O relato do parto desassistido que segue baixo, escrito por Elisa Lorena, chama atenção para a força surpreendente do feminino, de se experimentar integralmente como mulher, como indivíduo forte e seguro de suas escolhas. Revela o empoderamento na sua essência, na busca por um parto natural, domiciliar e muito respeitoso. Ela estudou e desde sempre teve a certeza de saber-se capaz de trazer à vida sua filha e venceu todas as suas dúvidas cercando-se de muita informação e preparando corpo e mente para esse momento que mudaria para sempre sua vida e marcaria a forma ativa na sua maternagem.
Por: Elisa Lorena
ATENÇÃO: isso não significa que eu (ou esse blog) apoie o parto desassistido. As evidências científicas não amparam esse tipo de parto. Apenas foi a minha escolha.
O nascimento de Yara
A preparação
Minha família é cesarista do tipo "normal quando dá, né?". Então todos os relatos de nascimento são de cesáreas urgentes e salvadoras. Eu achava isso normal, como uma alternativa para se evitar a dor. A verdade é que eu nunca tinha pensado no assunto.
Já Thomas, meu companheiro, tinha uma visão diferente. Ele me disse que parir não é mais opção em nosso sistema privado de saúde, o que dirá ter um parto respeitoso.
Resolvi estudar. Felizmente na era dos blogs maternos e dos grupos do Facebook, tive muito material. Recebi emprestado também alguns livros úteis, como o "Parto com Amor" e "A Cesariana", e o maravilhoso filme "Parto Orgásmico".
Passei a questionar tudo que eu sabia sobre parto e maternidade. Questionei a analgesia, a posição de parir, a ocitocina, o nitrato de prata, o clampeamento do cordão, a separação do bebê da mãe e todo o pacote de intervenções.
Descobri que o plano de saúde não me seria útil, que parir em hospital pelo SUS seria furada, e que a casa de parto não era meu sonho (o ambiente ainda era hospitalar demais).
Desejei ardentemente um parto em casa, e o Thomas me disse que apoiaria integralmente o que eu quisesse, mas ele não achava viável ter uma equipe em nossa pequena kit.
Uma noite, com 9 semanas de gestação, eu estava tomando banho me "vi parindo", "vi o bebê saindo" do meu corpo, cheio de vérnix. Tudo desenrolou em minha mente. Avisei o Thomas: "se prepara que ela vai nascer aqui em casa!" Naquele momento para mim estava decidido.
Estudei, estudei, estudei.
Conheci uma enfermeira parteira maravilhosa, a Silvéria, que me acompanhou no pré-natal no hospital público HUB. Fiz todos os exames e segui todas as orientações que eu achava pertinente dosando bem a alimentação, as atividades físicas e o repouso. Contei com o apoio do Grupo de Gestantes do HUB e os grupos virtuais, tais como Gravidez, Parto e Maternidade.
Preparei o corpo, fiz atividade física a gestação inteirinha (natação, yoga, corrida, caminhada, ginástica localizada de preparo para o parto e pós-parto), exercitei períneo, fiz massagens.
Eu fiz a preparação da casa, comprei a piscina, a barra de exercícios, mangueira. Comprei um monitor de frequência cardíaca fetal, comprei docinhos, chocolates, frutas, incensos. Escolhi as músicas. Organizamos a logística.
Imprimi uma lista com o nome de todos os profissionais humanizados que atendem na minha cidade (só porque o marido pediu).
Assisti vários vídeos de parto. Mandei os links para o marido, que viu também. Estudei com atenção as fases do trabalho de parto e fiz o marido estudar comigo.
Estudei, estudei, estudei. Estudei quais sinais do meu corpo eu deveria ouvir para pedir ajuda ou para saber que tudo está correndo bem.
Quando foi chegando perto do final da gestação, senti minha força interior crescer, senti a força de mil mulheres em mim. Eu sabia que tudo correria perfeitamente. Mesmo se algo saísse dos planos eu não sentiria culpa, assumi totalmente a responsabilidade. Senti-me pronta para qualquer resultado.
Assisti duas vezes no cinema o filme "O Renascimento do Parto". Nada me marcou mais do que a frase dita nele: "Nós sabemos parir. Nós mulheres gostamos de parir". Isso! Era um parto gostoso que eu me providenciaria.
Assumi para mim a responsabilidade. A responsabilidade de todo e qualquer resultado, sabendo que todas as opções tem riscos, em maior ou menor escala.
Tudo para dar a minha filha a chance de ter a melhor forma de nascimento, ou no mínimo, um prazeroso trabalho de parto. A melhor que eu conheço entre todas: eu e meu marido, com respeito, carinho, amor, aconchego, serenidade. Somente a nossa energia envolvida no nascimento.
O parto
A bolsa rompeu às 3h45 do dia 17 de dezembro. Fiquei super empolgada! Fui tomar meu banho e vi o tampão no chão do banheiro. Thomas me perguntou o que fazer e a resposta foi: "forrar o colchão com o plástico e dormir o máximo possível!"
Acordei às 10h da manhã e fiquei no computador nos grupos do Facebook até às 14h, mas sem contar para ninguém sobre o início do trabalho de parto. O futuro pai foi trabalhar. Pedi que ele me comprasse meus incensos favoritos e doces, frutas e chocolate.
Eu fui limpar a casa, comprar flores aqui perto da minha casa. Andei um pouco pela quadra. Praticamente contração nenhuma. No máximo, deixava uma bolsa de água quente na lombar para aliviar a pequena cólica. Dei uma limpada na casa e montei o meu altar com as flores e meus cristais.
O trabalho de parto não teve progresso até a volta do pai às 19:30, afinal, nem queria entrar em TP pra valer sem ele. Jantamos, tomamos chá e fomos preparar a piscina.
Usei muito na fase latente do trabalho de parto o pano pendurado na porta. Soltava o corpo para todos os lados, rebolava, me abaixava. Aliviava muito as contrações, chegava a ser gostoso mesmo. Contrações sem regularidade, mas às vezes eu achava que vinham com intervalos menores que 3 minutos.
Eu estava feliz que o trabalho de parto tinha começado.
Mentalmente eu conversava: "mas será que essas contrações não vão se regularizar? O que eu preciso fazer para o parto acontecer?" A resposta vinha: "nada, se você foi capaz de respeitar o dia do nascimento, respeite também a hora de nascer, ela virá na hora dela, apenas sinta e viva, bebês nascem".
Entrei na piscina às 21h. Sabia que era cedo demais, mas nós queríamos estrear a piscina, que com muito carinho, o Thomas preparou. Foi uma delícia, de verdade!!! Nada de dor, bem prazeroso e relaxante. Nada de trabalho de parto também.
Saí da piscina e às 23h fomos dormir novamente, esse foi o único momento em que eu parei para ouvir os batimentos cardíacos do bebê, pois senti ela muito quietinha. Tudo normal.
Acordei às 4h30 enjoada e com muita dor de cabeça. Daquelas típicas e fortes crises de enxaqueca. Vomitei. Ficava aliviada durante a contração, que ficaram fortes, pois nesses momentos eu não sentia dor de cabeça.
Esse era o meu maior pavor, ter enxaqueca no meu TP e pensei: "troco essas dores de cabeça pelas do trabalho de parto engatado". Foi isso que aconteceu.
Lembro-me de pensar: "Eh, 24h de bolsa rota. A casa de parto não me aceitaria mais. Vai ser aqui em casa mesmo, ou em um hospital".
O trabalho de parto engatou e não senti nenhuma outra dor além das contrações. Curiosamente, sentir-se feliz justamente por causa da dor. Era ela que me dizia que tudo estava indo bem. Senti o apoio físico e emocional do meu companheiro, que estava sereno (cansado) e confiante, me transmitindo força. Em cada contração ele estava lá, massageando minha lombar.
Quando clareou, as contrações estavam fortíssimas, eu rugia, gritava com todas as minhas forças e ainda assim, entre uma contração e outra eu dormia. Rugir intensamente extravasava tudo!
Quando eu comecei a me questionar se estava indo tudo realmente bem, quando eu senti um pouco de medo, me lembrei: estou na hora da covardia! Falta pouco. Quando senti que já tinha dilatado tudo, voltei para a piscina.
Foi pauleira. O expulsivo deve ter levado mais de 1h30 de duração. Senti dor, senti medo de não acabar nunca. Senti depois uma força grande, me senti amparada espiritualmente, todo o meu povo comigo.
Senti a cabecinha cabeluda dela. Eu estava de gatas, às vezes de cócoras, dentro da água, com o meu companheiro a segurar com as mãos o peso do meu corpo, como se fosse uma banqueta de parto.
Senti ela descer, bem devagar, a cada puxo. Lembrei de não acelerar o processo, nada de fazer força, procurei deixar acontecer.
Momentos antes do nascimento, senti uma presença divina, intensa, maravilhosa. Quando eu fechava os olhos, eu "via" uma flor de lótus, branca e luminosa, na altura do meu ventre. Senti o círculo de fogo. A cabecinha saiu. No puxo seguinte, saiu o ombro e logo em seguida, todo o corpinho. Nasceu a Yara, com peso estimado em 3,5kg, às 10h37 do dia 18/12/13.
A vi nadando, de olhos abertos dentro da água. O pai pegou a bebê e me entregou. Tinha uma circular de cordão umbilical na perninha dela. Abracei e a aqueci com meu corpo e uma toalha.
Fomos para a cama, ela mamou e ele cortou o cordão umbilical. Deixei os dois juntos e fui tomar um banho, nesse momento, saiu a placenta, meu períneo estava íntegro. Fui dormir junto com a Yara ao meu lado, enquanto o pai cuidava de limpar o apartamento, para descansar junto comigo.
Ele foi meu doulo, mas eu que partejei.
No fim, parimos juntos.


eu tenho o sonho de ter meu filho assim em banheira. penso em ter uma doula também, seria maravilhoso. Planejo bastante para esse momento!
ResponderExcluirGrande beijo
umanoitemparis.blogspot.com
Oi, já li e reli esse relato, porque quero PD desassistido. Mas fiquei com algumas dúvidas. Como a Elisa fez para registrar a pequenina?
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