Tive uma vida marcada por mulheres e elas todas foram uma referência muito forte na minha formação. Nenhuma delas - bisavó, avó, tias, tias-avós - representavam o estereótipo da fragilidade feminina, que tanto se propaga.
Como mulheres humildes, pobres, chegavam a ser rudes nos seus modos.
Minha mãe costumava contar as histórias de sua infância, à beira do rio ouvindo o lamento das lavadeiras, que usavam da força para alvejar as roupas, batendo-as contra as pedras; de como sua avó abatia com determinação e frieza um animal para a refeição; de como era acordar de madrugada para acompanhá-la ao mercado para vender cuscuz, bolo de goma e café, empunhando um carrinho de mão por um caminho escuro. E de como essa mesma mulher, tão forte, tão determinada, que vivia sem marido nos idos dos anos 60, sabia ser carinhosa e ainda conservava uma certa vaidade. Parecia desconhecer o medo e só conhecer a coragem. Fortaleza e ternura - a antítese feminina.
Nas férias, quando visitava o interior do Piauí com meus avós, pude ver outras mulheres da família carregando água na cabeça - com um peso muitas vezes superando o seu próprio - tão franzino! Percorria o único caminho que lhe deram como opção, com um equilíbrio invejável e, com uma força inconcebível ia riscando o chão vermelho com seus pés rachados. Conservava um modo de viver tão antigo! Era como se o tempo para ela - não tivesse passado.
Essa tia-avó, que passava o dia pra lá e pra cá com baldes d´água na cabeça, deu a luz a vinte e seis filhos. Eu disse 26!!! Os criou com sacrifício, suor e afeto. Costumava falar das agruras da vida, embaixo de uma mangueira que ficava em frente a sua casa de aspecto tão frágil quanto o seu, nos raros momentos de folga, enquanto mascava fumo. "A vida é dura, mia fia, mas ainda assim é boa. Vai entender..." - e gargalhava com os dentes enegrecidos de fumo. Fortaleza e ternura - a antítese feminina.
Essas histórias do passado, que ainda tive o privilégio de ver acontecer, moldaram a mulher que me tornei. Essa realidade, que julgava ser em outra dimensão, era também a minha.
Cresci admirando as mulheres que lutam. Que lutam por seus ideais, por seus filhos, por sua família, por uma causa, por si mesma. Que sabem ser fortaleza e ternura.
Anos atrás, através da televisão, tomei conhecimento de dois grupos de mulheres, que são exemplos pra mim. Um é formado por pernambucanas que se uniram para se proteger mutuamente. Juntas elas conseguiram atrair a atenção para os incontáveis crimes de violência contra a mulher na localidade onde vivem. Antes, apesar de numerosos, eles eram invisíveis, pois estavam protegidos pela intimidade do lar - onde acreditava-se, tudo ser possível.
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| ONG Grupo de Mulheres Cidadania Feminina |
A forma como essas mulheres conseguiram quebrar o silêncio foi usando um apito. Um simples apito. Pode parecer ingênuo, mas funciona assim: se uma mulher está sendo agredida, um apito dá o alerta, que é seguido por outro e mais outro e mais outro...formando uma verdadeira corrente de solidariedade. Pois é, com o apitaço, elas conseguem intimidar o agressor e tentam resgatar a vítima. Quando não conseguem, acionam a polícia. É o Gulag Gang do Brasil!
Com a união, formou-se uma corrente de mulheres solidárias, comprometidas com o bem estar umas das outras, que passaram a valorizar-se fazendo barulho. Fazendo barulho, estão dizendo: não me calarei mais.
O outro grupo de mulheres, me remete às memórias de infância. Por isso, a primeira vez que as vi na televisão, chorei. Como soou familiar pra mim!!! Encanto e surpresa. São as Lavadeiras de Almanara, que cantam antigas canções - batuques, sambas, afoxés, frevos, modinhas, toadas e rodas - cuja origem já se perdeu na memória do tempo.
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| via |
A história delas começou em 1991, quando da construção de uma lavanderia comunitária. Cantavam enquanto lavavam suas roupas. Descobertas, foram incentivadas por um cantor e pesquisador cultural (Carlos Farias) e passaram a cantar em grupo. Assim, criaram a ASLA - Associação Comunitária das Lavadeiras de Almenara. Hoje, com mais de cinquenta componentes, gravaram um cd e participam de festivais na região em outras cidades do país. Ganham seu sustento lavando, batendo roupa e cantando a vida, essas mulheres perpetuam uma cultura que não deve ser esquecida.
Dia desses, Fernanda Reali, compartilhou um texto da Martha Medeiros que dizia assim:
"Sua turma é sua ressonância, sua clonagem, é você acrescida e valorizada. Sua turma não exige nota de rodapé nem resposta na última página. Sua turma equaliza, não é fator de desgaste."
Cada uma de nós tem suas próprias referências, que são fruto do vivido. As minhas são as reais: as de mulheres que são fortaleza e ternura, que se unem para se fortalecer, que entendem que a dor de uma é a dor de todas, que não se omitem, que não esmorecem. Aqui cabe a minha gratidão à Lígia Sena.
Feliz Dia Internacional da Mulher - e que esse dia, um dia, deixe de ser de luta, para ser apenas de comemoração por conquistas.


Dani, me emocionei com seu texto.Parabéns!
ResponderExcluirUm abraço.
Dani, lindo texto de pura emoção. Também espero que um dia essa luta termine e passe a ser o dia das conquistas e respeito.
ResponderExcluirparabéns
yvone
Dani, Dani, Dani... lindo texto! Lindíssimo! Inspirador!
ResponderExcluirAté quando seremos fortaleza e ternura? Até quando brigaremos e acariciaremos, com as mesmas mãos e a mesma vontade? Tomara que pra sempre!
Inspirada aqui, fiz um post desabafo ("então é isso..."). Porque eu quero ser ternura para 4 crianças, mas, sobretudo, FORTALEZA! Quero que se sintam acolhidas, amadas, respeitadas, consideradas, todas da mesma forma. E vou contra quem precisar.
Bjos e bençãos.
Mirys
www.diariodos3mosqueteiros.blogspot.com
Oi Dani! Lindas histórias. Fico imaginando quantas outras como essas nem conhecemos, não é mesmo? Beijo, Gisa Hangai / www.maebacana.com.br
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