Há poucos dias vi uma página no facebook que foi criada com o objetivo de ofertar uma criança à adoção longe da supervisão legal. A mãe da criança alegava que não estava suportando o peso da responsabilidade, que seus pais não a apoiavam e ela não tinha pra onde ir. Uma história como a de muitas mulheres que levam a gestação e o nascimento de um bebê como se sozinhas tivessem reproduzido
Antes de denunciar a página no site da Polícia Federal e antes mesmo das denúncias serem apuradas e chegarem a grande mídia - descobriram inclusive, outras páginas com o mesmo teor -, me dei ao trabalho de ler alguns comentários. A revolta expressa ali por muitas mulheres não me causou espanto visto a gravidade do ato, que é tipificado tanto no Código Penal, como no Estatuto da Criança e do Adolescente. Incorrendo na pena tanto quem vende como quem compra.
Bom, o teor dos comentários era basicamente o mesmo. Algo que variava "não soube fazer, sua p..., agora cria". Ou "pular fora é fácil, pensasse nisso antes". Ou ainda "pra abrir as pernas tu gostou, né sua v...". E foi isso que (também) me chamou atenção nesse caso: em nenhum momento nenhuma daquelas mulheres que dispuseram do seu tempo para prestar sua indignação questionou a responsabilidade do pai. Como se a questão se restringisse única e exclusivamente à figura feminina. Isso reflete de uma certa maneira como a sociedade encara a responsabilidade sobre a reprodução.
Não podemos simplesmente punir as mulheres pelo seu desfrute sem levar em consideração a responsabilidade masculina. A menos que elas sejam uma minhoca, que se fecunda, gesta e pari sozinha.
Por que a mulher é totalmente responsabilizada pelo controle de natalidade? Como isso repercute em nossa sociedade?
Não se pode discutir esse assunto sem levar em consideração o papel ideológico do gênero que cria uma espécie de diferenciação como se o campo da reprodução e todas a sua responsabilidade fosse essencialmente feminino, enquanto a sexualidade coubesse aos homens que são reféns (que dó!) de seus instintos sexuais. O que gera a dualidade entre natureza materna x natureza sexual que seria intrínseca a cada um de nós.
O método contraceptivo masculino é o preservativo, cujo uso precisa ser incentivado em larga escala pois eles se abstêm de usar. É desagradável, claro. Estamos em 2013 e a pílula anticoncepcional masculina ainda está em fase de teste. Percebam o grande interesse. Se os homens de um modo geral estivessem de fato preocupados com a sua responsabilidade, tanto na reprodução quanto na criação da prole, poderiam optar pela esterilização - a vasectomia.
No Brasil, segundo o SUS, há critério para um homem realizar a cirurgia. Só pode ser realizada em homens com mais de 25 anos e que tenham no mínimo dois filhos. O número de procedimentos passou de 7,7 mil em 2001, para 34 mil em 2011. Importante ressaltar que faltam políticas públicas voltadas para o público masculino, porque é do senso comum que o controle da natalidade seja de responsabilidade da mulher.
O único programa de saúde do homem que há hoje em dia visa discutir doenças como o câncer de próstata e levá-los para os exames periódicos, sem discussão sobre a interface papel social/saúde masculina. Com relação às mulheres, há o PAISM - Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher, criado na década de 80 e que tem ampliado muito o acesso das mulheres aos programas de saúde, casos de violência e planejamento familiar. Ou seja, programa de saúde do homem = impotência = virilidade e nada de planejamento familiar. Significa. (grata à Cientista pelo adendo).
Será que é por isso que, segundo o censo do IBGE realizado em 2009, haja aproximadamente 5 milhões de alunos matriculados na rede pública e privada que não tem o pai declarado em suas certidões de nascimento? Situação essa que fez com que o CNJ - Conselho Nacional de Justiça - lançasse o projeto Pai Presente que estabelece medidas a serem adotadas pelos juízes e tribunais brasileiros para reduzir o número de pessoas sem paternidade reconhecida no país, cujo objetivo é identificar os pais que não reconhecem seus filhos e garantir que assumam as suas responsabilidades, contribuindo para o bom desenvolvimento psicológico e social dos filhos.
Não sei se vcs sabem, mas meu marido optou pela esterilização para tomar parte no planejamento familiar. Segundo ele, eu já tinha feito muito e não seria justo que eu me submetesse a uma laqueadura - procedimento bem mais invasivo. Muito menos queria me condenar a pílula até que entrasse na menopausa. A vasectomia dele levou meia hora, teve aplicação de anestesia local e foi tão tranquila que ele foi e voltou sozinho e ainda por cima dirigindo.
Esse procedimento ainda é associado a (im)potência sexual ou a diminuição do prazer, por incrível que possa parecer. Inclusive, meu marido passa por muitos desses questionamentos por parte dos amigos, dos colegas de trabalho. Estes dizem que jamais se submeteriam a vasectomia, porque se sentiriam invadidos na sua masculinidade. (!)
Mas por que eles se submeteriam, né mesmo? Há quem faça o trabalho por eles.
Em contrapartida, é no corpo feminino que recaem todos os efeitos colaterais das pílulas, as gravidezes indesejadas e o peso do julgamento de uma sociedade estritamente machista.
Claro que o panorama não é de todo ruim. Há uma geração de homens que buscam viver a paternidade ativamente e é por isso que esta deve ser mais inclusiva.
As pessoas têm que parar com essa mania de comprar a ideia do homem imbecilizado - tomando emprestado esse termo do marido, que não se sente representado pelo ideal masculino pintado pela publicidade. Incapaz de gerir uma casa, incapaz de cuidar de alguém ou de alguma coisa, incapaz de respeitar uma mulher, sempre se rendendo aos seus instintos sexuais.
Sendo urgente também a desnaturalização dessa incapacidade por nós. Porque muitas mulheres também compram essa ideia e criam seus filhos sob estes moldes, perpetuando o ciclo.
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| Não os subestime. Claro que eles são capazes. via |
A ideia romanceada e e finamente construída de que a relação entre mãe e filho é insubstituível acaba também por afastar o pai, pois impõe um limite ao seu envolvimento ativo. O homem não deve se sentir de fora de um processo do qual tem profunda importância e relevância.
Temos que abrir espaço para que o homem exercite a sua paternagem, tome um lugar que lhe pertence para que possa participar ativa e intensamente desde o apoio no parto e na amamentação até os cuidados com o bebê.
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Embora defenda essa participação, acho desnecessário render homenagem quando um pai solteiro assume a responsabilidade da criação de um filho que ele mesmo gerou. Com o apoio da mesma família que geralmente vira as costas para as mulheres que embucharam indevidamente. Afinal, alguém já viu uma manchete dessas: "Mulher solteira cria o filho sozinha, sem ajuda de ninguém"? Eu não.
Espero que pais como esse da reportagem passem a ser vistos com normalidade, para que possamos render homenagens a pais como esse que num momento de desespero resolve amamentar a própria filha por entender que o ato de amamentar vai além da produção de leite. É uma linguagem de amor, carinho e atenção.
Que essa paternidade sim, reverbere.


É isso mesmo. Nada mais a dizer.
ResponderExcluirDani, Dani, Dani... posso te admirar um pouquinho mais???
ResponderExcluirVou ter que escrever um post sobre o assunto! E acho que vou fazer isso mesmo! "Reverberar" essa paternidade participativa e responsável, como você pediu.
Bjos e bençãos.
Mirys
www.diariodos3mosqueteiros.blogspot.com
Fico tão feliz de você tirar as palavras da minha boca! Disse tudo que eu sempre quis dizer. Ainda acrescento que nisso o pai da Sophia me surpreendeu. Mesmo que a mãe o tenha empurrado para assumir a paternidade (comprovada posteriormente por um exame de DNA) ele tem sido um pai de se tirar o chapéu. É pai solteiro, afinal o casamento com a mãe de seu segundo filho durou apenas 10 meses... E tem desempenhado muito bem o seu papel pois Sophia gasta muito dele. Aprendeu com o tempo, assim como aprendemos a ser mães, que ser pai é estar presente e participar na vida dos filhos de forma ativa. bjos e parabéns mais uma vez por um post que NOS representa!
ResponderExcluirAi! Sou tão fã dos seus textos... (suspiros). Eu também preciso me orgulhar do pai que tenho em casa. Começo minha pós hoje e chegarei tarde em casa duas vezes por semana e foi uma decisão absolutamente tranquila pra mim por saber que Luna seria bem cuidada - banho, comida, carinho... Na verdade, quando descobrimos que eu estava grávida, ele assumiu a paternidade antes mesmo da minha maternidade ser assumida dentro da minha cabeça (surtada, no momento).
ResponderExcluirSempre digo que, uma pessoa que escreve tão bem como você é porque tem uma visão de mundo incrível!
Beijos
Aline
www.decaronanacegonha.blogspot.com
Vim conhecer seu blog, adorei seu cantinho.
ResponderExcluirTambém tenho um blog materno, estou te seguindo já.
Me segue também?
Te espero lá.
beijos
http://viniciusmamaequedisse.blogspot.com.br/2013/08/aromatizadores-pepa-maria.html
Pois é Dani, eu como fui criada com pai presente (apesar da separacao) e um avô participativo sei muito bem que os homens sao sim capazes.
ResponderExcluirNao entendia porque a batida frase do "mae é insubstituível" me causava desconforto e agora tu me fez entender, é porque ela exclui o pai. Falando em frases batidas, chega a me revirar o estômago quando se fala que o marido é ótimo porque "ajuda" em casa ou, muito pior, com os filhos. Oh god, até quando?!
Dani, vc tocou em dois pontos muito sensíveis: essa urgência das pessoas em condenar uma mãe que publicamente rejeita o filho, e a exclusão do pai como responsável pelo filho também.
ResponderExcluirSempre me irritam esses comentários inflamados, como se levar uma gravidez indesejada adiante não fosse por si só uma atitude corajosa (por isso é que sou a favor do aborto sob quaisquer condições). Se o processo de adoção fosse mais transparente, fácil e menos burocrático, não haveria tantas crianças sem pais por aí.
E o outro ponto é o pai "que ajuda". É o auê em cima da história de um pai solteiro. Filho é feito por 2 pessoas, criação é dada por quem escolhe fazê-lo, seja o homem, a mulher, ou os dois.
Como sempre, lindamente escrito e bem colocado, Dani!
Dani,
ResponderExcluirExcelente o seu post. Concordo com suas considerações e penso que enquanto forem tidos como normais ou instintivos esses papéis de mãe e de pai que temos hoje em dia, a mulher continuará a arcar com todo o peso da maternidade e do exercício de sua sexualidade enquanto que o homem permanecerá distante de implicar-se enquanto pai e sem ter que se responsabilizar pela conexão entre sua sexualidade e uma possível procriação. O complicado é que isso é cômodo para a maior parte dos homens e que nossa sociedade não é apenas machista mas governada por eles em muitas instâncias. Ou por mulheres que não se acanham em reforçar o mesmo estereótipo desde a criação de seus próprios filhos. Há muito o que se fazer, a muito o que se colocar em questão, com homens e com mulheres.
A única coisa que acrescentaria, além de tudo o que você disse tão bem, é que acho que os protestos das pessoas face ao que propôs essa mãe não tocam no ponto principal e, a meu ver, o mais verdadeiramente chocante nessa história, que é o fato de que o anúncio se propunha a vender uma criança, não? Não sei se estamos falando do mesmo anúncio, mas quando li a respeito, havia essa questão do comércio implicada. Uma criança que vira um objeto que pode ser comercializado, por pai, mãe ou quem quer que seja, acho que isso nos diz que além do machismo, temos também muito o que pensar sobre essa mentalidade que transformou gente em mercadoria? Será que não têm a mesma raiz?
Um abraço,
Alessandra
Não tenho filhos, não sou casada, mas me interesso pelo tema. Espero que mais homens como o seu marido estejam se multiplicando por aí, e a paternagem cresça solta pelo mundo, sem vergonha nem medo. Obrigada pelas palavras, me acrescentaram muito.
ResponderExcluirAbraços, Laryssa.
Adorei Dani!!
ResponderExcluirMeu pai sempre foi muito presente e ativo. E isso na minha concepção sempre foi algo natural.
Quando me tornei mãe, tinha uma mini raiva da palavra "ajuda", as pessoas tem o hábito de falar "ah que bom que ele (pai) te ajuda né??"... não é ajudar.. é participar, cuidar, criar o proprio filho. E ai quando simplesmente trocam uma fralda, viram os heróis da história, rs.
Hoje os meus "babys", já não são mais tão babys assim.. porém ainda necessitam (claro) de atenção, cuidado, carinho, amor.. e o pai deles vêm se superando. Estou percebendo que aquela turbulência pós separação passou e ele está bem mais participativo. Vejo que o meu esforço em manter o vínculo dele com os filhotes, valeu super a pena. E deixo eles passarem o final de semana com o pai super tranquila, pq sei que ele vai cuidar da forma devida.
Por enquanto não penso em ter mais filhos, mas antes de planejar uma futura gravidez, com ctz esse seria um ponto que seria conversado com o parceiro, pois nossa sociedade cobra muito das mulheres e o que eu tenho visto de homens com essa mentalidade mesquinha... olha, não é brincadeira, rs.
Bjs Bjs Dani!!!
Dani,
ResponderExcluirVocê não imagina o quanto me senti feliz com a sua matéria. Todos os santos dias, principalmente nos dias dos pais, luto veementemente contra a tal propagada ideia, malfazeja, de que mãe é uma só e pai se encontra em qualquer esquina. Luto contra a supervalorização do papel materno em detrimento do papel paterno que é tão importante quanto.
O machismo não está somente na maioria dos homens, mas, também, em grande porcentagem das mulheres que, infelizmente, não percebem isso. Não imaginas o quanto me incomoda, nessa época de festa comercial, ver pais recebendo um par de meias, uma gravata ou, até mesmo, uma cueca de presente, enquanto a mãe (não que ela não mereça) tem festas grandiosas presentes caros e tudo mais. O valor do presente e as festas realizadas não têm qualquer valor pra mim, na minha cabeça, o que fica claro é que, para a sociedade, ser pai é ser qualquer um; alguém que simplesmente deixa uma semente e não tem mais responsabilidades com o ser em formação.
Sim, minha amiga, os pais têm que assumir o seu papel na criação de seus filhos, eles devem ser responsabilizados também pelo controle da natalidade e, no campo da reprodução, ser tão cobrados quanto as mulheres, pois eles também "brincaram" e se "divertiram".
Por fim, não gosto muito de escrever, porque o texto dá lugar a muitas interpretações. Espero ter me feito entender... confesso que a sua matéria mexeu comigo e trouxe à tona tudo aquilo que penso a respeito de ser PAI. Por isso, obrigado.
Adorei o texto! E concordo com um dos comentários acima, eu odeio quando me falam: Ah o pai te ajuda né? Não ele não me ajuda, estamos COMPARTILHANDO a criação, e tudo o que ele faz é obrigação dele tbm. Tenho uma filha de 2 anos e estou esperando outra. Meu marido é super presente, eu o acostumei assim desde a primeira gestação! E posso afirmar com toda certeza, SIM eles dão conta. Saio cedinho de casa. é ele quem acorda, troca e arruma minha filha. Faz a mochila, a lancheira dela e a deixa na escolinha. Busca, olha o caderninho de recados. Faz tudo, desde sempre. Trocar, dar banho, comida, brincadeiras, fazer dormir...Tudo mesmo! Fico super tranquila, pq sei que posso confiar que ela está bem cuidada!
ResponderExcluirMaravilhoso!
ResponderExcluirTexto referência.
Simbora divulgar - a todos, pais principalmente.
Dia dos pais precisava ser mais isso e menos aquilo...
Beijos!
Adorei seu texto, você sabe. Pontua bem o que eu disse naquele meu outro, de uma forma mais... completa.
ResponderExcluirBeijos
www.parabeatriz.com
O problema de fundo, na verdade, é desvincular o sexo do comprometimento que ele requer; comprometimento mútuo de cuidar de um possivel filho dessa relação. Um casal só deveria - chocarei muitas falando isso - fazer sexo dentro de uma relação absolutamente comprometida, ou seja, o casamento. Quando você banaliza o sexo, o resultado são todos esses tristes casos: abortos, crianças abandonadas, filhos sem pai e muitos outros. Levassem a sério o sexo como ele deve ser levado, não haveria um post como esse. E, infelizmente, vascetomia nao é um ato de amor, mas de cavalheirismo, na melhor das hióteses. Na pior das hipoteses...
ResponderExcluirDani, AMEI! Tem muito a ver com o que sempre digo aqui em casa: aqui, marido não ajuda, marido faz a parte dele. Ajudar simplesmente significa que a pessoa faz na hora que puder e se quiser. Bom, não é assim mesmo...
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