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quarta-feira, 19 de junho de 2013

Como ser mãe/pai em uma época em que impera a lei do menor esforço? - assuntos que rendem







responsabilidade dos pais, consumismo infantil, maternidade real, criação com afeto
Culpa, não!





Não tenho a obrigação de ficar calada. Ninguém tem a obrigação de concordar. Nasce a polêmica.





Quem me acompanha, mas quem me acompanha mesmo a ponto de me conhecer minimamente sabe que não gosto de estar envolvida em assuntos polêmicos, que geralmente entram em combustão com argumentos muito rasos para sustentar uma ideia, uma opinião. Não tenho tempo nem estômago para administrar isso.





Muita gente deve ter uma ideia equivocada sobre mim pelo fato de eu escrever sobre maternidade e postar muitas coisas relacionadas a isso na fan page do blog. Devem me achar uma super mãe, aquela que está acima do bem e do mal, que certamente não reclama de nada e que vive eternamente feliz.





Não gosto desse rótulo e muito menos o reivindiquei pra mim. 





Quem me acompanha, mas quem me acompanha mesmo a ponto de me conhecer minimamente sabe que sou uma mãe em transformação, ou melhor, uma pessoa em transformação. Escrevo mais sobre meus erros que sobre meus acertos. Escrevo ainda, sobre as coisas que descubro, que me fazem entrar numa catarse sofrida e me modificam. Como mãe e como ser humano.





Fui mãe pela primeira vez em 2003. Não tínhamos redes sociais e as informações estavam todas compiladinhas em portais www. Ainda assim, procurei me cercar de uma quantidade gigantesca de informação. Fiz minhas escolhas baseadas não só nessas, mas em vivências familiares.



Como mãe, fui eu quem decidiu o parto. Desconhecia o termo violência obstétrica, achei injustas as intervenções no primeiro parto (natural), o descaso dos profissionais de saúde que me cercavam, mas nunca me ocorreu que nós - a sociedade - teríamos argumentos e força para lutar contra um modelo obstétrico em vigor há pelo menos um século. Chorei ao saber da episiotomia, mas ingenuamente, achei que fizesse parte do pacote. E contra aquilo, não me voltei.



Como mãe, fui eu quem decidiu não perseverar na amamentação dos dois filhos! Quem me vê defendendo ferrenhamente a amamentação prolongada acha que amamento meus filhos até hoje! A mais velha mamou até os quatro meses, quando acabou minha licença maternidade. Ouvindo conselhos do pediatra e de posse de informações equivocadas em revistas, julguei ter feito a minha parte. Mamou o suficiente - dizia. O segundo, querendo amamentar até os dois anos ou mais, com leite suficiente pra isso, fui mal orientada por um profissional da saúde. Meu filho tinha refluxo e eu, hiper lactação  Ele não conseguia mamar e eu, chorava. O pediatra deu o diagnóstico: manha. E eu sucumbi ao fracasso. Tendo refluxo, nenhum outro leite seria bom pra ele como o meu.



Até bem pouco tempo - pouquíssimo tempo, aliás - tinha o maior preconceito contra a amamentação prolongada. Não sabia que era possível amamentar durante a gestação, muito menos que mulheres eram capazes de nutrir dois filhos em idades diversas. Meu desconhecimento, me levou a falar muita besteira.



Como mãe, fui eu quem optou pela combo chupeta - mamadeira reproduzindo um padrão de vivência familiar. Eu usei. Todos os meus irmãos usaram. Ninguém morreu, veja que beleza!



Como mãe, fui eu quem optou por comidas prontas que facilitariam a vida doméstica. Diminuiriam meu cansaço e sobraria mais tempo pra mim e para minha filha. Com o segundo, a coisa foi diferente. Só não sabia que seria possível revolucionar geral, com a comida servida à todos nessa casa. Mudança de hábitos, de consumo consciente.



Como mãe, usei de recursos que aprendi ainda na infância: como gritar e dar palmadas para dar limites e mostrar a minha autoridade de mãe, por medo de ser permissiva e omissa. Só não sabia que com isso, estava apenas ensinando o descontrole e a falta de assertividade em resolver as querelas domésticas . Desconhecia o poder da disciplina positiva.



Essas foram as minhas escolhas. Não é porque as fiz que elas estão certas.





É muito cômodo escolher o caminho fácil quando não temos informação, ou quando elas nos chegam de forma parcial. E naquela época, eu queria me cercar de facilidades.






O que estava por trás de todas essas minhas escolhas? - aprendi a me fazer essa pergunta.



Existe mesmo livre escolha?



O mercado, através de suas peças publicitárias, nos bombardeia com mensagens que nos mostram que não somos capazes, que não conseguiremos dar conta. Que precisamos de um auxílio, de um produto que facilite nossas vidas. Pode ser de bisturi a macarrão instantâneo.



Encarar o meu papel de forma consciente exige um esforço contínuo. Procuro me cercar de informação não pasteurizada, que não queria me agradar, mas que me confronte com meus próprios medos, com minhas fraquezas.



Confirmar os vínculos com meus filhos, exige de mim compromisso. Mudar, quebrar paradigmas pode significar sofrimento, MAS também pode ser um antídoto, um alento. Finalmente, sair da caverna, é penoso, mas é libertador.





* * * * *



Hoje, num desabafo, contei algo que vem acontecendo na casa da minha vizinha. Não nos conhecemos. Nem mesmo sei o seu nome. Coisas da vida moderna.



Sua bebê nasceu no começo do ano e só sei que é uma menina, ao ver no varal roupinhas cor de rosa. Desde então, ouço seus choros e sua mãe falando em tatibitati. Bate aquela nostalgia! Como é bom bebê novinho em casa!



Um dia publiquei na fan page que quando a bebê chorava prolongadamente, eu colocava a mão na parede e dizia mentalmente "calma, amiga. vai passar. é só uma fase." De lá pra cá, tenho ouvido muitos gritos. Descontrolados. Altos.



Conversando com meu marido, disse que estava com pena dela. Relembramos juntos vários momentos difíceis e recordamos do tempo que achávamos que isso nunca teria um fim. Até então, não sabia que os gritos eram direcionados a bebê. Imaginei que ela gritasse com as paredes, com o marido, com a babá.



Pontualmente, a bebê acorda às 00:30. Suponho que seja para mamar. Então que ontem, não só ouvi os gritos, como pude discernir o que exatamente aquela mãe estava falando. Mandou a bebê que não deve ter  seis meses calar a boca várias vezes. Mandou parar de manha. Uma adulta mandando uma bebê parar de manha.



E foi isso que me deixou triste, que me fez perder o sono. Muita gente mostrou preocupação com a mãe, que deve sim estar passando por um momento difícil, que deve inclusive, estar com depressão pós-parto. Que seja. Afinal, sabemos que amor não se impõe nem se decreta. Se constrói. Mas na hora, naquele momento, só consegui me preocupar com a criança. Se os gritos forem acompanhados de outras formas de violência? Liguei as pecinhas e deduzi (veja bem) que há tempos essa bebezinha recebe ordens para se calar, para lidar sozinha com sua natural imaturidade. A mãe é adulta e dispõe de vários recursos para procurar ajuda, mas quais recursos a bebê possui?



Na minha fofoca matinal, escrevi algo sobre não estarmos preparados emocionalmente para ter filhos:






As pessoas querem um filho, mas NÃO querem passar pelo processo. Querem um filho, mas não querem um parto. Optam pela cesárea. Querem um filho, mas não querem amamentar. Optam pelo leite artificial. Querem um filho, mas não querem cuidar. Contratam uma babá. (que durma no quarto, inclusive) Querem um filho, mas não querem trabalho na hora de alimentá-lo. Optam pela comida industrializada. E ainda reclamam.



De fato, não gosto desse coitadismo materno. Somos da geração do menor esforço, do prazer instantâneo (como o macarrão), do prazer individual. Não queremos problemas, queremos resultados. A coletividade nos assusta. O outro não interessa. Agimos como eternos garotos mimados, num ciclo que parece inquebrantável da infantilização da vida adulta.



"Sentir-se ofendido é uma forma de negação que nossa cultura impôs com grande êxito", como bem salienta Sergio Sinay.



A maternidade não pode ser vista como satisfação imediata de prazeres só porque a fantasiamos. A maternidade/paternidade não são um simples exercício de manipulação de um painel de controle.



Queremos as facilidades.



Dizem, entre sorrisos e músicas alegres nos comerciais da tv, que não precisamos de regras para criarmos nossos filhos. Como se isso pudesse ser de alguma forma, libertador.



De fato, não precisamos de regras.



Precisamos de compromisso, responsabilidade, cumplicidade e ética.








*     texto publicado originalmente no Infância Livre de Consumismo, que conta até agora, com 4,8 mil compartilhamentos. Publicado parcialmente, também, no Diário Catarinense.

**  lembrando que esse é apenas um recorte da realidade, ou seja, um caso específico que gerou uma reflexão geral sobre a forma como exercemos nossa parentalidade e não um tratado indefectível sobre o tema.

*** achei por bem acrescentar o termo "pai" ao título por conta de uma observação muito feliz de uma leitora do MILC. Não o tinha feito, por ter iniciado o texto falando da minha própria maternagem, não por achar que os pais não devem estar isentos dessas reflexões.








12 comentários:

  1. O Post em si já é polêmico.

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  2. Excelente texto, nossa, como esse discurso de modernidade e praticidade, que obviamente esconde um viés consumista e comodista, pega as mulheres. A cesariana entra no mesmo bote, pra quê ficar "sofrendo" horas, sem saber a data do nascimento do bebê, se posso planejar tudo meticulosamente, contratar serviços e aparecer linda na foto?
    Enfim, acho a reflexão que vc trouxe simplesmente incrível e urgente (como sempre)!
    Adoro o blog.
    bjs

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  3. Dani, amei seu texto. Perfeito! A maternidade traz um combo de responsabilidades, afazeres e questionamentos que não podem ser relegados - porque neles residem aquilo que nosso filhos levarão para o resto da vida.
    Não é fácil, mas, ao meu ver, não tem como fugir. Maternidade é entrega.
    Sobre sua vizinha... Juro: senti um aperto no coração quando li... Espero que ela reavalie seu comportamento, busque a calma, entenda que o bebê precisa dela e se coloque no lugar dele... Uma pena. Por isso que hoje defendo fortemente grupos e rede de apoio para mas mães...
    Bjs!!

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  4. Dani, arrepiei com seu texto!!! Sou muito fã do seu blog.
    Adorei o trecho em que vc descreve que as pessoas querem ter filho mas não querem passar pelo processo... não querem esperar o parto, não querem amamentar, querem babá o tempo todo e etc. E se a gente resolve fazer diferente, nós é que somos as loucas, porque gostamos de "complicar"... Enfim.
    Mas fiquei curiosa para saber se a situação da bebê da sua vizinha se acalmou...
    bjo

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  5. Dani,

    Por isso e por tudo o mais, dentre taaaanta gente interessante da blogsfera, escolhi algumas que me inspiram, em alguma área da vida... e VOCÊ ESTÁ ENTRE ELAS!

    Obrigada por escrever o seu blog e me inspirar (e a tantas outras pessoas), regularmente!

    Bjos e bençãos.
    Mirys
    http://diariodos3mosqueteiros.blogspot.com.br/2013/06/bc-quem-te-inspira-na-blogsfera-diario.html

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  6. Dani sou ainda mais sua fã depois de post. SEm sombra de dúvida que esse é o melhor post de todos os tempos. Vc fala de coisas tão importantes e polêmicas com uma sutileza. Incrível! bjo grande e nem preciso dizer o quanto apoio tudo o que disse.

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  7. Perfeito! É preciso coragem para falar sobre esses temas nos dias de hoje.
    Eu e meu marido criamos nossa filha na lei do maior esforço. Doação total desde o parto natural domiciliar à amamentação prolongada. Me planejei, inclusive, para sair do meu emprego e me dedicar só a ela (isso foi outro parto). E como é difícil enfrentar, principalmente, as críticas mais sutis! Mas o pior é encontrar forças para dar sentido a tudo isso, sem ter apoio, exceto de grupos em redes sociais. A exaustão faz com que eu me questione se estou optando pelo melhor para minha filha. Encontro respostas através da minha intuição. É o que me faz continuar agindo assim.
    Parabéns pelo post!
    Bjo!

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  8. Tenho 41 anos e fui mãe aos 36. Minha geração é de horkaholics, é dessa aí do menor esforço. Atualmente a coisa está um pouco pior. Com poucas crianças nascendo, parece que a gente não convive com nenhuma e quer ter filh@ sem a menor noção do trabalho que isso dá. Uma amiga ia levar a filha de 1 ano meio p/ a psicóloga pq estava apegada demais a ela (mãe). Detalhe: ela trabalhava 8 horas por dia e saiu para um emprego em regime de escala, trabalha 1 e folga 4, além de haver trocado a babá, que gosta mais de formiga que de criança. Na semana passada soube que vai colocar a filha na escola. Não consegui conversar pessoalmente sobre isso mas vou perguntar: "Vc nao mudou de emprego p ter mais tempo c sua filha? E agora, qual o pro?" O "pro" é a gente querer ter tudo e na hora da escolha parece que o filho é algo que podemos passar adiante. Só penso que ter filhos, para essas pessoas, não traz satisfação. Porque até mesmo um trabalho profissional, exaustivo que seja, se gostamos dele, dá um enorme prazer! Ah sim, e quem falar q amor materno existe eu jogo pedra. Aos 16 li O mito do amor materno e desde então vejo como o livro estava certo! Mandou bem, bonitona!

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  9. Gosto muito desse seu texto. Gostei quando o li no "Infância livre de consumismo" e gosto de relê-lo agora. Acho que essa infantilização da qual você fala, inclusive do ser mãe ou pai transformou maternidade / paternidade em artigos de consumo como outros tantos. Algo que se quer ter, mas não se quer viver, de preferência com o mínimo de transtorno possível. É estranho porque muitas pessoas parece que se encantam com os bônus, mas não querem ônus nenhum. E é isso que é vendido pela publicidade, pelo mercado, pelo cinema... essa idéia de que é assim que se concebe e se cria um filho, com essa leveza da falta de compromisso. Tempos estranhos esses, não?

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  10. Post maravilhoso e verdadeiro!!!!

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  11. Dani,

    texto incrível, como sempre. Engraçado é que não te sigo no FB, mas vi esse seu post do desabafo lá (aquela fofoca de FB: uma amiga comentou, aparece na Timeline) e me espantei com alguns comentários estúpidos.

    Engraçado que, como você mesma fala nesse post, quem te conhece minimamente sabe mesmo que você é uma pessoa em transformação, ressignificando erros e equívocos pra fazer novas e/ou melhores escolhas.

    A lei do menor esforço tem aparecido em muitas facetas da vida, desde a maternagem até a leitura. E ser for leitura sobre maternagem então...

    Daí que nesse dia, com aqueles comentários bizarros, só ficou realçada minha certeza de que muitas vezes, essas discussões são rasas e vazias de conteúdo, como vc mesma falou.

    Sou da turma que não tem estômago e nem paciência pra isso.

    Pra quem quer mesmo ter uma discussão respeitosa sobre o assunto, tamos aí. Se não, vamos falar de amenidades, né?

    beijocas, Dani!

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  12. Uma delícia de texto! Gostoso de ler e reler. Para dar voltas na mente e fazer-nos mudar de conceitos jurássicos ou outros que necessitam um ajuste fino. Uma vez soube de uma amiga que pagava para a babá dormir no quarto da filha para não "atrapalhar seu sono"... Detalhe, ainda que sua vida fosse tranquila e ela tivesse a facilidade de "não tabalhar em um escritório com hora marcada", acho que se perdem etapas...

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