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segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O não entregar-se e a reconstrução do feminino


reconstrução do feminino, recomeço, entrega, luta feminista, cansaço, mulher maravilha cansada, clarissa pinkola estés, mulheres que correm com os lobos








Nunca fui metade.


Nunca fui de meios-termos.


Sou dessas que ou é ou não é.





Como também ninguém consegue manter-se linear, tudo isso um dia mudou. A vida que era tão certinha, caretinha, um dia deixou de ser assim. Não simplesmente deixou de ser. Eu quis deixar de ser. Quis me jogar num abismo. Fiz escolhas erradas e como não poderia deixar de ser, paguei o preço disso.





Jurava que seria mais fácil, que esse preço fosse tipo os de loja de departamento, que coubesse no meu bolso. Depois de tudo o que vi e vivi, jurei que poderia esquecer. Fiz algumas muitas sessões de terapia, troquei muito de médico, investi na medicação, desisti delas. Não queria me libertar de uma coisa e me aprisionar em outra. Isso não fazia sentido algum. Nunca fez.





Enquanto tentava esquecer e corria pra por a minha vida nos trilhos novamente, tinha noites e mais noites de pesadelos vívidos. Aqueles que nos fazem acordar com uma sensação de abandono, tristeza e amargura por ter revivido no inconsciente tudo aquilo que se faz força pra deixar no passado. 





O problema talvez fosse esse...o de querer a todo custo esquecer. Um amigo meu, me disse à época que eu deveria incorporar aqueles tristes acontecimentos à minha vida. Não daria pra apagar. Aceitando-os e os encarando de frente, eu conseguiria suplantá-los. Isso exigia de mim maturidade. E ser madura, minha gente, dói.





O tempo passou. Eu casei. Tive filhos. Esqueci.


Relembrar já não me causa dor, só uma sensação de estranhamento. Mas tudo o que aconteceu durante três anos da minha vida, me fez ser como sou hoje. Não sou pior, nem melhor. Sou diferente. Fiquei diferente. Por muito tempo isso me incomodava, mas não entendia o porquê.





Agora é diferente. Não dá mais pra continuar a ser essa criatura disfarçada. Desenvolvi um medo de envolver-me com pessoas, com o que elas propõem, limitando tudo o que posso dar e receber delas. Desenvolvi um medo de sair de casa, de me aventurar em locais que não conheço, de tentar, de me expor. Isso tem me prejudicado muito, porque a cada dia que passa, sinto que o mundo cobra mais de mim, que sei que posso fazer - mas ainda assim, insisto em me manter na concha. Naquela onde me sinto protegida.





Por que falei tantas coisas sem nada dizer? Porque creio que esse seja um primeiro passo. Porque sei que na hora em que eu decidir falar abertamente sobre algo que me machucou tanto, poderei finalmente me ver livre. Porque vou construir o que foi desconstruído.





Venho sentindo essas mudanças há algum tempo e amadurecendo aos poucos. Nesse meio-tempo li sobre a medicalização da vida e sobre como ceder à diagnósticos nos desconstroem, nos enfraquecem. A pessoa que escreveu esse texto anos atrás, não é a mesma de hoje.





Então, a leitura da noite me revela isso:





" Quais os sintomas associados aos sentimentos de um relacionamento interrompido com a força selvagem da psique? Sentir, pensar ou agir segundo qualquer um dos seguintes exemplos representa ter um relacionamento parcialmente prejudicado ou inteiramente perdido com a psique instintiva profunda. Usando-se exclusivamente a linguagem das mulheres, trata-se de sensações de extraordinária aridez, fadiga, fragilidade, depressão, confusão, de estar amordaçada, calada à força, desestimulada. Sentir-se assustada, deficiente ou fraca, sem inspiração, sem significado, envergonhada, com uma fúria crônica, instável, amarrada, sem criatividade, reprimida, transtornada.





Sentir-se impotente, insegura, hesitante, bloqueada, incapaz de realizações, entregando a própria criatividade para os outros, escolhendo parceiros, empregos ou amizades que lhe esgotam a energia, sofrendo por viver em desacordo com os próprios ciclos, superproteora de si mesma, inerte, inconstante, vacilante, incapaz de regular a própria marcha ou de fixar limites.





(...)





Recear aventurar-se ou revelar-se, temer procurar um mentor, pai, mãe, temer exibir a própria obra antes que esteja perfeita, temer iniciar uma viagem, recear gostar de alguém ou dos outros, (...), perder a energia diante de projetos criativos, encolher-se, humilhar-se, ter angústia, entorpecimento, ansiedade." 





(trecho do livro Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés)








Diante de tantos sintomas negativos, não me senti mal. Foi incrível a identificação com cada um deles. Saber que é possível recuperar-me é alentador.





E é pra isso que quero viver.


Para entregar-me.










20 comentários:

  1. Tudo muda, nós mudamos e as pessoas que nos cercam também, lendo teu texto pareceu que eu estivesse me descrevendo. A vida amadurece muito, as conquistas, as desilusões tudo... Lindo texto!

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  2. Texto lindo e intrigante.
    Acho que o importante nisso tudo é justamente vc perceber, sentir, identificar os sentimentos, se conhecer, se encarar, ser o que é.
    Beijos

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  3. Nossa parecia que estava falando de mim...
    E o mais louco é que desenterrei o livro da Clarissa e estou tentando ler, preciso me reencontrar!
    Obrigada pelo texto!
    Força para todas nós!

    Gi do Prado

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  4. que belo texto! Me encontrei!
    Obrigada.

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  5. Estou vivendo uma situação bem parecida, decidi fazer as minhas próprias escolhas, testar, não me julgar, errar, acertar.
    Acho que preciso ler esse livro.
    Ótima mensagem.
    Tenha uma ótima semana.
    beijos
    Jack
    www.meucantinhos.blogspot.com.

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  6. Entendo tanto seu texto. Você nem imagina o quanto. Quem sabe um dia lhe escreva sobre isso. Um beijo :)

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  7. Puta merda Dani, que texto foda! (opa, desculpe o linguajar!) Entendo seu escrever em entrelinhas, mas dá, e muito, para entender. Quem já passou ou passa por momentos assim, "chave", consegue se identificar. Recentemente passei um momento muito, muito difícil, com decepções, descobertas (em mim e nos outros), amadurecimento. Dói, como dói. Mas faz crescer.
    Que essas situações nos tragam sim crescimento, mas não nos tire a alegria.
    E também fiquei curiosa por ler o livro.
    bjo grande

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  8. Não gosto de rótulos, ainda mais o que tange à minha futura profissão. Confesso que tenho medo de diagnósticos e já percebi que fugirei dessa área.

    Tudo na vida é questão de escolha. Escolhemos mudar ou ficar onde estamos. Tudo depende de nós.

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  9. Dani, vc estava falando de mim ou de vc? rs
    Por mais que as pessoas tentem nos levantar, só nós mesmos pra tomarmos essa decisão. É difícil demais. Dói, mas é preciso. Não dá pra viver "pela metade". É preciso se entregar, sim. Eu ainda não consegui, mas tenho esperança. Sempre que sinto que não vou conseguir dar o próximo passo, leio a seguinte citação:

    "For what it's worth: it's never too late or, in my case, too early to be whoever you want to be. There's no time limit, stop whenever you want. You can change or stay the same, there are no rules to this thing. We can make the best or the worst of it. I hope you make the best of it. And I hope you see things that startle you. I hope you feel things you never felt before. I hope you meet people with a different point of view. I hope you live a life you're proud of. If you find that you're not, I hope you have the strength to start all over again."

    The Curious Case of Benjamin Button

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  10. Achei o texto maravilhoso ... daqueles do melhor estilo "sessão de terapia", aonde a gente lê, culpa o outros mas no fundo se identifica mas tem vergonha de assumir!

    parabéns!

    Beijos, Má
    www.monmaternite.com

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  11. Uau!!!!

    Abram alas que lá vem a nova Dani!!! Diferente, mudada, amadurecida, crescida, melhor ainda!!! Uhu!

    Amore, você sabe que, PRO QUE PRECISAR, eu estou só a um teclado de distância, né? Se precisar grita! Ou melhor, escreve!!!

    Bjos e bençãos.
    Mirys
    www.diariodos3mosqueteiros.blogspot.com

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  12. Dani;
    Só agora li seu texto sobre depressão. Eu também já fui diaginosticada como bipolar, já fiz tratamentos com remédios pesados, outros nem tanto, terapia e afins.
    É exatamente como você disse, só quem tem sabe, quem não tem dificilmente entendera.
    Eu tive grandes problemas "paupaveis" como a cardiopatia do meu filho UTI, e posso dizer com certeza que a dor do desconhecido é pior.
    Beijos

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  13. Oi Dani!

    Acho que é a primeira vez que comento aqui. Gosto muito dos seus textos :)

    Me identifiquei MUITO com tudo que vc escreveu. Estou passando por mais uma dessas "fases" e realmente, é bem complicado. Depois da maternidade as coisas ganham novas conotações e sentidos, tudo fica mais complexo. Inclusive o que a gente sente.

    Bjo

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  14. Post intenso e profundo!! De alguma maneira também me identifiquei com seu texto. Acho que amadurecer é isso mesmo, complexo mas importante.

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  15. Oi Dani!
    Só hoje consegui vir aqui agradecer seu carinho aquele outro dia lá no blog, estava tãaaao triste naquele dia.

    Aí chego aqui e leio este post sobre vc, sua vida e sabe-se lá o que houve para deixar você não entregar-se totalmente... gosto tto do jeito que vc escreve, como lida com os problemas, as coisas em sua vida! Sou sua fã! Tenho certeza de que logo vc conseguirá entregar-se como quer, como sente que é preciso e vai sim se libertar!

    Um beijo carinhoso
    com muito carinho
    Ju

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  16. Olá!
    Vivemos aprendendo, crescendo, mudando...
    Bonito seu texto.
    Beijos e tudo de bom!

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  17. Dani, me encantei com o post, me identifiquei em muita coisa, assim como você. E creio mesmo que o primeiro passo é aceitar e em seguida acreditar que é possível sim mudar o rumo, o foco, enfim a vida. Bjo!

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  18. Olá amiga, vi q está no top five, e vi ver seu texto, ta uma falta de respeito de tão bem escrito, forte e bem resolvido. Já estou seguindo te quando puder me visite ficarei muito feliz...bjos Meiry

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  19. Seu texto descreve uma triste realidade que muitas de nós se identifica, é bom para analisar e poder refletir. As vezes passamos por situações aparentemente diferentes mas tão devastadoras quanto,é preciso ler um texto como este para nos encontrar de alguma forma... Contar nossa história faz nos despir das angústias e traumas vividos. Admiro seu texto sua coragem e sua forma de se expressar.

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  20. Li toda a sua história e passei pra dar os parabéns pela coragem de mudar, de fazer novas escolhas e de aceitar os erros que cometemos no passado. Grande exemplo de superaçao.

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