O ano era 1985, era dia das crianças quando ouvi essa música pela primeira vez. E ela fazia parte do presente. Quem a apresentou pra mim, foi uma pessoa que também estava se apresentando: o homem a quem passei a chamar de pai, oficialmente naquele dia. E que, a partir daí, me apresentaria a vida de uma forma tão linda!
Dividiu comigo sua coleção de figurinhas Amar é, sua coleção de revistinhas da Disney, seu gosto pelo rock, suas idas ao cinema. Ah! sempre íamos juntos ao cinema. Era um programa só nosso. Juntos, assistimos A História sem Fim, todos os filmes dos Trapalhões, E.T e tantos, tantos outros...Homem generoso, aquele.
Os sábados eram sempre regados a muita música. Ouvíamos de Elvis Presley a Led Zeppelin, que eu cantava num lindo embromês, esperando que ele se orgulhasse de mim. Passávamos horas intermináveis jogando River Raid e Enduro no Atari. E nisso, ele não gostava que eu o superasse. Homem quase infantil, aquele.
Fazia com que eu comesse verduras, frutas e feijão. Como eu era magra e muito branquela na visão dele, me preparava gentilmente, um coquetel de emulsão Scott com ovo de pato e, reforçava sempre com Biotônico Fontoura, tudo isso pra me dar "sustância". Cheio de truques, aquele homem.
A vida era para ser celebrada - ele dizia! E como gostava de comemorar aniversários. Os meus nunca passavam em branco. O dia era uma grande festa! A começar pelo café da manhã. E ele mesmo, preparava tudo: dos comes aos bebes, escolhia a trilha sonora e vestia sempre seu melhor sorriso. Homem alegre, aquele.
Quando surgiram meus primeiros raios de mulher, ele estava lá complascente. Ouvindo, orientando, aconselhando, burlando a vigília ferrenha da minha mãe, para que eu pudesse ter experiências. Para ter o que contar, apregoava. Era para ele, que eu chorava os amores não correspondidos...e ele, sempre enxugava minhas lágrimas e cantava baixinho: "serei sempre seu confidente fiel, se seu pranto molhar meu papel". Nunca negou colo. Incrível a cumplicidade que tínhamos. Ele sabia que podia contar comigo e eu era feliz, por ter a quem chamar de pai. Companheiro, aquele homem.
Quem deu a notícia de que meu pai biológico morrera, foi ele. Apesar de não o ter conhecido, chorei sua partida nos braços do pai que me acolheu....e ele cantava baixinho: "sou eu que vou ser seu amigo, vou lhe dar abrigo, se vc quiser". E eu quis e sorri para as possibilidades que a vida sempre me concedera.
Desse homem, não trago o sangue. Carrego lembranças.

lindo Dani!!!!
ResponderExcluirohhhhhhhhhhhhhhhhhhh que lindo!!! Agora eu que tp em lágrimas!!!
ResponderExcluir