Para quem está aprendendo a andar, dar o primeiro passo sempre assusta. Afinal, o medo de cair é inevitável. Para quem já sabe andar essa vacilação natural fruto da vontade e da prudência, pode parecer uma bobagem.
Há três semanas este blog não é atualizado, mas o motivo é bem simples. Estou às voltas com as deadlines do fim do trimestre. Peças processuais para produzir, atividades complementares, visitas a instituições e um projeto de pesquisa para apresentar. Fui pega de surpresa, afinal o projeto só deverá ser entregue no fim do semestre. Mas como forma de avaliação e treino para a banca da monografia, o professor exigiu que apresentássemos. Eu não tinha uma linha escrita.
O tema estava escolhido há pelo menos dois semestres. Queria muito falar sobre mulheres e da luta para fazer valer direitos já conquistados. Não qualquer mulher. Tenho um quê de Geni, aquela cantada por Chico Buarque. Tenho a estranha mania de voltar o meu olhar para os errantes, os cegos, os retirantes, quem já não tem mais nada. Foram duas semanas intensas em que me vi obrigada a estudar todo o material pesquisado e ainda assistir a alguns documentários. O assunto é forte e eu me vi completamente absorta. Não fiz outra coisa senão sentar, estudar, chorar. Não necessariamente nessa ordem, não necessariamente pelo mesmo motivo.
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Será um estudo sobre mulheres. Aquelas mulheres que ousaram violar as leis, que carregam um estigma, que são condenadas e abandonas por suas famílias e por seus companheiros, que encontram-se encarceradas. Foi um trabalho de desconstrução do senso comum, que a reduz a condição de delinquentes onde todo e qualquer ato de violência cometido contra elas passa a ser legitimado. Uma vez sob a tutela do Estado, o julgamento dessas mulheres se perpetua ao longo de todo cumprimento da pena.
Será um estudo sobre a violência institucional cometida àquelas que engravidam no cárcere e se proporá a analisar de que forma os dispositivos jurídico-penais restringem o contato dessas mulheres com suas potencialidades de vida, com seus corpos através do parto, com seus filhos (sujeitos de direitos) e com o exercício da maternagem.
Numa sociedade em que ser humano tem sido há séculos sinônimo de masculino, o sistema prisional foi pensado por homens e para homens. A ideologia machista evidencia-se em todas as vertentes do sistema de justiça criminal. Se as normas penais e sua execução, foram estruturadas sob a perspectiva masculina, não é difícil imaginar quão deficitária é a estrutura penitenciária para atender estas mulheres que ousaram romper o pacto social. Além de presídios arquitetados para receber mulheres que continuam, independente do encarceramento, com suas necessidades e especificidades femininas - como menstruar, parir e aleitar.
"Para se ter uma ideia, o sistema penitenciário brasileiro conta com apenas 15 médicos ginecologistas para uma população de 35.039 presas, o equivalente a um profissional para cada grupo de 2.335 mulheres, de acordo com o Conselho Nacional de Justiça." via
Com base nesses dados, dá pra traçar um panorama sobre o quão aterrador é parir no cárcere. Estas mulheres encontram-se numa situação de extrema vulnerabilidade por estar sob o jugo de duas instituições: uma que deveria prestar assistência a sua saúde e outra que deveria garantir a eficácia de direitos positivados. A condição de invisibilidade não pode ensejar a opressão e a violência institucional por esta condição de encarceramento se afastar do paradigma hegemônico.
A apresentação do trabalho se deu na sexta-feira e superou todas as minhas expectativas. Há tempos não me sentia tão feliz, tão realizada. Vai ser incrível terminar a faculdade falando sobre mulheres. Gostaria de agradecer a todas as mulheres que me apoiaram, que me incentivaram e que me inspiraram.
O primeiro passo foi dado, agora é só aprender a andar.
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| via Moça, você é machista |


Dani, sempre ouve muito, muito pouco sobre mulheres em cárcere. E pouca informação faz pensar pouco também, né? Sequer consigo imaginar a situação de uma mulher que engravida encarcerada. Sequer consigo imaginar algo positivo e possível... enfim, fiquei bem interessada. Você tem documentários sobre para me indicar?
ResponderExcluirUm beijo,
Re
Puxa, muito legal. Aliás, o termo legal aqui me soa tão interessante... Parabéns, Dani. Beijos.
ResponderExcluirTe desejo uma excelente caminhada!Quem sabe você não publica essa monografia?Estamos interessadas!
ResponderExcluirParabéns pela coragem de enfrentar uma realidade dura como esta. É preciso muita força e muito amor. Ainda bem que temos pessoas como você, capazes de doar "a quem não tem mais nada". Eu mesma, confesso, nunca seria capaz.
ResponderExcluirDesejo que a sorte acompanhe você nesta empreitada,eque o universo conspire por você, por nós e por todos que, por um motivo ou outro, se encontram em situações tão difíceis.
Precisando alguma ajuda, estamos por aqui.
Super beijo.
Realmente Dani, nunca ouví falar sobre e nem lí.
ResponderExcluirO único livro que conheço é do Drauzio e sobre homens.
Tema interessantíssimo e se precisar de alguém para ler é só me passar!!!
Bjoos
uau!!
ResponderExcluirAmei o tema e fiquei super interessada em saber mais a respeito.
Sucesso Dani!!!