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segunda-feira, 12 de março de 2012

O tempo, a sombra e as respostas

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Não sei se um ser humano é capaz de não criar expectativas acerca do outro ou de alguma coisa. Isso pode ser muito perigoso, aponta estudo. Porque só se frustra quem idealiza demais. (Caio Fernando Abreu).





Assim é a maternidade.



Umas pessoas projetam nos seus filhos tudo o que quiseram ser e não conseguiram, como se eles tivessem vindo ao mundo para dar continuidade a projetos inacabados, sonhos não concretizados. Outras querem proteger os filhos de todo e qualquer sofrimento, para que eles não passem pelo que passaram.




Há um tempo atrás quando escrevi esse post, estava com muito medo por causa dos sinais claros de que a minha filha de nove anos estava entrando na puberdade.

Cedo demais – pensei.

Cedo demais!!! – protestei.





Investiguei o quanto pude…não há escudo melhor e mais eficaz que a informação! Passamos por endocrinologistas e os sinais clínicos eram bem diferentes dos laboratoriais – estes indicavam que estava tudo bem, tudo certo, volte depois. Sem me dar por vencida, conversei com minhas tias, (uma médica e uma outra doutora em farmacologia) e lhes contei como estava revoltada com esses médicos incompetentes! Queria saber porque não receitavam logo a porra desses hormônios. Precisávamos agir rápido (como se tudo se resumisse a luta do bem contra o mal).





Depois de ouvir tudo com meu incômodo tom de revolta e lágrimas nos olhos diante de minha própria impotência, disseram que os médicos estavam certos. PAF! Que não havia necessidade de introduzirmos nenhuma medicação, que seria muito ruim para a Bia neste caso. PAF! Daí uma delas, que me conhece desde sempre, me olhou lá dentro dos olhos e perguntou: Dandan (oi, esse é meu apelido pros tios) vc está com MEDO DE QUÊ? Engoli em seco e perguntei se poderia responder depois.




SABEM LÁ DE NADA. Continuei com a minha cisma, com meu escudo e com a sensação de que ainda precisaria derrotar um inimigo, porque eu sou como a Maria, que tem a estranha mania de ter fé na vida. Daí lembrei da conversa que tive com a minha tia e fui achando as respostas.



Foi um processo muito, muito doloroso.








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Só que eu precisava ter a certeza de que essa era resposta certa. Era o que mandava meu senso de responsabilidade. Daí, num ímpeto, procurei a Ligia (a Cientista que Virou Mãe) e pra formular a minha pergunta, fiz um paralelo entre essa minha insistência e o uso indiscriminado de ritalina e, consequentemente, das mães que são coniventes com isso. Estou sendo igual a elas? - foi a minha pergunta. Sim, as minhas respostas estavam certas. Tudo o que ela me falou, serviu para deixar as coisas ainda mais claras.



***



Olha como estava louca...acreditava que toda essa ansiedade, essa busca, fosse por causa da menarca, que sequer aconteceu. Imaginei que no momento da menstruação a menina sofreria uma metamorfose e se transformaria da noite para o dia, deixando pra trás a infância, os brinquedos, a ingenuidade.



***





Uma coisa que aprendi com tudo isso é que, como MÃE nunca sabemos de tudo o tempo inteiro. Quem acha que se diplomou na maternidade e pode vender seus conceitos, precisa revê-los e baixar a bola. Não temos o controle sobre nada, nem mesmo sobre nossos filhos.



Ser mãe é um eterno exercício de humildade.





Essa novidade toda: de escolher modelos confortáveis de sutiã e métodos de depilação pra uma garotinha fez com que eu encontrasse a minha própria sombra, os meus fantasmas. O medo não era só ter de comprar absorvente, era outro.





O medo era da adolescência em si, não no sentindo fisiológico, mas do que estava por trás. Descobri que estava projetando na vida da filha todas as questões não resolvidas da minha vida. O meu medo era de QUEM EU me tornaria pra ela. De que eu, mesmo sem querer a fizesse passar pelos mesmos constrangimentos, pelo mesmo sofrimento pelo qual passei.





Agora já não cabe mais a clássica pergunta: que tipo de mãe serei? NÃO. Agora a questão é: que tipo de mãe eu NÃO quero ser.








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Não quero ser a mãe que aprisiona, não quero ser a mãe incapaz de acompanhar as evoluções do corpo e do pensar, não quero ensinar pela aspereza, não quero ser a mãe competitiva, não quero ser a mãe que ao invés de orientar, julga modelos de conduta que ela mesma teria que ensinar, não quero ser a mãe que afugenta ao invés de acolher, não quero ser a voz dos conflitos.





Quero ser o que não foram.





Um ser com o mínimo de sensibilidade ao ver uma flor desabrochar, a pega com cuidado, porque qualquer gesto, por menor que seja, acaba machucando as pétalas sempre muito finas e delicadas. Assim é a nova fase (adolescência). Assim que quero agir quando ela chegar.



Revivi antigas questões, mesmo que somatizando-as para, finalmente, cortar o elo e renascer. Dissociar a mãe que sou, da filha que fui. O que passou não pode ser mudado e preciso aprender a encarar isso. Já o que está por vir...isso sim, é de minha inteira responsabilidade.





Porque as coisas podem mudar, nós podemos mudar, mas o vínculo que se constrói com os filhos é para sempre.




Agora sim, me sinto preparada.



Nada de remédios, nada de intervir no curso natural da vida.








28 comentários:

  1. Dani, tenho uma dificuldade em pensar que eles irão crescer, adolescer.
    Mais tô deixando pra pensar nisso quando chegar a hora, nesse momento espero de mim como mãe, paciência e criatividade, pra dar educação e formar a nossa base sólida no amor.
    Desejo sorte e tenho certeza que o certo é deixar as coisas correrem naturalmente. Um grande beijo, fiquei emocionada com o que vc escreveu.

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  2. Eu me emocionei muito lendo esse texto sincero, cheio de busca, de amor e de empatia e compreensão pela vida da sua filha.
    A busca por ser uma boa mãe, uma mãe a despeito da massa, conectada com seus sentimentos e intuições mais íntimos.
    Que se questiona e não aceita qualquer resposta pronta.
    Dani, como eu te disse nesse fim de semana, a ligação que esse meio virtual permite estabelecer com as pessoas é uma coisa mágica. E sou muito grata por ter te encontrado, dessa maneira, pela vida.
    É uma alegria, pra mim, ter pessoas como você no meu dia-a-dia, ainda que não presencialmente, mas, nem por isso, de maneira menos intensa.

    Orgulho de mulheres como você.

    Grande beijo e um abraço muito carinhoso.

    Ligia

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  3. Dani, quanta sinceridade, quantos sentimentos reais, que nos aproximam, pois na verdade, é isso mesmo, aprendemos o tempo todo na maternidade.
    Também tenho muitos medos, mas de outra natureza... busco exatamente como vc disse, fazer diferente daquilo que tenho certeza que não quero ser...
    Muito bom ter encontrado seu blog! Um beijo grande, Juliana

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  4. Sabe Dani, não tenho medo de ver meus filhos crescerem, não sinto medo da adolescência ou da vida adulta. Não sou do tipo de mãe que tem pena do filho porque tem que fazer lição de casa (acredite, convivo com mães assim). Mas sinto muuuuuito medo de não conseguir dar conta, equilibrar a mãe ponderada mas que tem certa autoridade, que o filho respeita.

    Mas me baseio nisso que tu disse: na mãe que não quero ser. Essas sombras que encontramos na maternidade, são um bálsamo que liberta a gente para subir mais um degrau, não é mesmo.
    beijos

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  5. Dani, esse texto é um daqueles que vou guardar para reler e nunca esquecer do que aprendi aqui hoje com vc.
    Estou emocionada de verdade com o que li.
    Parabéns pelo amadurecimento, e sucesso nessa etapa com a sua princesa.
    Obrigada por compartilhar palavras tão profundas e com um ensinamento válido para todas nós mães que nos preocupamos muito com a qualidade da relação pais/filhos.
    super beijo pra vc, boa semana.

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  6. Dani, tenho muito conflitos com minha filha e comigo mesma, coisas que não tem como explicar, só viver. Passamos por isso todos os dias e é muito acolhedor saber que não estamos sozinhas.
    Bjs

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  7. Putz, quanto ensinamento vc conseguiu me passar com esse texto e como eu precisava ver que não sou a única a não querer que meus filhos passem o que passei...tinha muito tempo que não passava por aqui (ser mãe de dois bebês tão próximos é complicado e está me consumindo por inteira...) mas foi abrir e ler para aprender mais...não sabemos de nada mesmo como mães, nunca sabemos nada de nada nessa vida, não podemos controlar é nada e precisamos acordar todos os dias olhar no espelho e dizer isso em alto e bom tom, para não perdermos a humildade...
    Beijos...
    Vanessa Figueiredo
    http://vanessinhafigueiredo.com
    Obs:estava com saudades dos seus textos!

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  8. Dani, que texto inspirador. Sincero. Me emocionei.
    Não dá pra parar o tempo, nem adiar o inevitável. E graças a Deus vc enxergou isso logo. Antes que sua filha pudesse sofre com essa sua busca...
    Muito bom mesmo!

    Beijos

    p.s.:mãe de criança de 3 anos escrevendo. Sentir na pele é outra coisa. Mas qndo for preciso, venho aqui me inspirar novamente.

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  9. E essa nossa idéia de que podemos controlar tudo, que temos que saber tudo, as vezes nos deixa sem saber o que fazer!!!
    Bjos
    Ana

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  10. Dani,
    Como você escreve bem! Gosto tanto de ler seus posts... um tanto de sinceridade, parece que estamos conversando! Realmente não temos o controle de nada. Agora, só o fato de você pensar sobre tudo isso, de fazer essas inúmeras descobertas, se dispor a tudo isso... já faz você uma melhor mãe a cada dia. Tenho certeza disso!
    Estava com saudades, viu! Um grande beijo.

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  11. Dani, quanta profundidade de sentimentos em suas palavras. Como m~ae de um mocinho de 16 anos pude entender claramente o que escreveu. Filhos crescem... e n'os crescemos com eles. Adorei seu texto (como sempre!!! )
    beijos
    www.jeitinhos.blogspot.com

    Ah.. quando puder me faz uma visitinha!!!

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  12. Afê... Dani... é muito!!!
    Como você consegue escrever tão bem sobre o que te assusta tanto???
    "quando eu crescer quero ser igual a você!"

    Bjos e bençãos.
    Mirys
    www.diariodos3mosqueteiros.blogspot.com

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  13. Ê Dani!!! Deu um tempo nos posts e voltou com um texto de matar de emoção qq mãe que se preze!

    Vi no trecho - "Uma coisa que aprendi com tudo isso, é que, como MÃE nunca sabemos de tudo o tempo inteiro. Quem acha que se diplomou na maternidade e pode vender seus conceitos, precisa rever seus conceitos e baixar a bola. Não temos o controle sobre nada, nem mesmo sobre nossos filhos." - a MINHA Mãe...

    Que ao ver a filha aqui grávida e solteira como uma aberração da natureza e da sociedade. Com seus conceitos e princípios (que as vezes acho arcaicos) eu seria super hiper mega rejeitada por amigos e família por não ter seguido o "curso certo da vida" na cabeça dela.

    Na vida não existe o caminho certo a se seguir. Só existe o nosso caminho, o caminho de cada um. Sua pequena está escrevendo a história dela do jeito que a natureza pode lhe proporcionar. E não pense que pq a primeira monstra vai aparecer logo que ela vai virar uma aborrecente da noite pro dia.

    Ajude-a com o cuidado básico de higiene e organização pq nós mulheres temos q ter sempre um absorvente na bolsa ou na mochila e uma calcinha... Mas somos felizes mesmo assim ;-)

    Graças a monstra tivemos nossas meninas tão amadas.

    Acho que ser mãe é um exercício diário de aprendizado de que a vida é uma caixinha de surpresas. bjos e boa sorte nessa nova fase mãe & filha.

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  14. Oi Dani!

    Nossa, lindo texto. Realmente na maternidade vamos ao encontro da nossa própria sombra.

    Um beijo grande e que bom que voltou!

    Ananda.

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  15. Deus, que texto mais bonito! Que palavras doces as suas... Soaram em meus ouvidos e foram lidas pelos meus olhos... Essas sua palavras me fizeram ver tanta coisa, sentir tantas emoções... Pensar na menina que fui e na mãe que quero ser e na que não quero ser, assim como você! Quero que meu filho (mesmo sendo homem), passe pela adolescencia com uma mãe com quem ele possa contar e não de quem queira fugir...
    Amei!!! Ainda estou refletindo!!!

    Beijos!

    Lívia.

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  16. Ser mãe é um eterno exercício de humildade. Você fez bem a lição de casa. Que bom. Acho que você será uma boa conselheira para sua filha,uma boa mãe com certeza.
    lindo texto, longo, cheio de emoção e sensibilidade.

    Bjs

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  17. A maternidade nos faz isso né? Ir e volta, repensar, refazer, começar de novo.
    E não é isso que nos faz sofrer mas tb fascina?
    Beijos!

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  18. Dani, achei essa reflexão incrível! Sabe, eu também ando me apavorando com o desenvolvimento da minha mais velha. Não fisicamente... mas esse deixar de ser criancinha. Percebi lendo suas palavras que esse medo também está muito relacionado à minha história. Obrigada por expor (tão bem!) suas emoções!
    Beijos

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  19. Dani, primeiro quero dizer que estou feliz que vc voltou!
    Seu texto é muito legal, nem te conheço, mas parece que vejo vc falar rsrs. Quero ter essa consciencia e vínculo com as minhas filhas, estou vivendo pra construir isso com elas.

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  20. Uau que texto!
    Não deve ser nada fácil ter chegado a essa conclusão!
    Sombras, sombras...
    Beijos

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  21. Simplesmente demais! Uma volta magnifica!! Esse post me fez refletir sobre minha adolescência!

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  22. Dissociar a mãe que sou, da filha que fui... Com certeza tento fazer isso diversas vezes na minha humilde caminhada na maternidade.

    Amei seu post... Me emocionei, chorei, e ri... Será que (com certeza) vou ter esse medo da mudança quando minha filha chegar perto da adolescência???
    Tudo o que se muda deixa de ser natural....

    Beijocas
    Carol

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  23. que post maravilhoso!
    absorvi um tanto, refleti um monte! esse tal encontro com a nossa própria sombra acho que é mesmo pra vida inteira né?
    muito legal você expor tudo isso e compartilhar! acho válido tanto pra vc botar pra fora, mas principalmente para todas nós aprendermos!
    ninguém tem o diploma, mas experiência sim e eu me baseio muito nelas :)

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  24. Me emocionei com o texto!
    Achei lindo Dani!!
    é.. a Bia está crescendo!

    Agora pensa na minha cara de surpresa, qdo descobri ao sentir um cheirinho de CC no ar, que o meu Lucas de apenas 9 anos... já tem que usar desodorante!!
    Como assim?? Olho p/ ele e vejo aquele menino gordinho e sorridente...
    Ledo engano, ele está crescendo, inclusive com "bigodinho".. confesso que n estou preparada p ver meu pequeno crescer e entrar na puberdade, preciso trabalhar melhor isso hehehehehe.

    Bjs Dani!!

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  25. Ai Dani, que coisa mais linda! Vc tem o dom de falar sobre as coisas da vida com uma intensidade e ponto de vista únicos e nos mostrar com clareza e sentimento!

    Claro que me emcoionei né, nem preciso dizer. Mas agora me recompondo, te digo que passei por algo parecido e acho que até já te contei isso. Os hormônios nunca foram cogitados, pq sempre prefiro resolver as coisas da forma mais natural possível. Assim como a própria ritalina que vc citou, Stella tb foi diagnosticada com TDA na mesma época da puberdade precoce. Cortamos alguns hábitos de vida que estimulam a puberdade e a menarca veio na hora certa, aos 11. Certeza de que vai dar tudo certo com vcs. Já está dando!

    Bjos mil! =)

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  26. Dani, li seu texto e nao sabia o que fazer... se comentava, se te mandava email ou se deixava para la.
    Mexeu muito comigo...sonhei com ele e por fim criei coragem para voltar e deixar um comentario.
    Parabens pelo texto, pela forma clara, carinhosa, linda e madura que voce escreve.
    Ser mae e' essa busca constante, tenho certeza que voce esta fazendo o melhor pela/para sua filha. Mesmo que para isso, tenha que enfrentar todos seus "dragoes" e va' enfrentando de frente um a um.
    Lembro quando chegou meu momento de crescer e vivi tudo (tao intensamente) na solidao.
    Para assumir seu papel de mae, voce tem que abandonar o de filha (ouvi isso da minha terapeuta) e o papel de mae, eu quero construi-lo e nao imitar o modelo que eu tive.
    Forca e obrigada por dividir seus conflitos mais intimos conosco. Esses ensinamentos nao tem preco (pelo menos para mim).
    Abracos fraternos
    Gra

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  27. Ai, Dani, nem sou mãe ainda (mas sou mãedrasta) e já sou tão preocupada com essas coisas. Será que a gente "pensa" demais?
    Beijo,

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  28. Que post lindo, viu? Vim aqui falar que adorei a sua sinceridade e humildade.

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