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quarta-feira, 9 de abril de 2014

Dois filhos e a escolha que não consegui bancar OU Tirei meu filho da escola


Sou uma pessoa organizada. Gosto de saber e me preparar para os compromisso com antecedência. Ainda assim, não gosto da rigidez das agendas com aqueles itens a serem ticados um a um, num padrão meio robótico. Simplesmente, porque nem sempre consigo fazer tudo o que programo. Basta um item não cumprido para eu sentir o caos se instalar me mostrando que não fui capaz.





Sou uma pessoa que custa a tomar decisões sérias e importantes. Penso meticulosamente, analiso os riscos. Mas nem sempre é assim. Nem sempre foi assim. Em algumas (muitas) situações, como boa sagitariana que sou, atropelo tudo, falo o que penso e me jogo no abismo da precipitação. Mas sei retroceder. Sei reconhecer quando faço uma merda. Volto atrás sem culpa e sem rodeios.





Aconteceu isso comigo há pouco tempo. Aliás, isso quase sempre acontece comigo. Talvez seja parte de um plano cármico.





Ao vencer aquela batalha interna por ter que matricular meus filhos numa escola pública, decidi que aceitaria que Otto frequentasse a creche em período integral. Ele tem cinco anos e nunca havia ficado fora de casa por dois períodos, como sua irmã um dia precisou ficar. Para mim e as necessidades que criei diante dessa possibilidade, era perfeito!





Já tinha decidido que iria estagiar numa Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher, dedicaria minhas manhãs à Bia - coisa que não faço desde...que Otto nasceu! - a ajudaria com suas tarefas, em dias de prova e ficaria tranquila para escrever minha monografia. Ótimo! Na minha cabeça, claro.





Parti do pressuposto que meu filho se adaptaria a nova rotina com muita facilidade. Por ser ele um menino muito vivo, muito cheio de energia, muito curioso, muito sociável. Mas frequentar os dois turnos não durou uma semana completa. A creche passa a aceitar as crianças a partir das 7:30min e os entrega aos pais às 18:30min. Comecei a receber meu filho no fim da aula, muito apático, sem vida, sem entusiasmo. Isso porque usei da tolerância e o buscava às 16:30! 





Não demonstrava interesse por nada e sequer tinha aprendido o nome das professoras. O que foi recíproco, porque ela até a terceira semana o chamava de Pedro, João e sempre que me via perguntava: como é mesmo o nome dele? No terceiro dia em que ele estava seguindo essa rotina nova, na hora em que o colocava para dormir, ele falou baixinho com lágrimas nos olhos: mamãe, não me leva pra escola de manhã. Deixa eu ficar em casa com vocês? Não gosto de almoçar sozinho. Como não cederia a esse pedido? O abracei, pedi desculpas por ter permitido que ele frequentasse o período integral, expliquei a ele o que me motivou a tomar essa decisão. Deu-me um abraço e adormeceu.





No dia seguinte, assinei um termo para liberar a vaga da manhã para outra criança. Ele continuou indo para escola normalmente, mas apenas no período da tarde. Foi então que agucei meu olhar para o que acontecia em seu entorno e no tratamento dispensado às crianças. As professoras eram frias e distantes, como falei sequer sabiam o nome do aluno. Não custou muito para compreender o porquê do desinteresse do meu filho - um menino que chorava diariamente para NÃO sair da escola antiga, por três anos consecutivos.





Bom, lá tudo funcionava como numa escolinha tradicional. Havia uma preocupação excessiva com os horários, acredito que por conta da quantidade de refeições oferecidas durante o dia, motivo pelo qual as tarefas do projeto desenvolvidas em sala de aula eram muito metódicas, não fluiam. As tarefas não eram grandes coisas. Eles recebiam um desenho pronto e a criança tinha que pintar dentro ou colar bolinhas  de papel sem sair da risca. Não havia liberdade para criar. Era aquilo e pronto.





Com relação ao projeto, que tratava do fundo do mar - tema que Otto ama - fui chamada atenção ao final do aula. O motivo? Meu filho falava demais. Sim, querida professora, eu sei. Mas falava o quê, especificamente? Atrapalhou tua aula? Não - ela respondeu. Otto sabe nomes de todos os peixes. Peixes dos quais nunca ouvi falar. Sabe do que se alimentam e em que região do mundo vivem. Mas o problema é que as outras crianças desconhecem essas informações e isso atrapalhou um pouco. Converse com ele, por favor. Ou seja, eu teria que frear meu filho porque o conhecimento que sua cabecinha de cinco anos consegue acumular anda incomodando. Como explicaria isso a ele?





Por fim, um colega da turma, batia no Otto. Aliás, esse não era um privilégio do meu filho. O coleguinha distribuía sopapos em qualquer um que passasse a sua frente. Otto reclamava que não achava justo, que isso não estava certo. Antes de conversar com a professora, orientei o Otto a não revidar. Disse que ele poderia se defender de outras maneiras. A surpresa se deu no dia em que consegui conversar com a professora e ela no tom ríspido de costume disse que já havia tentado resolver a situação. Como? - perguntei. Ora, coloquei o menino na frente e pedi pro Otto dar um soco. Assim, ele iria pensar duas vezes antes de bater nele de novo. Mas teu filho disse que se fizesse isso naquele momento, não estaria se defendendo. Garoto esperto esse meu filho! Claro - retruquei. Seria uma agressão pura e simples. Procure os pais dessa criança para saber o que anda acontecendo no convívio familiar. Isso pode ajudar. Dei as costas e saí.



Tem escolas que funcionam apenas como depósito humano, essa é que a verdade.





Foi então, que naquele dia, naquele instante, decidi que não levaria mais meu filho para escola. Sem nenhuma filosofia em vista, só uma vontade enorme de acolher meu filho. Uma decisão impensada tomada por impulso, muito peculiar a minha personalidade. Não conversamos nesse dia, fui à faculdade e não fui eu a colocá-lo na cama. No dia seguinte, perguntei a ele o que ele achava de ficar em casa comigo todos os dias, durante todo o dia. "Jura, mamãe?" 





Expliquei para ele o que costumo fazer das minhas tardes, dizendo que preciso me dedicar a algumas leituras, que às vezes preciso sair pra resolver alguma coisa e que de vez em nunca me permito tirar um cochilo. Há três semanas estamos juntos. 





Não houve mudança significativa na minha rotina. Continuo fazendo tudo o que fazia antes, embora tenha reservado um tempo só para ele nas minhas tardes. Ganhou uma lupa enorme para analisar pedras da coleção que herdou da irmã, ganhou livros grossos sobre o funcionamento do corpo humano, de dinossauros, mapas e joguinhos de alfabetização. Como sou contra brincadeiras dirigidas, o deixo livre para brincar com o que quiser. Também diminui os nãos desnecessários. Continua fazendo seus experimentos. Cava buracos no quintal para criar campos de golfe. Junta folhas numa caixinha e vive procurando besouros no jardim. Já faz contas simples, conhece todo o alfabeto e reproduz muitas palavras em folhas soltas.





Longe de tudo o que lhe tolhia, longe de tudo o que aprisionava seu espírito livre. Porque a infância é curta demais para ser desperdiçada com aulas desestimulantes em escolas que desperdiçam o potencial gigantesco de uma criança. Criança precisa sentir prazer.






desescolarização, homeschooling, unschooling
Estou vendo uma esperança.




Estamos vivenciando a aprendizagem como um processo e não como um meio para um fim.






terça-feira, 8 de abril de 2014

Com licença - de quem é a responsabilidade com os cuidados de uma criança?












Quando assisti a esse trailer do documentário Com Licença, chorei no primeiro minuto. Me vi ali e pude reviver toda aquela dor, toda a angústia de ter que sair para trabalhar e deixar meu bebê aos cuidados de alguém. Me vi em cada mãe.





Ao voltar no tempo, me vi sentada naquela cadeira de balanço com minha filha nos braços e leite nos seios. Só queria o aconchego do meu quarto, a tranquilidade e a intimidade da minha casa. Nada nem ninguém me faziam falta. Só queria o privilégio de vivenciar aquele momento em sua plenitude sem ser constantemente assombrada pelo fim da licença maternidade. É duro saber que nada ficaria do jeito que nos agradava, sabia que dali a poucos dias, teria que deixar minha filha com alguém para voltar ao trabalho.





Quando o dia chegou me senti inundada por um sentimento forte que nem saberia descrever, pois nunca havia sentido nada parecido antes. Chorei como nunca havia chorado na vida. Minha mãe que me esperava no carro - trabalhávamos no mesmo local - disse em tom de consolo: é como se estivessem tirando um pedaço da gente, né? Sim, era isso. Sentia-me despedaçada. E essa era uma dor que sentia sozinha. Para me tranquilizar, as pessoas ao meu redor diziam que isso era assim mesmo, que logo eu me acostumaria.



Na segunda gravidez, como não trabalhava, era a vez do marido sentir essa angústia. O que justifica uma licença paternidade de 5 dias corridos? Não á toa, os encargos domésticos recaem com muito mais força sobre nós. Em cinco dias não há tempo para que o pai exerça sua paternidade dividindo as tarefas no momento tão difícil que é o puerpério. Porque o bebê só precisa da mãe mas e a mãe? Precisa de suporte, de carinho, de atenção. A mãe também precisa ser cuidada.



Será que isso precisa ser assim mesmo? Criar filhos é uma responsabilidade apenas da mãe? Apenas do pai? Dos dois juntos? Ou é tarefa para toda a sociedade? O que acontece com uma criança quando você a separa da mãe?




Conciliar maternidade e carreira é um dos nossos grandes dilemas. Falei de forma mais detalhada nesse post, que inclusive, está recheado de falas de outras mulheres-mães contando suas experiências.



Esse documentário busca exatamente entender  as questões atuais das mães urbanas que trabalham. Gestante no ambiente de trabalho, licença maternidade, licença paternidade, volta ao trabalho, rede de suporte. Traz o questionamento e suscita a dúvida: que empresas estão realmente interessadas em valorizar a gestante e a mulher que retorna ao trabalho? que empresas compreendem as novas competências que uma mulher adquire após se tornar mãe? que empresas respeitam o vínculo mãe x bebê? Qual a função social da maternidade/paternidade?



Vamos divulgar e apoiar mais uma grande oportunidade de trazer um assunto tão importante para o centro dos debates.



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Esse filme é a história de todos nós.