Existem fases do desenvolvimento do indivíduo que são amplamente explorados, como exemplo: a primeira infância e a adolescência. E quem fica nesse intervalo - crianças de 6 a 12 anos - não merecem atenção? É como se não existissem. Há pouca literatura com enfoque nessa faixa etária, que compreende a pré-adolescência.
Talvez por ser uma fase de relativa calmaria, por não demandarem tantos cuidados, por já terem certa autonomia, sendo incentivados a fazer muitas coisas sozinhos, negligenciemos a educação e o olhar amoroso tão essenciais na fase que está por vir.
Sempre tive medo do modelo da adolescente rebelde, que se tranca no quarto e que faz dele o seu mundo. Que já não enxerga pai e mãe como aqueles seres dotados de super poderes, em quem já não pode ou não quer confiar, encontrando nos pares a solução para seus problemas, aprendendo na rua o que poderia e deveria ser ensinado em casa, com amor, respeito e compreensão.
Bem boba, sempre fiz a Bia prometer que não seria assim. Que nossa relação seria diferente. Que conversaríamos sobre todo e qualquer problema. Que seríamos eu e o pai os condutores dos seus passos inseguros pelo mundo afora.
Sem que eu me desse conta, esse distanciamento já estava acontecendo aqui em casa. Embora estivesse incomodada com ele, não fazia, nem sabia fazer nada que pudesse evitá-lo. A única coisa que deixava claro é que os queria sempre perto de mim, nunca isolados em seus quartos.
Sempre vejo ótimos exemplos aqui mesmo na blogosfera de mães que instituíram com sucesso o dia do filho único. Fazem programas juntos e assim, mantem estreita a relação.
Até fiz isso várias vezes, era muito bom, mas ainda não era tudo. Não sentia a mágica acontecendo.
A oportunidade chegou em forma de um compromisso bem chato. Teria que levar a Bia toda semana, às vezes até duas vezes por semana ao dentista por causa do tratamento ortodôntico que ela está fazendo.
Poxa, ter que me deslocar atéééé o centro? - que merda, pensei. Moramos distantes quase 30 km e só é viável a ida até lá de ônibus, por causa da chatice que é achar um estacionamento.
Encarei, não tinha escolha.
O primeiro dia foi ótimo. Pra falar a verdade, nem sabia andar no centro, mesmo morando aqui há cinco anos. Na real, essa foi a minha primeira ida sozinha. Foi ela que me incentivou a perder o medo das ruas, a buscar e se perder. Voltei a ter autoconfiança.
Rodamos todas as ruas do centro. Entramos em todas as lojinhas que achamos interessante. Conhecemos várias livrarias que não fazia ideia da existência e nossa parada obrigatória era na melhor padaria da ilha. Conversávamos em todo o trajeto, andávamos de mãos dadas o tempo todo e na volta, revisitávamos os melhores achados e lamentávamos não ter tido tempo de fazer mais e mais coisa.
A mágica estava acontecendo.
Em casa esses momentos de encantamento continuava.
Nos tornamos tão próximas quanto sonhei um dia.
Não sei se o fato de eu me sentir responsável por sua segurança de novo pelas ruas da cidade - aquele sentimento de posse e proteção bem conhecido de todas nós - ou se o fato de eu a estar redescobrindo como um serzinho que pensa, dialoga, questiona, ajudou nessa reaproximação.
Sim, ela está crescendo. Está perdendo as feições de criança, tem o corpo de uma moça e percebi que não devo me apavorar com isso. Foi só a vida me mostrando mais uma vez, que não temos o controle sobre ela. Que as coisas acontecem de forma bem diferente do que imaginamos. Filho, vida, desenvolvimento... estão contidos na imprevisibilidade do tempo.
Constatei que ela é uma ótima companhia, que estar ao seu lado me faz um bem enorme....tirando de mim o peso que a maternidade me obriga. E era isso que eu buscava.
Estar com eles, fazer coisas com eles é minha rotina. Faço sempre. Queria mesmo era sentir o prazer de estar junto.
Passamos quase dois meses nessa rotina e posso dizer com uma felicidade que não cabe no peito, que nós nos redescobrimos. Nem posso dizer que esse é o começo de uma parceria, porque na verdade, essa parceria nos estava predestinada há quase dez anos.
Agora, quando a olho, a vejo.
"E rimos juntas, com esse riso das mulheres que nasce da cumplicidade." - Isabel Allende.
![]() |
| toda linda no aniversário do filho de uma amiga |

Que lindo esse "reencontro", Dani!
ResponderExcluirCaio está com 9 e, por ser filho único, ainda "cuido" muito dele. Sinto até que exagero nos cuidados. Mas, como vc falou, não basta cuidar. É preciso sentir o prazer da companhia do outro. Tenho tentado resgatar isso descendo pra brincar com ele de peteca, acredita? rs Tá sendo bom demais. :D
Projetei tudo pra daqui dez anos com Alice e chorei muito ao ler seu post. Desejo muito que haja essa cumplicidade entre nós.
ResponderExcluirBeijos!
Oi Dani! Também sinto falta de coisas sobre a infância no período pós 6 anos. Achei muito legal perceber que, no meio da rotina, uma simples ida ao dentista (que podia ser sacal), se transformou num momento delicioso entre vocês. Acho que o segredo é esse: encontrar, no dia a dia, momentos para se aproximar dos pequenos... beijos!
ResponderExcluirEmocionada! Essa é a palavra que me traduz no momento.
ResponderExcluirNão tive uma adolescência tranquila e a pessoa da qual eu mais me afastei foi da minha mãe, pq pra ela eu nunca soube mentir, nunca soube esconder, então me isolava, por várias razões: pq não queria contar nada, pq tinha medo de decepcioná-la, pq achava que ela não aceitaria minhas amigas se soubesse o que elas faziam... enfim... coisas de adolescentes rebeldes, como vc bem descreveu!
Texto lindo! Adoro passear por aqui!
Lindo...
ResponderExcluirEu, como a Patricia, projetei tudo para daqui a 10 anos, esperando que eu tenha com minhas filhas a relação que vc tem com as suas. Que sejamos cúmplices, que nos vejamos verdadeiramente. Também tenho pânico da ideia de adolescentes que passam anos trancados no quarto. Quero convívio, quero troca. Há de ser assim!
ResponderExcluirDani, lindo! Tudo.
ResponderExcluirO texto, a descoberta da simplicidade, a filha que vc projetou há anos, na verdade, dando a ela a chance de saber que vc estava e estará sempre por perto. Isso é a base.
beijos
Ai Dani ... me adota? Você escreve tão lindo que eu viajo imaginando a relação de vocês!
ResponderExcluirAcho que a fase mais complicada da vida é pré-adolescencia e adolescência. Uma fase de muitos hormônios, fase de desconstruções, fase de perceber que existe a mãe boa e a mãe má, fase de perceber que os pais não tem super poderes, fase do luto pelo corpo infantil e os pais da infância.
Essa parte de 6 - 12 anos, Freud já dizia ser o período de latência. Essa fase que a criança dá uma acalmada, meninas se juntam com meninas e odeiam os meninos e vice-versa.
Quer uma dica sobre o assunto? Leia os livros de Arminda Aberastury. Ela lida brilhantemente com essas questões. Já estudei adolescência na faculdade e é lindo, porque você vê que passou por tudo o que ela diz. Um dos livros mais famosos é o Adolescencia Normal, onde ela diz que há uma síndrome. É excelente.
Beijos e qualquer dúvida pode me perguntar, tenho material da faculdade para compartilhar.
que lindo post. Minha filha mais velha tem 6 anos, estou começando a projetar a pre adolescência, espero que sejamos bem próximas, hoje somos muito amigas, conversamos muito e ela confia na gente, me realizando!!! espero,que continue assim. bj.
ResponderExcluirEstou tão sentimntal com esse assunto. Adorei o texgo e vou guardar para não esquecer de dar espaço para essa magia, esse prazer do encontro de alma com meus filhos, em todas as idades.
ResponderExcluirOi Dani, estou vindo lá da Camila onde ela cita você.
ResponderExcluirTenho um filho de 13 e uma filha de 8 anos.
O menino entrando ou já dentro da adolescencia, é um pouco mais distante. Mas fazemos algumas coisas juntos como: ir às compras qdo ele convida os amigos para dormirem aqui em casa.
As sextas feiras por exemplo eles podem escolher o menu do dia, e fazemos jogos em familia. Claro que nem sempre, mas sempre que dá para encaixar.
Como vivemos na Alemanha, aqui no mes de dezembro temos o Calendario do Advento e cada um faz como quer. No ano passado todos os dias do mes de dezembro até a vespera de natal, os canudos que preparei com os nomes dos jogos foram jogados por nós todas as noites apos o jantar e vi que jogar em familia é um remedio e tanto.
Quando o meu filho comecou com as mentiras na escola esfarrapadas, passamos a fazer na mesa após o jantar uma outra brincadeira. Cada um podia fazer uma pergunta para os membros da familia e a resposta teria que ser verdadeira. Nossa, isso foi sublime, pois descobrimos que ele tinha medo de nos contar a verdade sobre as notas ruins na escola com medo da nossa reacao.
Com a minha filha de 8 anos somos bem chegada. Fazemos muitas coisas juntas e gostamos muito de criar coisa, pintar coisas, transformar coisas juntas. Sei que o momento dela dificil tb vai chegar, mas nada como apresenta-los a Deus tosos os dias e pedir a Ele a orientacao.
Tenho aprendido muito com eles, pois afinal ser mae só se aprende no ato, rs.
Um grande beijo e um abraco colorido para a tua princesa.
Lindo post, lindas meninas!
ResponderExcluirNão me canso de agradecer aos blogs de outras mães por compartilharem experiências tão suas. Estou longe da fase pela qual está passando, mas esse tipo de questão sempre passa pela minha cabeça, pois agora como mãe tento relembrar sempre que posso como foi a relação com minha mãe em diferentes fases da minha vida. Quero fazer o melhor possível, na medida do possível.
ResponderExcluirObrigada
Aline
www.decaronanacegonha.blogspot.com
Oi Dani, me emocionei com oque escreveu, de novo,rsrsrs,porque gosto muito da sua maneira de escrever e do que escreve, como escreve.Acabo me identificando por ter uma filha na mesma idade e passando por situações tão parecidas...sinto uma carência grande em parte de cuidados com esta faixa etária também, pois a Mel que já fez onze e só sabe reclamar, tudo é tão intenso para ela, as vezes acho que tudo que ela quer é continuar cça outras não, e nós mães envolvidas na nossa rotina e certas de que temos que ser capazes de dar conta de absolutamente tudo ficamos paradas sem saber oque fazer...
ResponderExcluirAinda que muitas vezes erradas, tudo oque queremos é acertar.
BJs
Ah! Voltei porque esqueci de dizer antes mas não poderia deixar de dizer:_A Bia é uma princesa e esta foto esta um encanto.
ResponderExcluirBjs para vcs.
Oi Dani, qdo li esse post até consegui imaginar vcs duas juntas pela cidade!
ResponderExcluirGostei muito, aprendi muito!
Obrigads!
Bjo
Adorei! Por uma série de problemas familiares, fui uma adolescente enfiada num quarto. Não quero que isso se repita jamais aqui em casa, até porque o ambiente é bem mais leve e divertido por aqui. Amei muito teu texto! Beijoooo
ResponderExcluirDani, isso faz uma diferença danada na vida dela.
ResponderExcluirMas deixa eu te contar, esses dias conversando com uns amigos, que passaram pela mesma fase de rebeldia que eu (a típica, trancar no quarto, sair escondida, etc). Chegamos a conclusão que: é normal. E o principal: é saudável.
Com uma certa idade, geralmente pelos 13/14 anos, nós começamos a nos compreender como indivíduos. E tentamos buscar essa individualidade como uma forma única, tentando ser diferente dos demais... e depois, tentando se encaixar em um grupo.
Sei que o medo das mães (assim como o meu medo) é se envolver com coisas que vão contra aquilo que achamos certo, que acreditamos, enfim. Mas o que diferencia isso acontecer, ou apenas uma fase de rebeldia é a segurança que se tem em casa.
Eles sempre voltam. Sabe? Se tem ali um porto seguro, se tem ali uma base sólida, eles voltam.
É uma fase. E ela precisa disso, e irá chegar. Ela vai querer se encontrar, encontrar outras pessoas como ela, e se afastará um pouco.
Eu fui muito repreendida, pelas roupas que usava, pelas pessoas que andava (que não era NADA demais), e isso foi só pior para a situação toda. Isso faz com que a gente desafie, queira mostrar que não há nada demais, queira falar 'olha, são meus amigos e eu vou continuar'. Com o tempo, e hoje como mãe, vi que a melhor coisa é DEIXAR. Deixar e reforçar todos os dias o amor que tem em casa, a base sólida que oferecemos e CONFIAR.
Beijos
www.parabeatriz.com
Fernanda Reali me chamou e aqui estou. Valeu cada segundinho lendo esse texto tão tocante. Tenho um filho de 14 anos, que abre mão dos amiguinhos pra fazer qualquer atividade comigo e com o pai. Muitas das vezes eu não valorizo isso nele, penso que ele é criança e que tem que se divertir com os amiguinhos, mas pensando bem eu e o pai somos os grandes sortudos nessa história toda, pois chegará o dia que, inevitavelmente, nós vamos querer viajar com ele e ele vai preferir as baladas, as namorados, os amigos...mas estou decidida quando esse dia chegar, eu olhe pra trás e veja o quanto nós nos aproveitamos e como somos cúmplices. Fica com meu beijo!
ResponderExcluirVim através da Fernanda, achei o texto maravilhoso. Ambas se descobriram, às vezes fazemos muitas cobranças não é? Precisamos relaxar um pouco e curtir os bons momentos, que são muitos.
ResponderExcluirFelicidades sempre para vocês.
Beijos.
Eu tenho uma filha única de 8 anos e fazemos tudo juntas, andamos de mãos dadas e eu tenho muito medo de perder isso, essa cumplicidade, me esforço para isso não aconteça e que sejamos para sempre melhores amigas. Beijo enorme.
ResponderExcluirANdrea
Que máximo, Dani!!! Bom poder redescobrir uma relação... sofremos por antecipação essa é a verdade...
ResponderExcluirAqui estou com um serzinho que fica no quarto, rsrsrrsrs... mas nada rebelde, no momento ainda tranquilo, espero que siga assim... gosto de fazer coisas só com um e com outro, a diferença de idade é pequena, mas as personalidades são muuuuito diferentes!! Grande bj!!!
Ai Dani, que post lindo!
ResponderExcluirQuero construir exatamente assim uma cumplicidade com meu filhote.
Isso realmente deve ser mágico.
Parabéns pelo texto, pela relação e pela filha lindaaaa!!!
Beijos
Oi Dani!
ResponderExcluirVim convidar pro sorteio que tá rolando no Andrea Guim Blog. Bora lá participar!!!
Beijins,
Andrea
Oi Dani, tem um prêmio pra vc lá no blog. te espero.
ResponderExcluirSinto falta desse momento "mãe de filho único" que pude ter com os dois mais velhos à vontade, mas me falta com as pequenas.
ResponderExcluirQue bom que, mesmo de uma maneira torta, vc encontrou esse momento e se reencontrou com a sua menina.
Beijos querida.