhos só sobrevivem se ele assim o desejar. Dentro de casa, ele é o governo. Esta situação complexa começa na criação dos nossos meninos. Desde a tenra idade, o menino aprende que as mulheres têm pouco valor: elas só existem para o conforto e conveniência dos homens. A criança vê o desprezo com que sua mãe e irmãs são tratadas pelo pai; esse desprezo explícito o induz a desrespeitar todas as mulheres (...)"










Holocausto Brasileiro






holocausto brasileiro, institucionalização do seu humano, medicalização da vida, luta antimanicomial









"Neste livro-reportagem fundamental, a premiada jornalista Daniela Arbex resgata do esquecimento um dos capítulos mais macabros da nossa história: a barbárie e a desumanidade praticadas, durante a maior parte do século XX, no maior hospício do Brasil, conhecido por Colônia, situado na cidade mineira de Barbacena. Ao fazê-lo, a autora traz à luz um genocídio cometido sistematicamente, pelo Estado brasileiro, com a conivência de médicos, funcionários e também da população, pois nenhuma violação dos direitos humanos mais básicos se sustenta por tanto tempo sem a omissão da sociedade. Pelo menos 60 mil pessoas morreram entre os muros da Colônia. Em sua maioria, haviam sido internadas à força. Cerca de 70% não tinham diagnóstico de doença mental. Eram epiléticos, alcoólatras, homossexuais, prostitutas, gente que se rebelava ou que se tornara incômoda para alguém com mais poder. Eram meninas grávidas violentadas por seus patrões, esposas confinadas para que o marido pudesse morar com a amante, filhas de fazendeiros que perderam a virgindade antes do casamento, homens e mulheres que haviam extraviado seus documentos. Alguns eram apenas tímidos. Pelo menos 33 eram crianças."





Um livro que relata os horrores dentro do maior hospício do Brasil, num passado recente e desconhecido da maioria dos brasileiros. Eis o perigo da institucionalização que, disfarçado de política pública visa tão somente, uma limpeza social com a manutenção da violência e da medicalização da vida. Os que recebiam o passaporte para o hospital, tinham sua humanidade confiscada. "O fato é que a história do Colônia é a nossa história. Ela representa  a vergonha da omissão coletiva que faz mais e mais vítimas no Brasil. (...) O descaso diante da realidade nos transforma em prisioneiros dela."











Marina











carlos ruiz záfon, literatura gótica, indicação de livro, mistério
[reprodução]





"Na Barcelona dos anos 1980, o menino Óscar Drai, um solitário aluno de internato, conhece Marina, uma jovem misteriosa que vive num casarão com o pai idoso. Em passeios pela cidade, os dois presenciam uma cena estranha num cemitério e se envolvem na resolução de um mistério que remonta aos anos 1940. Numa tentativa inútil de escapar da própria memória, Óscar abandona sua cidade. Acreditava que, colocando-se a uma distância segura, as vozes do passado se calariam. Quinze anos mais tarde, ele regressa à cidade para exorcizar seus fantasmas e enfrentar suas lembranças - a macabra aventura que marcou sua juventude, o terror e a loucura que cercaram a história de amor."




O primeiro livro que li do Zafón foi A Sombra do Vento e amei seu estilo, a leitura fluida e uma história bem construída, cheia de suspense. Com esse livro não foi diferente. Marina é um livro tocante, com uma trama envolvente e bem amarrada. Já posso dizer que sou fã do estilo e desse autor.







Por favor, cuide da mamãe






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"Park-SO-nyo, 69 anos, esposa e mãe, levou uma vida de sacrifícios. Há alguns anos, sofreu um derrame que a deixou vulnerável e confusa. Certo dia, viajando do interior da Coreia do Sul até Seul para visitar seus filhos já crescidos, Park perde-se do marido quando as portas do metrô se fecham. Ela nunca mais é vista. Começa então a procura, liderada pela família, que se transforma em uma exploração emocional, repleta de remorso, de lembranças do passado e da triste descoberta da mãe que eles nunca conheceram."






Em que ponto da nossa existência ficamos invisíveis?  O sumiço da mãe dá início a uma busca repleta de fortes emoções e remorso. Os filhos têm a possibilidade do reencontro consigo mesmos e com essa mulher que eles nunca conheceram. Apesar de sensibilizada com a história, fiquei um tanto decepcionada com a forma confusa com que a narração é construída.









Leu ou ficou com vontade de ler algum desses?



Já estou preparando a listinha para o segundo semestre, alguma indicação?