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terça-feira, 29 de outubro de 2013

Parto domiciliar humanizado - o relato de um pai






Somos amigos há bastante tempo e fiquei muito feliz quando soube que seriam pais. Foi lindo ver a busca desse casal por um nascimento respeitoso para seu filho com a clareza de quem sabe que caminhos seguir.



Segundo a psicoterapeuta argentina Laura Gutman " O homem e a mulher só conseguem se transformar em um casal de pais quando há apoio mútuo."




Fiquei ainda mais feliz quando o Lucas aceitou meu convite para que escrevesse este relato de parto, mostrando que o pai tem um papel essencial na gravidez, no parto, no puerpério e principalmente, na vida do seu filho. Mostrando também como é importante estarem juntos, conscientes e conectados para essa grande travessia que é o parto.








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* por Lucas Brito



Uma e meia da manhã: - Vem cá...acho que a bolsa estourou. Com estas palavras, me levanto da rede e me encaminho para o banheiro. Lá chegando, vejo minha esposa num estado de tranquilidade aparando aquele líquido translúcido que não parava de descer. 





A partir desse momento começou-se um processo de transmutação, talvez tão intenso quanto a de uma terra plana para uma terra redonda; como se alguém tivesse ajustado as lentes da vida. O nascimento de meu filho, sem dúvida, foi o momento mais espiritual, sagrado e divino pelo qual já passei e, também sem dúvida, é o evento que mais desejo para todos aqueles que terão filhos e principalmente, para aqueles que irão nascer.





Ok, bolsa rompida. O que fazer? Ela enviou mensagens de aviso para a equipe de plantão (doula, amiga, parteira e enfermeira) e eu...bem, naquele momento meu primeiro impulso foi o de esvaziar por completo meu guarda-roupa, dobrar cada roupa e reorganizar cada peça (acho que na hora pensei: como vou criar alguém se não consigo manter um guarda-roupa?) =) Com uma boa dose de humor ela perguntou o que eu estava fazendo e voltou a se deitar. Feito isso, coloquei panelas de água para ferver e fui varrer varanda, sala e cozinha. É válido deixar claro que isso não foi feito de modo a dissipar uma suposta tensão, pelo menos não de modo consciente, mas sim de plena tranquilidade. Num sentimento de deixar a casa limpa para receber o pequeno ser. 





Quarenta minutos após a bolsa estourar as contrações já estavam de cinco em cinco. A mãe buscava qualquer posição que pudesse lhe amenizar o desconforto. Em alguns momentos eu lhe perguntava  sobre seu estado, apenas para perceber que ela havia entrado em outro transe. Aos meus olhos, a cada minuto que passava aquela menina bela e risonha ia ganhando a força e presença de uma guerreira matriarca. A cada minuto que passava eu ia me sentindo mais dentro de uma força condutora da vida. Isso trazia tranquilidade. 





Aproximadamente às 4:30 da manhã uma amiga "convidada especial" chegou. Ficávamos sentados, calados, observando cada movimento da mãe. À medida que as contrações aumentavam e ela entrava nestes transes, eu ia me sentindo cada vez mais envolvido por uma força feminina; como se estivesse tendo a permissão de participar de uma espécie de ritual secreto pertencente às matriarcas. 





Ao vê-la posicionada de joelhos de frente para a cama, instintivamente fui para trás e me posicionei de modo a receber aquele pãozinho que há 39 semanas cozinhava ali dentro. Observava cada contração, cada gesto. Às 5:40 a parteira chegou. Pedi para a amiga abrir o portão. Não podia sair dali naquele momento por nada. Pensei: "como será que faço para saber a dilatação?" Quando olhei por entre as pernas, já era possível ver os cabelos molhados...estava coroando. Posicionei a mão direita de modo a sustentar a cabeça e com a mão esquerda fiquei pressionando o períneo. Quando a parteira chegou, mostrei a coroação e ela confirmou que o momento estava bem próximo. Com muita delicadeza e vendo que eu estava ali preparado, ela se posicionou ao meu lado e ficou ali como que uma rede de segurança.





Contração...contração...contração...e eis que a cabeça sai. Olhei. Sorri. Aquela carinha roxa-azulada me tomou a atenção. Após saber que essa coloração era normal, me tranquilizei. Na próxima contração seria o corpo. Durante a contração fiquei com medo de não aparar com uma mão e acabei removendo a outra mão do períneo.





Numa fração de tempo, que era ao mesmo tempo instantânea e eterna, tive a bênção de poder viver o milagre da vida. As cores mudaram, os sons, os cheiros...





Pude sentir e vivenciar a magia desse ritual essencialmente feminino. Vivi meu feminino e tive prazer nos ensinamentos apresentados.  Às 5:55, com o cantar dos pássaros e com os primeiros raios de sol, nasceu o pequeno grande Otto.





Instintivamente pensei em trazê-lo para perto. Sabiamente a parteira disse que o cordão era curto que deveríamos passar ele por baixo das pernas da mãe. Passei a criança para a parteira, que limpou a boca do pequeno com gaze e logo o entregou a sua mãe. Eu, mãe e filho ficamos ali, no chão de nossa sala, abraçados. Pouco depois chegou a enfermeira. E na sequência nossa querida amiga doula que ainda tentou dirigir mais de 200 km para chegar a tempo, mas não deu. =)



Lentamente fomos limpando aquele ser...

Limpávamos com abraços, limpávamos com com amor. Vinte minutos depois dele, veio a placenta. Esperamos parar de pulsar, a enfermeira colocou o grampo e tive o privilégio de cortar o cordão.



Enfim...20 dias vividos. Posso dizer que muitas revoluções no campo das ideias e concepções ocorreram e continuam a ocorrer. Despreparo médico generalizado (mas não absoluto), violência disfarçada por trás dos partos hospitalares, desconsideração da mulher e criança como principais protagonistas, falta de crença na própria biologia corporal por muitos, incompatibilidade entre carga-horária de trabalho e atividades parentais, processos educativos, etc. Agora acho que o tempo vai encaixar cada coisa em seu devido local. Por ora vou me ocupando esfregando e trocando fraldas, fazendo as refeições, sucos e chás buscando dar a ambos o merecido período de resguardo.



No final, não posso deixar de expressar minha mais sincera gratidão à equipe de acompanhamento Mãe do Corpo (Kelly e Semírames), nossas queridas Karla e Liana e a linda obstetra que conhecemos recentemente, Drª Liduína Rocha. Foram todas pessoas de muita luz que surgiram em seus devidos momentos para que pudéssemos chegar ao tão esperado momento em que O holofote acendeu em nossa sala.



Grato.



* * * * *



Que mais homens possam romper com os paradigmas e se permitam se construir como pais.

Que a paternidade ativa reverbere!






2 comentários:

  1. Acredito que quando nos tornamos pais passando por um parto, os três se tornam um.

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  2. Muito emocionada com esse relato! Intenso e verdadeiro.
    Que mais homens viviam a paternidade ativa.
    Parabéns à nova família!

    Beijo.

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