A recebi como uma sentença, como uma fatalidade. "Sua vida acabou", ouvi de várias pessoas e senti o peso de cada uma dessas letras. Não era tão nova, mas sentenciada estava por ter posto meu futuro promissor em risco.
Naquele momento e no ambiente de trabalho opressor, tudo o que eu conseguia sentir era incômodo e inadequação. Sentia-me desnuda aos olhares dos outros. Minha sexualidade nunca foi tão exposta. Estava grávida e isso indicava uma vida sexualmente ativa. A gravidez veio para mim como um castigo.
Com o pouco apoio que tive no ambiente de trabalho e o apoio incondicional do meu marido, ergui a minha cabeça e decidi seguir em frente, com a gravidez inclusive. Esta seguiu tranquila e sem intercorrências que me fizessem sair do ambiente de trabalho, mas sempre que precisava me ausentar por conta das consultas de rotina do pré-natal, este afastamento devidamente justificado com atestados médicos era visto com um quê de desconfiança. E os olhares eram sempre muito pesados e jocosos.
É muito difícil ser mãe e empregada celetista. (regida pelo CLT)
Lembro do frio na barriga que senti no retorno da licença-maternidade. É sabido que muitas mulheres perdem seus empregos nesse período em que tanto precisam deles, embora a legislação garanta a estabilidade da empregada gestante a partir da confirmação de gravidez, mesmo se o contrato de experiência e de acordo com a Lei 12.812/13 que acrescentou o art. 391-A à CLT: a empregada gestante passa a gozar de estabilidade provisória desde a confirmação da gravidez até cinco meses após o parto, ainda que durante o aviso-prévio trabalhado ou indenizado. Felizmente nada aconteceu comigo.
Naquela época, eu tinha vínculo empregatício e meu marido não. Foi então que ele decidiu ficar em casa com a nossa filha e assumir os cuidados diários com a casa e com o bem estar da pequena. Não posso negar que para mim, foi um alívio. Evitou a ida (precoce) dela para um berçário e possibilitou minha ida para o trabalho em tranquilidade. Tive esse apoio e aquelas que não tem?
Essa tranquilidade durou poucos meses. A necessidade de dinheiro o compeliu a procurar trabalho o que mudou por completo a configuração inicial. Decidimos contratar uma empregada para que a Bia não tivesse que sair de casa, mas era muito doído sair e deixá-la sob os cuidados de uma estranha. Trabalhar deixou de ser um prazer, um objetivo de vida e passou a ser um tormento.
Era uma situação muito pouco confortável. Tinha em minha casa uma mulher que também era mãe para cuidar da minha filha para que eu pudesse trabalhar. Essa mulher por sua vez, deixava os filhos dela com outro alguém para poder, também, trabalhar e contribuir para a renda em seu lar. Ela tinha seus motivos para faltar ao trabalho. O que me levava a faltar também.
Passei a nutrir o desejo de não ter que sair de casa para trabalhar. Sentia uma necessidade enorme de estar junto com a minha filha e assumir a autonomia na minha maternagem.
Tudo mudou quando meu marido passou num concurso público federal, o que nos levou de mala e cuia para Manaus. Numa cidade estranha sem conhecer ninguém, sem o apoio de parentes ou amigos, decidimos que ficaria em casa. Sozinha e com minha cria.
Ao contrário do que apregoa o senso comum, me senti realizada por estar em casa. Absolutamente plena, o que aumentou a cobrança social. As pessoas não entendem e não acolhem as opções de vida do outro:
Nesse tempo dedicado a minha maternagem, me redescobri, planejei e pari outro filho! Nos mudamos de cidade e para ele pude me dedicar todo o tempo de que dispunha.
Todos esperavam que por eu estar em casa o tempo inteiro, sem trabalhar, todos os cuidados relativos aos filhos estariam sob minha exclusiva responsabilidade. Mais uma vez contrariamos o senso comum e meu marido passou a ouvir a seguinte pergunta no ambiente de trabalho, sempre que se ausentava (amparado na Lei 8112/90, art. 83): esses meninos não tem mãe, não?
Nesse sentido Iara Domingos questiona:
O FILHO DA MÃE! Da mãe que trabalha!!!
"Como Conciliar o trabalho( os afazeres domésticos) e o filho dentro de um relacionamento "igualitário"? Essa resposta eu não tenho, aliás até onde vai a igualdade das relações MATERNA/PATERNA com a cria? talvez ela não exista e o tal mito do "instinto materno", seja realmente verídico e alimentado pela sociedade patriarcal, afinal de contas, que chefe irá enxergar com bons olhos e romantismo a falta do seu empregado para o acompanhamento de uma consulta médica do filho, O FILHO É DA MÃE oras. Quantas mães tem que se desdobrar para deixar o filho a com a avó, em creches com o peito apertado para enfrentar mais um dia de trabalho? será que é o mesmo drama do pai ao cruzar a porta para mais um dia de trabalho? Sou estatutária, professora (ou seja péssimo salário, mas estabilidade trabalhista) abri mão de dar aula em mais de uma escola, de uma renda extra para poder criar e educar meu filho, mas e o pai será que faria o mesmo? Não, não faria e meu drama é até onde eu consegui implantar minhas ideologias feministas na maternagem e onde deixei de ser feminista para maternar?"
Sempre considerei o meu afastamento do mercado de trabalho como um tempo e não como algo cristalizado, imutável. Senti necessidade de voltar para a minha graduação, que não foi deixada de lado por conta da maternidade. O motivo foi outro. Voltar a estudar naquele momento, com meus filhos mais crescidos e com o apoio do meu marido foi reparador.
Mas enquanto escrevia esse texto, percebi os desafios que também me acompanham no ambiente acadêmico. Agora que estou no turno da noite, sou obrigada a faltar mais do que gostaria. E por que sou "obrigada"? Porque meu marido tem viajado muito e passa a semana fora, como essa por exemplo. Com quem deixar meus filhos? Embora eles já fiquem sozinhos, tem dias que simplesmente não consigo cruzar aquela porta. E falto aula. Alguns professores que não sabem da minha história, nem teriam como saber o caminho que cada aluno precisa percorrer pra estar "presente", me olham torto, me julgam. Faltar significa que me falta comprometimento. Olha, até poderia ir (como vou muitas vezes) mas deixar meus filhos sozinhos durante uma semana inteira é uma responsabilidade muito grande que jogo na Bia, então prefiro deixar meu coração falar mais alto e optar pela tranquilidade.
Este foi o comentário da Dany Santos, que ilustra bem essa pressão no meio acadêmico:
Gostaria muito de voltar a trabalhar, mas não tenho como assumir uma jornada de 8h diárias. Até o estágio deixou de ser uma saída, visto a carga horária de 6h + deslocamento, torna essa opção inviável. Por que não nos possibilitam uma jornada mais flexível, mais curta com salário proporcional? Isso permite a manutenção dos homens no âmbito público e as mulheres no privado.
O home office tem sido uma saída para que muitas mulheres reconfigurem a organização familiar e possam estar ao lado dos filhos mas funciona para todas as mulheres, em todas as famílias, em todas as áreas?
E para aquelas que como eu, não tem vocação para empreender? Que não possuem habilidades manuais? Que não são jornalistas ou publicitárias - geralmente duas áreas que permitem o trabalho nesse formato?
Muitas mulheres se sentem acuadas pelo sistema que nos cobra sucesso profissional e excelência na criação de filhos.
Desculpa, sociedade, mas muitas mulheres não veem saída a não ser renunciar por um tempo suas vidas profissionais em favor dos filhos e por que não de si mesmas. Existem diferentes formas de realização e para sermos completas não necessitamos necessariamente de uma carreia.
É que a ambição de "ser alguém" deixa de ser a coisa mais importante nas nossas vidas. Sinto-me muito mais empoderada para estabelecer prioridades na minha vida, que podem mudar com o tempo.
*** Esse texto faz parte da blogagem coletiva proposta com o FemMaterna cujo objetivo é refletir sobre o que podemos fazer, como coletivo, para acolher as demandas das mães. No meu caso, mais perguntas que propostas. Sigo na tentativa de uma recolocação que respeite uma jornada flexível e minhas aptidões.








Sempre trablahei fora e realmente é difícil conciliar as duas coisas quando ficaram maiorzinhos optei trabalhar menos diminuir minha jornada de trabalho. A fase da pré adolescência e adolescência requer muito cuidado e atenção.
ResponderExcluirbju
Bom, Dani, essa é a pergunta que eu me faço todo dia "como conciliar?".
ResponderExcluirAcho que voltar da licença maternidade dói bem mais que o parto, juro. O pior é que é uma dor bem solitária. Eu escutava coisas do tipo "ah, mas todo mundo faz isso", "hoje em dia é normal", "vc não estudou a vida inteira para ficar em casa"...
Quando tudo o que eu queria era simplesmente ficar em casa com minha bebê. Ser mãe dela. Cuidar. Estar junto. Fazer papinha, dar de mamar, trocar fraldas... Dar o banho. Aliás, dar o banho era questão de honra.
Eu trabalhava e minha mãe ficava com minhas filhas. Às vezes, rolava reunião até tarde. Não interessa, quem dá o banho sou eu. Minha mãe me ligava "deixa eu dar, vão acabar sem banho hoje". Pois que fiquem sem banho, eu dou o banho nelas. Sim, eu era a louca da mãe que precisa fazer algo para se sentir perto, atuante, enfim, para se sentir mais mãe.
Eu confesso que abri mão de cargo e salário muito bom em nome de uma jornada mais leve. Abri mão sem dor, abri mão feliz e comemorando porque consegui uma colocação na qual eu consigo ficar mais com elas.
Na época em que tomei essa decisão, fui muito julgada. Por todos, viu? "Ah, mas você tinha uma carreira promissora, era brilhante". Sim, e era infeliz. Inclusive fui julgada pelos mais próximos, por aqueles que sabiam o quanto me doía ficar longe das minhas filhas por pelo menos 10h
por dia.
Enfim, desculpe o comentário gigante, mas acho que foi esse o principal assunto que me fez chegar à blogosfera, ter meu blog e desabafar. Acho bizarro que nos dias atuais, em 2013, com tanta tecnologia, a gente tenha que cumprir jornada de trabalho de 9h longe de casa. Não entendo como as empresas não percebem que perdem talentos por conta disso.
Se a jornada fosse flexível, se houvesse mais home office, se houvesse cargo em meio período... ai, ai seria tão mais leve, não?
beijos
Lilian
(www.apequenaquepariu.blogspot.com.br)
Caraca! Me identifiquei muito com esse texto.
ResponderExcluirEstou passando exatamente por isso no trabalho, pareço uma traidora, por ter engravidado.
Toninha, que interessante observação a sua sobre a pré-adolescência e adolescência. Há uma ideia equivocada de que só necessitam de cuidados e atenção bebês/crianças, quando na verdade, a atenção nessa fase tem que ser redobrada. Temos que estar ainda mais vigilante para orientá-los.
ResponderExcluirLillian, quase chorei lendo teu depoimento. Lembro até hoje o dia em que voltei da licença maternidade. Lembro da dor física que senti ao ter que me separar da minha filha.
ResponderExcluirO sistema além de opressor é burro. Também não entra na minha cabeça, a necessidade de estar no trabalho DIARIAMENTE, quando tudo é feito por computador. Não entendo.
Ai, é tanto assunto...impossível esgotar
Beijo
Não pensei que seria tão bom ouvir essas colocações. Ainda que se diferenci idade, estrutura familiar, as angustias e sentimentos envolvidos são correspondentes, nos ligam, servem às vezes como no momento pra mim, pra uma chamada pra re-reflexão, "esse é o caminho certo?".
ResponderExcluirbj
Dani quase nunca consigo fazer um comentário que não seja te elogiar. Vc sempre diz tudo aquilo que acredito e de uma maneira muito bem colocada. Não preciso acrescentar nada. bjo grande
ResponderExcluirDani,
ResponderExcluiro post ficou muito completo: relatos diversos e muita reflexão. Você conseguiu reunir num texto a maioria das questões quando o assunto é trabalhar fora/dentro de casa.
Ah, e ainda não ficou com aquele tom de ódio ao sistema/capitalismo/etc. O que é muito bom porque às vezes eu acho que a discussão perde todo o "encanto" quando quem escreve parece estar gritando na tela do computador. Ainda que, as vezes, seja um desabafo.
Bjo
Eu sou uma dessas que foi muito criticada, Dani, por ter pedido demissão e "abandonado a carreira" pra seguir a "carreira" de mãe, e de quebra, dona de casa... Na época, 4 anos atrás, não tive dúvidas: se quisesse continuar trabalhando teria que ou ficar longe do meu marido a semana toda, ou eu viajar diariamente de 2 a 3h cada ida e cada volta. Queria minha família junta, e queria cuidar da minha filha, e certamente eu a amava mais que o meu trabalho.
ResponderExcluirAté hoje há um estranhamente gigante na minha família por conta disso. E não pense vc que não tentei voltar a trabalhar, mas acabei não conseguindo um emprego perto de casa, e depois tive outro filho (que agora tem 1 ano) e não sei se quero voltar a trabalhar nesse esquema de grandes empresas. Pois não tenho dúvidas, as empresas, sejam grandes ou pequenas, não estão preparadas para ter funcionárias mães, e com isso perdem um monte de talentos - por exemplo, eu (rsrs).
Mas já há algum tempo sinto vontade de voltar ao trabalho, mas queria que fosse em outro esquema, bem mais flexível, só ainda não achei o que. E como vc, também careço de espírito empreendedor e habilidades manuais...
Mais uma vez, post lindamente escrito. Adoro vir aqui!
Muito bom seu texto e parece que estou me vendo nele. A única diferença foi não estudar mais e não ter conseguido trabalhar mais, justamente (o trabalho) pelo motivo que você falou: não consegui algo de 4hs para trabalhar enquanto minha menina estivesse na escola. E procurei!
ResponderExcluirSim, eu quis isso e não abri mão. Fiz cursos que encaminham para o mercado de trabalho e quantos aparecerem mas nenhum dentro das 4 hs. E hoje com quase 7 anos, estou em casa com ela.
Arrependida? Jamais! Porque pude educa-la em muitos momentos que ela precisou e que com certeza não teria a mesma palavra se estivesse com outra pessoa tomando conta.
Sinto falta de um salário? Sim!
E senti muitas vezes, mas ainda assim o lado "educar" me consola.
Não tive ajuda. Longe de todos até hoje, eu e meu marido aprendemos tudo sozinhos.
Sou abençoada por ter um marido compreensivo, que nunca fez uma crítica, que sabe o valor por eu estar em casa e vê meu esforço.
É um grande consolo.
Acho um absurdo (e não entendo) as pessoas olharem torto para o que é gerar vida. As pessoas são injustas demais. Precisam se reciclar.
Acho que deve ter havido muita inveja, pois esta faz muita gente pensar assim e se não houve, faltou conhecimento do grande valor que é ter um filho.
Teria muitas coisas para falar Dani, esvaziaria uma garrafa de café, mas terminando... Tenho certeza que você trilhou e trilha os melhores caminhos, quando teve que ficar em casa e quando toda vez (mesmo com olhares injustos de um professor) fica em casa com seu coração apertado de mãe. E mãe é isso: coração apertado o tempo todo.
Parabéns!!! E só uma coisa:NUNCA, seremos bons suficientes pra ninguém.
E o que importa não é?
Beijos querida!
Teresinha Nolasco
Mãe da Maria Clara com 6 anos e 10 meses.
Autora do Blog: Bolhinhas de Sabão para Maria
E se o companheiro não banca ser o único provedor, nem digo ideologicamente, mas monetariamente mesmo? Se a principal provedora da família é a mulher?
ResponderExcluirTalvez o obvio ai seria o marido parar de trabalhar e ser pai e dono de casa em tempo integral, mas se para a mulher é difícil optar por supender a carreira, talvez mais ainda seja para o homem.
E ai?
Ainda estou buscando exemplos de mães que param de trabalhar sem um marido que as banque.
E sobre ser empreendedora, estou cansada de ver as mães assumindo que passaram a ter ainda menos tempo para os filhos, exceto as que trabalham pouco e o marido é o provedor. E ai?
Ah, sei que não foi o enfoque do texto, mas queria sua opinião.
ResponderExcluirDo mais, preconceito e falta de apoio é o que mais existe. Como mudamos o mu do?
Muito bom o post, por ter se baseado em vários relatos. Mas eu acho também que essa dor em sair de casa e deixar o/a bebê numa creche é também fruto da falta de recursos, da falta de confiança nessas creches, da falta de ambientes de trabalho mais acolhedores, e da atribuição dos filhos às mães quase exclusivamente. Entendo que, na dimensão individual a escolha por ficar fora do mercado por um tempo possa ser a melhor, em muitos casos, mas em termos coletivos, acho que deveríamos pressionar a sociedade não apenas para aceitar nossas escolhas individuais mas para criar ambientes e recursos adequados para as crianças.
ResponderExcluirBeijos
Adorei o texto, também escrevi para a blogagem coletiva, e esse tema é central em minha vida. Por muito tempo sofri com dúvidas a respeito do que eu realmente deveria fazer, não foi fácil decidir por ficar em casa,mas foi o que me deixou mais tranquila e em paz. Trabalho não é prioridade, trabalho = dinheiro = falta de tempo = crianças sem companhia da mãe.
ResponderExcluirDanis, conheço uma caso aqui na minha cidade no interior que o pai fez exatamente isso, parou de trabalhar para cuidar do filho pequeno enquanto a mãe trabalhava fora e olha que ele nem ganhava menos. Acontece que eles vieram embora de São Paulo pq não queriam criar o filho lá, os dois são professores da rede publica de ensino, ela conseguiu remover o cargo para cá e ele não. Então ele tirou aquela licença não remunerada de dois anos para ficar com o peq. Só que quando acabou a licença e a coragem de ir embora e deixar filho e mulher? Sabe o que ele fez, passou num concurso de inspetor de aluno e hj ganha um terço do que ganhava antes, mas está perto da família. Achei o gesto muito lindo. Mas, sei que muita gente não entende isso. bjs
ResponderExcluir