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sexta-feira, 19 de abril de 2013

Tudo o que é sólido, derrete




tudo o que sólido pode derreter, segundo filho, filho mais velho, relacionamento, papo de mãe, briga de irmão
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Uma das tranquilidades que levava comigo, como mãe, era de ter a certeza de que a chegada do Otto fora muito bem assimilada pela Bia. Não houve ciúmes apesar de ter havido uma dolorosa adaptação. Aqueles ciclos naturais de progresso e desgaste - presentes em todos os relacionamentos.





É inevitável: sempre que se tem uma certeza, a vida vem e a desconstrói.





Como a Bia não é mais uma criança, nem é adolescente, muito menos adulta, anda tentando se adaptar aos seus próprios conflitos internos. Tem sido difícil vê-la ora num mau-humor, ora num isolamento voluntário sem saber ao certo o que a aflige.





Estava estranha com muita gente, não só em casa, como supunha. A professora, muito atenta e muito comprometida, notou a mudança dela do 3° ano para cá e a convidou não só para uma conversa franca, mas para um resgate.



Do lado de cá, já não suportava mais a forma como ela tratava o irmão. Era de um desprezo, de uma arrogância, de uma superioridade, de uma brutalidade...incapaz de ser deixado de lado ou de ser visto como algo normal. Ressentimento, raiva e infelicidade são sentimentos que não podem de forma alguma ser vistos como natural.





Otto por sua vez, chorava sentido e chamava sempre a irmã de egoísta. O curioso, é que ele nunca se queixou a mim, buscava respostas de forma direta, assertiva. Perguntava porque ela a tratava assim; porque ela nunca respondia quando ele dizia que a amava e porque nunca ficava feliz com as músicas que ele cantava.





E num dia qualquer, depois de presenciar várias cenas, a chamei para conversar. Como mãe, tenho o dever de não negligenciar essa demonstração clara de disputa, infantil decerto, mas que poderá moldar como esses dois se relacionarão no futuro.





Olhei nos olhos dela fingindo uma segurança que na hora não possuía e pedi que me contasse o que estava acontecendo de errado, queria saber qual o motivo que ela teria que justificasse aquele comportamento. Estava tão curiosa como receosa da resposta que ouviria.





No começo não ouvi nada, ela só chorava. Acho que ela confundiu minha suposta segurança com autoritarismo e poderia estar chorando por medo. Resolvi abraçá-la e tranquilizá-la. Insisti na pergunta de uma forma que parecesse menos assustadora.





Depois de um longo silêncio e de um eterno funga-funga, ela disse que não poderia contar, estava envergonhada demais para isso. Ó céus! Nessas horas, aposto que a perna de toda mãe bambeia. 





Para resumir esse momento de tensão mãe & filha, ela confessou sentir ciúmes do irmão. A julgar pela vergonha que sentiu, esse é um daqueles sentimentos que a intimidade e a consanguinidade tornam a revelação ainda mais difícil, mais penosa. Afinal, quem não teme o julgamento?





Seria um caso para um psicólogo? Sim, porque a partir dessa simples declaração já vislumbrei um futuro sombrio. É a mexicanização do drama!!! A deixei chorando no sofá, sob o pretexto de buscar um copo de água para ela, quando na verdade, era apenas uma saída estratégica para por as ideias em ordem. Respirei, bebi água e pensei.





Por um momento, voltei a minha adolescência e lembrei com clareza tudo o que sentia, as dúvidas que tinha e do ciúmes que naturalmente sentia dos meus irmãos mais novos. Mais uma vez: esse não é um caso para ser resolvido numa clínica.





* * * * * * * *





A conversa foi longa e franca.





Achei interessante o fato de ela se sentir constrangida em assumir um sentimento tido como inadequado. Ela sabia que algo não ia bem, só não sabia voltar atrás. Durante nossa conversa, disse que era bastante comum sentir ciúme do irmão mais novo, mas que, para ser saudável, isso teria que ter um limite. Aproveitei para contar a história dos lobos, que a deixou bem impressionada. (aqui ó)





Reforcei todo o amor e o carinho que todos temos por ela e fiz questão de frisar as diferenças e semelhanças entre os dois. Nisso ela percebeu que qualidades que ela tinha não foram listadas para o Otto e que havia defeitos dela que o irmão não tinha. Cada um é especial por aquilo que é, da forma que é. 





Ressaltei que esse momento de sua vida apesar de confuso, pode ser maravilhoso e desejei que ela não perca a confiança em si mesma e que não deixe de buscar respostas.





E se por um acaso ela esquecer, estarei ao seu lado para lembrá-la.





* * * * * * * *





Semanas se passaram e Bia melhorou de uma forma surpreendente. Tanto em casa, como na escola e fizemos questão de mostrar como ela é capaz de se superar.





Agora segue mais segura e sobretudo mais autoconfiante, por saber que tem o poder de fazer a própria história.










9 comentários:

  1. Foi lindo como você abordou a questão! Diálogo sempre é o melhor e sentir-se acolhido para dizer o que está havendo é um alívio.
    Tudo vai se ajeitar.
    Beijos!!!

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  2. tão bonito e sincero... que bom que vcs conseguiram se abrir. :)

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  3. Poxa, Dani, me identifico tanto com essa fase da vida. Esses dilemas já começaram a bater na minha porta e é tão bom te ler.
    Você sabe, eu volto aqui sempre. :-)
    Um beijo grande.

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  4. Ah, Dani, como foi bonito o teu modo de conduzir essa questão!
    Como a relação entre irmãos é importante, né? A gente quer que eles se deem bem a todo custo, que eles se amem muito, se entendam, colaborem um com outro, não sejam egoístas... Essa é uma preocupação constante por aqui também (por enquanto, com os meus enteados; mais tarde será com eles e os meus filhos).
    Espero que a Bia se sinta melhor com essa questão daqui pra frente, que ela não sofra mais por causa disso.
    Um beijo enorme pra vocês.

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  5. Ai, Dani, eu sei que essa hora vai chegar aqui em casa. Por enquanto, tudo é lindo. Caio ama o bebê que ainda tá na barriga, não demonstra ciúme algum, mas eu sei que essa hora vai chegar. Eu tenho medo de não saber lidar com a situação. Sou filha única e não sei bem como é ciúme de irmão. Bom te ler!

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  6. Que legal sua postura! Não é a toa que tem filhos lindos!!
    Beijos!!

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  7. Dani, seu texto me tocou bastante. Eu sempre tive um relacionamento muito difícil com a minha irmã, que é 3 anos mais nova, e que me tratava com esse mesmo desprezo. Foi muito difícil para mim passar por toda a vida tentando fazer ela me aceitar, me amar, mas ela nunca conseguiu se aproximar. O que mais me doia, no entanto, foi o fato de minha mãe nunca querer se posicionar (por não saber o que fazer, hoje eu sei) e me fazer sentir que a inadequada, a super sensivel, era eu.
    Que bom que você teve a sensibilidade de falar com ela, de falar com eles, e deixar que ela te contasse. Acho que se minha mãe tivesse feito o mesmo teria evitado muito sofrimento (e anos de terapia) na minha vida.
    Um beijo

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  8. Às vezes ela só precisava ser ouvida, né? Legal você ter conversado com ela. REalmente, diálogo é a melhor solução!
    Bjoo
    Naity - bemgravida.blogspot.com.br

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  9. Ao ler um texto como esse acontece em mim uma mistura de sentimentos bem intensa: por um lado, sofro desde já (e só tenho uma filha) por imaginar que meus filhos poderão passar por situações como esta, "normal" de qualquer relacionamento entre irmãos. Planejo encomendar o próximo em um ano e não penso em noites sem dormir nem quanto irei gastar, só penso nos momentos que poderei magoar a Luna por precisar dar atenção ao mais novo. E me dói demais, mesmo agora. Ma spor outro lado, devoro seus textos querendo chegar nas frases onde você conta como resolveu a situação e sei que encontrarei ali um ótimo exemplo a seguir.
    Muito obrigada por compartilhar.
    Abraços,
    Aline
    www.decaronanacegonha.blogspot.com

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