Muitas mulheres vivenciaram - inclusive eu - mas nenhuma de nós sabia que isso tinha um nome. Uma violência silenciosa, que sob o verniz dos procedimentos médicos (invasivos) se escondia. Hoje não só a nomeamos, como a encaramos de frente.
A discussão acerca da violência obstétrica atinge um público cada vez maior, ganhando espaço inclusive, na mídia hegemônica. É um avanço!
Informação gera consciência, que por sua vez gera indignação. Uma dessas mulheres que trazem no corpo e na alma as marcas da violência obstétrica, resolveu dar um basta! Resolveu levar ao conhecimento do Judiciário essa violência que nos assombra e nos maltrata há anos.
É a primeira ação judicial do gênero no país e tem implicações sérias na vida de todas as outras que passam pelo que ela passou. E por que ela é tão importante? Porque ao conjunto de decisões judiciais sobre o mesmo tema, chamamos de jurisprudência, que é fonte do Direito, ou seja, tem influência nos próximos julgados.
Com cada um agindo na sua área, a mudança na realidade obstétrica é apenas uma questão de tempo.
"Sabe aquela chance? Daquelas grandes, boas, tipo cavalo que só passa selado uma vez? Um dia me apareceu uma. Uma oportunidade maravilhosa de fazer o meu trabalho e, de bônus, ajudar a melhorar o mundo. Parece sonhos, né, gente?
Conheci uma moça que tinha sofrido violência obstétrica. Até aí, igualzinha a 1/4 da população feminina deste país. Só tinha uma diferença: ela sabia que aquilo era intolerável. Tinha que mudar. Nenhuma outra mulher merecia passar por este tipo de experiência, ela não podia viver aquilo de novo, em seus próximos partos. Procurou a Maternidade, o Plano de Saúde e não teve resposta. Denunciou à Assembleia, ao Ministério da Saúde, mas nada de concreto aconteceu. Viu seu caso parar nos jornais, ao mesmo tempo em que outras mulheres eram violentadas de maneira parecida, nos mesmos lugares.
A moça precisava de uma advogada. Eu precisava de uma cliente como ela. Foi o encontro perfeito.
O nome da moça é Ana Paula Garcia e ela é autora da primeira ação contra a violência obstétrica deste país. Depois dela, outras vieram ao meu escritório, contaram seus casos, me fizeram chorar junto, me deram o orgulho de representá-las. Sem que eu planejasse, me tornei uma mãe que defende o direito de outras mães. Isto me fez voltar a amar o meu trabalho.
Quando meu filho nasceu, trabalhar se tornou muito penoso.
Era sofrido sentar no computador, quando poderia estar olhando-o dormir. Os
peitos pingando durante as audiências doíam mais na minha cabeça do que no
corpo. Cada minuto no escritório era um momento nosso que era roubado.
Quando comecei a me envolver com defesa do Direito das
Mulheres, fiz as pazes com o meu trabalho. Dedico ao João cada minutinho
passado longe dele. É um tempo que vale a pena, pois pode ser que eu esteja
ajudando seus futuros amigos a nascerem de forma respeitosa. As futuras
parceiras. A mulher da vida dele. Seus filhos e os filhos dos seus filhos. E eu
acredito, do fundo do coração, que nascer com respeito é essencial para o ser
humano.
Orgulho estar neste grupo, de mulheres que protegem as
mulheres."
*** Gabi Sallit, advogada e socióloga, hippie demais para o Direito e muito engomadinha para as Ciências Sociais, encontrou na maternagem algo no que se encaixa perfeitamente. É autora do blog Dadadá.
Saiba como denunciar a violência obstétrica AQUI.

Entendo perfeitamente a questão do trabalho pós-maternidade. Também estou em busca do encontro ideal, que junte a minha profissão com a maternidade, que é o que eu respiro no momento.
ResponderExcluirMelhor ainda quando a gente pode fazer algo não só pela gente, mas pelos outros, né?
Realmente acredito no direito da mulher e, em especial, na causa do respeito ao nascimento. Obrigada por fazer a diferença nessa área!
Beijos!
Como é bom se tivéssemos seres humanos realmente empenhados em ajudar.. Que se emocionam e vibram a cada história e vitória..
ResponderExcluirParabéns pela inciativa, pelo esforço e pela luta..
E falando em luta, também abdiquei do meu trabalho extra casa pra ficar com minha pequena..
Hoje invento trabalho pra ficar com minha pequena... (além dos de casa que são muitos) vou escrevendo, pintando, fazendo arte..
Beijos querida Gabi. Vou la no Dadadá conhecer..
Parabéns a Balzaca Materna por tão boas matérias..Lindo blog!
Beijos..
Tê Nolasco
Bom demais. Parabéns Gabi Sallit!
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