Lembro-me tão bem quando, nos idos dos anos 90, meu pai chegou todo felizinho dizendo que chegara a nossa cidade uma nova forma de ver TV. Pagaríamos mensalmente pra ter uma programação de qualidade e finalmente estaríamos livres das indesejadas propagandas. Meus amigos, se existe uma pessoa que desde sempre combate a ilusão criada por publicitários, esse alguém é a minha mãe. Sorte a minha.
Ah, sim, antigamente a TV a cabo não veiculava comerciais. Não sei ao certo quando isso mudou, mas já repararam como só os canais infantis são bombardeados com publicidade? Antes queriam vender brinquedos, roupas, sapatos, mas hoje querem também vender produtos de limpeza, absorventes etc. Por que será?
A publicidade fala diretamente às crianças, que são responsáveis pela promoção do consumo dentro de casa. Isso passou a me assustar quando, passeando pelos corredores do supermercado, meu filho de 4 anos apontava para os produtos e dizia não só o nome da marca, mas cantava até o jingle!
Todos nós que somos impactados pelas mídias de massa, somos estimulados desde muito novos a consumir de forma inconsequente, de forma desenfreada. Sem questionar, sem nos importarmos. Porque muitas vezes eles não vendem apenas um produto, eles te prometem mais que a alegria da posse, mas a sua inscrição e sua existência na sociedade. Quanto mais você consumir, mais será aceito como consumidor. Isso te diferencia dos demais.
Qual a importância das marcas na construção de quem somos? Quantos logotipos, slogans e informações de diferentes marcas absorvemos antes mesmo de começarmos a falar?
| Marcas de nascença - via |
Ataque ao vulnerável
De posse da informação de que a publicidade é, sim, dirigida ao público infantil e que as crianças influenciam 80% das compras domésticas - de acordo com a pesquisa IBGE - Interscience, vem uma dúvida: estariam elas preparadas para a interpretação crítica dos apelos que constantemente lhes são dirigidos?
Aliás, criança tem capacidade crítica para alguma coisa? Ou depende da intervenção dos pais para orientá-la? Mas quando os pais trabalham fora em tempo integral, por necessidade, quem fica com as crianças? Quando os pais não podem ou não querem ou não gostam de conversar com seus filhos, a publicidade se mostra disponível em todos os momentos do dia, o tempo inteiro!
Acaba que os pais, culpados, sentem que devem compensar sua ausência com objetos materiais. Como não são bobos nem nada, os publicitários usam essa culpa para induzi-los ao consumo. Sem querer negar nada aos filhos, acabam endividados. Isso gera estresse familiar.
É justo esse bombardeio com quem não sabe se defender?
Escolha da escola x Consumismo x Erotização precoce
Além do estímulo ao consumo na televisão, não podemos descartar a influência dos pares e a maneira com a qual a escola lida com a publicidade em seu espaço.
Tive várias péssimas experiências nesses quase 10 anos como mãe. Já presenciei uma garotinha dizer pra outra que não aceitasse minha filha, porque além de ela não conhecer os brinquedos, ainda não os possuía. Tinham 2,5 anos e uma pressa latente em julgar pelo ter.
Há uns dois anos, minha filha, influenciada pelas amigas, não queria usar o uniforme que havia lhe comprado. Queria um mais justo, que se amoldasse ao corpo. Queria se parecer com a amiguinha que ia parecendo um arremedo: de sombra, de delineador, de batom e laquê pra segurar um coque no alto da cabeça. Também queria unhas pintadas e brincos grandes que balançassem ao menor movimento. A mochila não podia ser qualquer uma, tampouco os cadernos. Essas mesmas meninas não queriam brincar ou correr pra não correrem o risco de se “desmontar”.
Pequenas Barbies num universo de aprendizagem. Tinham 7 anos.
É inegável a influência dos pares. Para serem aceitas, as crianças sentem necessidade de consumir. Isso acirra uma competição que não é nada saudável, ainda mais num ambiente escolar. Por mais que eu estivesse ao lado, explicando, dando suporte emocional, o meio em que ela vivia a fazia parecer um alienígena.
Com a mudança da escola, notamos um melhora de 100%. O que me leva a afirmar: devemos escolher a escola que melhor se adeque a nossa forma de ver o mundo e de travar relações com o meio e com as pessoas. O grupo social no qual a criança está inserida influencia muito.
Embasada na ecopedagogia, essa escola valoriza o afeto, a relação de companheirismo, o feito a mão. Neste ambiente, meus filhos se sentiram acolhidos e menos ansiosos por consumir.
Lá se usa papel reciclado; há promoção de troca de uniformes duas vezes por ano, onde ficam dispostos em araras e cada pai vai lá e escolhe aquele que lhe aprouver; nas festas de aniversário, não é incentivada a troca de presentes, mas um convite à turma para que juntos construam um que possa ser oferecido ao amigo; nas festas da escola, cada família fica responsável por levar seus copos, pois a produção de lixo com descartáveis não é aceita; há também oficinas de tie-dye para dar cara nova as desgastadas blusas do uniforme; as crianças escolhem na horta o que querem levar para casa…
Nesse ambiente que convida o aluno a ser criança, a poupar, a reutilizar, a se sujar, a subir em árvores, a colher frutas do pé, a Bia nunca mais lembrou da maquiagem e das roupas coladas. E aprendeu que ninguém deve depender de objetos para ser quem é.
Cheguei até a acreditar que a única responsável por esse combate ao consumismo fosse eu, na condição de mãe. Ora, quem dá a cartada final, quem tem decisão de compra, quem tem o dinheiro sou eu, não meus filhos.
Mas onde fica a ética? Onde fica a responsabilidade do Estado? Pois a publicidade danosa dirigida ao público infantil gera impactos na vida das famílias e da sociedade.
Na época em que fumar era coisa de gente descolada, oferecer cigarros de chocolate para as crianças brincarem de imitar os adultos era considerado normal. Isso um dia JÁ foi permitido, vejam vocês.
Se olharmos atentamente, quantos produtos nos são oferecidos com o mesmo propósito? Com o mesmo embasamento cientificamente falso visando nosso conforto e a nossa praticidade? Quem aqui acredita que um suco de caixinha conserve as mesmas vitaminas de um suco natural? E as papinhas industrializadas para bebês com o selo da Associação Brasileira de Pediatria? E as bolachas recheadas enriquecidas com sais minerais e ácido fólico?
Se a gente cai nessas armadilhas, o que dizer de um criança em formação?
Como lidar?
Já comentei no meu blog que não proíbo, oriento. Dá mais trabalho, é verdade, mas acredito piamente que uma criança só se desenvolve no contato com a realidade.
Tenho a sorte de ficar um bom tempo em casa e com eles, de modo que estamos sempre conversando sobre tudo o que assistimos juntos na televisão (e cada vez menos expostos à ela). Nada é verdade absoluta, temos o dever de questionar tudo o que nos é oferecido de bandeja. Minha missão é tirá-los do reino da fantasia, do mundo mágico das possibilidades de consumo.
Otto pede tudo o que vê nos comerciais. Ele tem todo o direito de pedir, mas eu me reservo o direito de não comprar.
Sandálias de salto – Barbies – castelos cor de rosa – maquiagens – roupas erotizantes – infinitos acessórios – armas a laser – bonecos que incitam à violência – quem financia essa merda toda? Decidi que não seria eu.
Não tenho o costume de frequentar lojas de brinquedos. Não tenho o costume de comprar brinquedos. Não temos o costume de passear em shoppings, preferimos aproveitar o que essa cidade tem de melhor: as praias e os parques. Lá incentivo o brincar, a aproximação, o diálogo.
Ando na contramão, pois instituímos que as datas comemorativas ou comerciais – como queiram – é o dia em que eles ganham um brinquedo à sua escolha.
Isso os ensina a esperar e a ponderar suas vontades. Aos poucos fui ensinando o valor das coisas, o valor do dinheiro. Quando vamos escolher um brinquedo em uma loja, eles já sabem que há um limite. Quando digo para o Otto o preço, ele mesmo exclama: é caro! E eu emendo: precisamos disto? A resposta é sempre “não”.
Negar é um ótimo exercício para nós que vislumbramos outras possibilidades de oferecer bem estar, e para eles, que saem da apatia em que a publicidade os coloca.
A lição
O consumismo nos deixa num estado de descontentamento permanente, nos deixa totalmente padronizados, sem identidade.
Nessa vida imaginária, em que comprando somos mais, não há amadurecimento.
Que o Brasil saia de seu estado letárgico e cumpra um papel que também é seu, estabelecendo regras claras que evitem a entrada da publicidade em espaços que são exclusivos das crianças.
Por todo o exposto apoio e acredito numa Infância Livre de Consumismo.
* texto publicado originalmente no Infância Livre de Consumismo.
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ResponderExcluirinteresante como el tuyo. Personalmente opino que, si todos los webmasters y blogueros escribieran un buen contenido
como éste, internet sería mucho más útil.
Perfectamente escrito!
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