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Sabendo que o ano passou seria o último da Bia por só atenderem crianças até o 5° ano, andava inquieta à procura de uma escola que atendesse aos meus critérios e que também fosse financeiramente viável. Procurei bastante, recebi muitas indicações e me deparei com instituições de ensino que sequer mereciam uma visita.
Nessa busca deparei-me com escolas que possuem espaço externo ínfimo forçando seus alunos a consumirem porcarias no que chamam de "praça de alimentação" em nada comparado ao espaço que tinham antes; que oferecem uma infinidade de aulas extras pra justificar o preço absurdo das mensalidades; sem contar o esquema de segurança, vigilância e controle através de câmeras de monitoramento. Para não mencionar o conteúdo livresco ou apostilado com base em exames, provas e reprovações - únicas medidas de desempenho dos alunos em grande parte delas.
Em nenhuma dessas escolas - financeiramente viáveis para minha família, diga-se - o conhecimento é trabalhado de forma a valorizar as relações humanas, a convivência entre diferentes, a transformação dos valores para alcançarmos a tão sonhada igualdade. Ao contrário, as escolas vêm se constituindo num espaço de reprodução de ideologias das mais diversas, das mais perversas, reproduzindo a exclusão através de práticas pedagógicas.
Como todas são absolutamente similares, a sociedade como um todo parece não se importar e aceita tudo como natural e vamos nos adaptando e submetendo nossos filhos a essas instituições sem nenhum tipo de questionamento.
O que tem acontecido com as escolas, afinal?
Em meio as minhas buscas frustradas, recebemos a notícia que vamos mudar de cidade. Continuaremos em Santa Catarina e nos mudaremos até o meio do ano. Os impactos dessa notícia no cotidiano dessa casa virou um texto no blog Dadadá. Foi uma notícia recebida com alegria e medo. Como se não bastasse a mudança de cidade, meu marido sugeriu uma outra que nos pareceu ainda mais dramática. "Esse ano nossos filhos estudarão em uma escola pública". Segundo ele, não compensaria arcar com os custos de todo-começo-de-ano-letivo para em seguida nos mudarmos e pagar-tudo-de-novo a uma outra instituição.
Parece-me justo mas confesso que não aceitei essa notícia sem ranger de dentes. Não queria meus filhos estudando numa escola pública. Não queria meus filhos lanchando uma comida servida em refeitórios que nem sei como são higienizados. Não queria meus filhos na companhia de qualquer um. Não queria meus filhos ali. Meus filhos.
Em uma discussão muito dramática, meu marido ouvia tudo calmamente. Depois que usei o pronome possessivo incontáveis vezes, ele simplesmente respondeu: "Que estranho! Não é você que luta por um mundo sem preconceitos? Não é você quem diz que para preconceitos não existem ressalvas? Por que teus filhos são diferentes dos filhos dos outros? Por que os outros não merecem a oportunidade de conviver com teus filhos? Somos tão especiais assim?"
Que confronto!
Após uma catarse básica veio a aceitação. Com ela, uma vontade de entender por que nós que compomos a classe média temos tanta ojeriza pela escola pública. Em que momento renegamos um direito social para assumir o papel de consumidor.
Bem verdade que observamos um dualismo perverso entre a escola particular (de conhecimento) para ricos e escola pública (acolhimento social) para os pobres. O que faz com que as escolas particulares sejam vistas como instituições que verdadeiramente possibilitem o aprendizado e as públicas como um espaço que favorece a delinquência. Esse pensamento dualista serve ou não serve para manter desigualdades sociais?
Pelas leituras que fiz sobre a historiografia da educação podemos dizer que o sistema educacional sempre esteve a serviço de diferentes interesses. Quais interesses sociais estão envolvidos nesse processo?
A cultura escolar foi criada na República, pois até então era inexistente. O avanço da industrialização apelava por uma mão de obra qualificada, gerando a necessidade de escolas para formação do futuro operário. A elite brasileira só estava preocupada com a organização do sistema capitalista. Foi implementada uma pedagogia higiênica que era sinônimo de disciplina do hábito e tinha como princípios norteadores a nação e pátria. Surgiu então a escolarização em massa, cuja concepção era de que a desigualdade é fruto natural da evolução dos indivíduos e não resultante de uma estrutura econômica. Olá, meritocracia!
A implantação da escolarização foi um fenômeno urbano, porque porque naquele período ainda imperavam formas arcaicas de produção, havia mão de obra abundante e baixa urbanização. Como foi (ou continua sendo?) um fenômeno urbano, acabaram ficando de fora os pobres e os negros. (!!!)
Se o ensino era público por que não atendeu aos interesses do povo? Ora, ao Estado cabe a manutenção das relações de poder.
* * * *
A escola pública se mantém em declínio há pelo menos 30 anos e a única coisa que fazemos é bradar "por uma escola pública de qualidade e gratuita para a toda a população". A classe média sempre se acovarda na hora de exigir o cumprimento de seus direitos por tratar a tudo como mercadoria e a quem reduz tudo a uma questão de dinheiro.
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Algumas considerações sobre a minha experiência:
- Não tive que acampar na porta da escola nem pegar fila para ter garantida uma vaga para meus filhos. É tudo informatizado.
- Não é um lugar para pessoas verdadeiramente pobres. Nas escolas públicas da ilha, há um público de classe média bastante expressivo. Tanto que o meu é o carro mais velho na porta das escolas.
- Na escola dos meninos não há problemas de instalações físicas. São muito bonitas e arejadas. A do Otto inclusive, é nova.
- Todos os profissionais são engajados além de educados. Muito mais do que nas escolas onde meus filhos estudaram, diga-se.
- Nas reuniões que participei noto o engajamento de algumas famílias através de eleições para a Associação de Pais e Professores em detrimento a escusa de algumas que se eximem de quaisquer participação e envolvimento "porque isso é obrigação do governo". Em tempo: a escola é municipal. O nosso olhar para a escola, principalmente a pública, não deve ser de desesperança. Por trás de cada professor sem plano de carreira definido, existe uma vontade enorme de fazer a coisa acontecer. E nossa participação é essencial nesse processo.
- Bia se adaptou muitíssimo bem. Otto estranhou o estilo "escolinha".
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Por fim, vejo como positiva essa mudança de espaço para dar fim a minha projeção de êxito sobre meus filhos.
Acredito que educação também seja estar em contato com pessoas de níveis socioculturais diferentes num ambiente não seletivo para compartilhar vivências, ter contato com outras realidades e aprender mais sobre solidariedade entre as pessoas.
Essa não deveria ser a função precípua da escola?

Olá, sou mãe de um menino e uma menina e já lecionei alguns anos em escolas públicas do Estado. Adorava. A grande maioria que trabalhei não tenho queixas. O que mais adoro nas escolas públicas é a diversidade de realidades, tinha alunos que viajavam todo final de ano para a Europa, me mostravam fotos e falavam sobre os museus e arquitetura. A unica coisa ruim - para alunos/as, pois para professor é outra discussão - era a falta de segurança pelos corredores,banheiros. Dependendo do bairro os/as alunos/as já são mais desprovidos de bem materiais. Mas procurando bem e escolhendo uma que tenha uma gestão legal, ah! fazem trabalhos incríveis.
ResponderExcluirMuito, muito obrigada por este post!! Moro em Blumenau/SC. Também tive que passar por esta mudança e tive os mesmos medos e preconceitos no início. Mas depois me deparei com professores realmente capazes e engajados, com pais preocupados e interessados e com crianças maravilhosas. Pessoas que não esperam só pela ação do governo, que querem e fazem escolas de qualidade. Sonho que esse "espírito" contamine todos que fazem parte dessas instituições em todo país!!!
ResponderExcluirDani,
ResponderExcluireu estudei em escola pública até o ensino médio. Depois fui para uma faculdade particular porque foi muito mais fácil entrar. Não, eu não tinha dinheiro pra pagar, mas tinha o tal crédito educativo. E financiei meus estudos. Fiz vestibular na publica, mas a concorrência era muita e não passei. Não tinha dinheiro pra ficar estudando, cursinhos e tal.
Mas voltando à experiência da escola pública, sempre gostei muito. Mas era numa cidade pequena, interior onde têm muitas escolas públicas e uma só particular.
Aqui em Porto Alegre, não sei mesmo se colocaria a Nina numa escola pública. Não pelo ensino, mas pela segurança, instalações precárias, violência. Creche pública não dá também. Fila enorme de espera e precariedade total. Enfim, só quero o melhor pra ela. E se no futuro o melhor for ela ir pra uma escola pública, ela irá sem problemas. Mas claro, terá que atender a alguns requisitos, pois não vou deixá-la, se puder financeiramente, claro, deixar num lugar sem condições.
Se tudo fosse melhor, se nossos impostos, que pagamos fossem direcionados para uma melhor educação, saúde, segurança, acredito que nem pensaria duas vezes para colocá-la numa instituição pública. Porque sei que é possível. Mas são várias variáveis nesse jogo.
Dani, como comentei no Face, os meus três estão em escolas públicas desde 2012. Foram escolas que escolhi cuidadosamente, não foram matriculados à revelia em qualquer uma. E lá vão terminar seus estudos. Se precisar de algo a respeito, me diz.
ResponderExcluirBeijos!!!
Uma coisa que me animou bastante (também tive o choque incial, movido pelo preconceito, que você teve; se tiver oportunidade de ler meus posts escrevo sobre isso lá) foi a possibilidade de interação socioeconômica diversa. Eles estavam acostumados a escolas particulares de alto padrão, onde todas as crianças parecem ser iguais. E vou dizer que para eles não foi um choque, pelo contrário. Outra coisa que acredito muito é que usando os serviços públicos a classe média cobra mais. Eu sou amiga das diretoras, me engajo em associações de pais, no Conselho Escola Comunidade e cobro o que for necessário (já tive vitórias junto à Secretaria de Educação). Aliás, a própria secretária de Educação está no meu Twitter. Quanto aos professores, aqui também são muito educados. Não digo mais que os das escolas onde eles frequentavam, mas tratam com os pais "de igual para igual", em vez da subserviência dos professores das particulares. Afinal, "estamos pagando"...
ResponderExcluirAdorei o post (de novo, rs)!!! Beijos!!!
Tanta coisa pra comentar, mas não tenho uma conclusão. São pensamentos aleatórios. Vamos lá.
ResponderExcluirEu estudei em escola pública do 6° ano ao Ensino Médio. Estudei numa escola de formação de professores. Naquela época, a escola pública já andava mal das pernas. No entanto, meus professores eram excelentes. Inclusive, quis ser professora por causa de uma professora de Português maravilhosa! Ao contrário do que muita gente dizia, que eu não conseguiria estudar numa universidade pública porque não tinha “base”, fiz minha graduação numa federal e é onde faço meu mestrado (ou fazia, não sei ainda). Foi a melhor época da minha vida e onde eu fiz meus melhores amigos. Eu conheci gente de todo tipo! E conviver com tantas pessoas diferentes certamente me fez uma pessoa melhor. Eu não tive excelentes aulas de Química ou Física, mas tive aulas de como conviver com diferentes pessoas, aprendi a ser gente. Aprendi a valorizar a minha vida e lutar por quem não tinha as oportunidades que eu tinha.
Meu filho estuda (e sempre estudou) em escola particular. Escola tradicional, católica (meu marido é ateu e eu, agnóstica), cara e com um público bastante homogêneo (classe média, brancos, “bem de vida”). Não é a escola dos meus sonhos, pois tenho outra ideia do que é educação e de como deveria ser uma escola. No entanto, é a escola que cabe no meu bolso e é perto de casa (dá pra ir a pé). Meu marido o leva e eu posso buscá-lo. A escola dos meus sonhos até existe, mas eu teria que submeter meu filho a um trânsito absurdo e não poderia estar tão presente. Fora de cogitação. Eu gostaria MUITO que meu filho não fosse apenas um cliente, mas é. Eu sei disso. A escola o prepara para exames, foca em números, classificação. O foco é ENEM + mercado de trabalho. Uma tragédia. Pra quem almeja esse tipo de educação mercantilizada, ela é ótima. Atende bem. Pra mim, é um sofrimento. De verdade. É um sofrimento porque eles sempre pensam no “futuro” e esquecem do “agora”. Esquecem que meu filho é criança hoje, neste momento, momento presente. Com isso de focar apenas no amanhã, passam por cima de muita coisa – maturidade, por exemplo. E aí você me pergunta: por que ele continua nessa escola? Porque eu tenho medo da escola pública. Sim, tenho. E todas as minhas respostas pra essa pergunta vão contra tudo o que acredito: igualdade, respeito à diversidade, etc. Ainda preciso refletir muito sobre esse assunto. É meu calo.
ResponderExcluir***
Sou professora de escola pública. Do Estado e do Município. No Estado, não tenho experiência ainda. Fui convocada durante a minha licença maternidade. Do município, posso falar. Trabalho longe da minha casa. Levo 2h30min pra chegar à escola. Passa apenas UM ônibus lá. Não é uma linha de ônibus. É UM ônibus, o mesmo que vai e volta. Respiro fundo todas as vezes e vou. Não dirijo. A sala de aula é um cubículo. Tem apenas um ventilador de chão pequeno e velho pra mim e mais 30, 40 alunos. Quando acaba a aula, eu tô exausta, colando, suada, sem forças (e tem mais 2h30min de volta pra casa!). Encaro meus alunos como encaro os do curso particular. Não exijo menos, não ensino “pouco”, não nivelo por baixo. Acredito que são plenamente capazes de aprender apesar de muitas limitações (financeiras, por exemplo). Sou professora de Inglês. Um dia, eles estavam tão empolgados que me pediram pra ensinar a pronúncia de algumas palavras (oralidade não é o foco em escola). Não resisti. Ensinei um diálogo em inglês e eles fizeram tudo lindamente. E se divertiram! E eu me emocionei. Cheguei de lá com uma pontinha de esperança, mas chorosa por toda aquela situação: pessoas muito pobres (e eu não posso ajudar!), ambiente precário, colegas de profissão desestimulados (eu os entendo, claro) e nenhuma condição de trabalho. Então, Dani, há pouquíssimas escolas realmente boas. São exceções. Talvez seja por isso que tenho medo de comprometer a educação dos meus filhos. E eu entendi que meu papel vai muito além de ensinar a língua inglesa. Eu preciso fazê-los ter uma autoestima boa. Eles têm que saber que são capazes. O meu maior desafio é esse, eu acho. Eu estou motivada, mas entendo quem não está. Jogar toda a responsabilidade no professor é, no mínimo, uma sacanagem. Trabalhar nessas condições é desumano. Acho que falta muito ainda pra termos uma escola pública de qualidade, mas conheço profissionais que andam fazendo diferença por aí e eu quero ser um deles.
Que comentário gigante! rs
Sempre estudei em escolas públicas, conheci verdadeiros mestres e professores que me ensinaram ser o que sou hoje. Meus filhos estudam em escola pública integral, eles amam, eu realmente não poderia pagar uma particular e nunca me animei em conseguir uma bolsa. Busquei uma boa escola, com diversidade e qualidade.
ResponderExcluirParabéns por vencer essa barreira.
BEijos no coração, Cynthia
Considero muito lúcido seu post. E fico ansiosa por ver mais pessoas compartilhando desta opinião. Vejo inúmeras vantagens na escola pública e acho que abrimos mão delas todas por comodismo e preconceito.
ResponderExcluirAlém de que, diga-se de passagem, a escola particular está muito longe da excelência que apregoa ter.
que texto maravilhoso. Sou estudante de pedagogia na federal de SP e concordo com absolutamente tudo que você descreve no post.
ResponderExcluirAqui em SP a situação é mais difícil. As escolas estaduais são bem complicadas na capital, algumas nas quais meu marido já deu aula, onde alunos andam armados. É tenso, dificultando ainda mais essa decisão de colocar os filhos em escola pública.
Mesmo assim, meus filhos estudarão em escolas públicas, independente de minha condição financeira. Isso porque eu entendo que mesmo com todos os problemas, a escola pública faz com que as crianças cresçam dentro da realidade mais concreta. Além de que a formação dos professores, como você citou, tende a ser sempre maior que as privadas, que tratam a educação como reles mercadoria. Sem contar que financeiramente, o dinheiro investido em uma escola privada dá uma bela economia para promover outras experiências as crianças, como fazer um intercâmbio, ou algum curso que realmente valha a pena.
Enfim, são muitos os motivos para colocar meus filhos na escola pública e acima de tudo, lutar para que ela seja uma escola melhor a cada dia. Não só porque estou me formando como professora, mas porque como cidadã, realmente acredito que todos devem ter o direito ao conhecimento, independente da condição econômica.
Dani, li seu post ontem à noite, enquanto trabalhava, me coçando de vontade de comentar mas não podia, pois estava no horário de trabalho, e em sala de aula. Me empolguei tanto, fiquei tão feliz em ver alguém que compartilha a mesma visão de mundo e da educação que eu, e que não é comum de se encontrar no meio em que eu vivo.
ResponderExcluirEu sou bióloga, professora, atualmente pouco atuante, infelizmente não por falta de vontade. Dou aulas em uma escola técnica e trabalho em outras duas instituições de ensino, uma delas sendo a escola/pré-vestibular mais famoso de Belo Horizonte. Só nessa escola tenho contato com o ensino básico (sou monitora de laboratório) e o que eu observo (e absorvo) é exatamente o que você descreveu nos primeiros parágrafos do seu texto. É uma escola considerada excelente, com professores que se vendem como competentíssimos (e não estou dizendo que não sejam, pelo menos para o que se prestam), com aulas de tudo e com experiências que alunos de outras escolas talvez não tenham. Porém, o que me chama a atenção não é o que a escola tem, mas o que ela NÃO TEM. Ela não tem área verde, o pátio é todo cimentado, além de ser minúsculo. Ela não tem livro didático, o sistema é de apostilas (próprias da escola), o que, na minha opinião, é empobrecedor para o professor e para o aluno. Ela não tem, até onde percebi, uma preocupação com a formação da cidadania e espírito crítico, para além do conteúdo do currículo (me espantou que a professora de História propusesse um debate sobre a Ditadura e convidasse um militar que era A FAVOR da mesma para falar com pré-adolescentes). Ela não tem diversidade: de cor, de classe, nem entre os alunos, nem entre os professores. A imensa maioria das pessoas que estuda ou ensina naquela escola é BRANCA. Em compensação, contei uns dois funcionários dos serviços ""menos nobres"" (com muitas aspas) que fossem brancos; a grande maioria é negra. Sem contar os deslizes que observo da professora que eu acompanho as aulas, que traz para a disciplina conceitos e pré-conceitos que deveriam ficar do lado de fora ao entrar para ensinar. Quando eu olho para esse quadro, de tudo que essa escola NÃO TEM, eu tenho a certeza que não gostaria que meus filhos estudassem lá. Mesmo sendo a escola de Belo Horizonte que mais aprova no vestibular, etc, etc, whiskas sachet. Eu não penso a educação como um fim para a universidade. Inclusive, eu repenso o papel da universidade TAMBÉM! Enfim... o papo é longo.
Meus filhos provavelmente serão negros. Serão adotivos. Serão filhos de duas mães. Meus filhos precisarão de uma escola que proporcione um acolhimento da diversidade, e isso é algo que nem eu e nem minha esposa abrimos mão. Abrimos mão do laboratório, da aula de informática (na Ed. infantil!), da apostila modernosa, das câmeras de vigilância, da promessa do vestibular... O importante para nossa família são crianças inseridas num ambiente que proporcione o seu melhor aprendizado. E para isso o ambiente precisa acolhê-los, em primeiro lugar.
E, sim, eles estudarão em escola pública. Porque acreditamos que é nosso dever, enquanto cidadãs, lutar por uma escola de qualidade que seja acessível a todos e todas. Sei que nem todas as escolas públicas, em todos os lugares, têm qualidade de ensino (por mil e um fatores, eu também já lecionei por pouco tempo no Estado). Talvez existam lugares em que essa opção não seja a melhor para crianças que têm outra opção. Mas aqui em BH essa realidade existe essa opção. Então, até o momento, é para lá que meus futuros filhos irão.
Obrigada por compartilhar sua experiência. Foi lendo um post de uma blogueira materna (que nem escreve mais) que eu comecei a repensar os meus preconceitos em relação à escola pública. Vocês me ensinam muito. tanto à Lorena futura-mãe quanto à Lorena-profissional da educação. Beijos e aguardo mais posts sobre esse assunto!
Dani eu concordo com o que vc diz, mas preciso fazer algumas considerações. Eu estudei em colégio público a vida toda, passei numa das faculdades de direito mais conceituadas do Brasil (UENP de jacarezinhoPR). Minha irmã tbém se formou lá e tbém estudou na mesma escola pública. Mas, tenho que admitir que se não tivessemos feito um ano inteiro de cursinho preparatório e estudado 8 horas por dia, pelo menos, não teríamos conseguido. Isso porque éramos ótimas alunas, entre as primeiras da sala. Acontece que a escola pública, não prepara os alunos para o mercado de trabalho, nem para o vestibular. As escolas estaduais em sua maioria não ensina o aluno a estudar, porque o aluno não precisa estudar. Ele vai bem nas provas com pouco esforço. É só vc prestar atenção nas aulas, e fazer as tarefas de casa, que por sinal são mínimas. Vc vai ver a diferença. (e olha que não sou a favor de ficar massacrando o aluno com um monte de tarefas, mas acho sensato um equilibrio, quase nenhuma tarefa tbém não dá)As escolas estaduais tem ótimos livros didáticos, o problema é que a minoria dos alunos abre o livro para estudar em casa. Ou seja, os livros são muito pouco usados. Eu tenho um irmão de treze anos e acompanho o que ele faz na escola pública, além disso meu marido é coordenador do ensino fundamental em escola pública.
ResponderExcluirComparando o meu irmão caçula, comigo e minha irmã eu percebo que a escola pública vai bem para aquele aluno que tem comprometimento com o estudo desde cedo. Aqueles que já não são tão empenhados com o estudo acabam levando bem a escola pública porque esta não exige quase nada do aluno e não repete o aluno de ano. Mas o aluno sai da escola sem base nenhuma. Sai da escola sem nem saber estudar direito. Eu tenho mais noção disso ainda agora que meu irmão,acabou de sair da escola pública, e ingressou na mesma ecola particular do meu filho, no 8º ano, mas ele não sabe nem anotar o que o professor fala, está totalmente perdido, minha mãe terá que contratar professores particulares para ajudá-lo estudar. Sendo que na pública ele passava sem grandes dificuldades.
Ou seja, as escola estaduais podem preparar para vida sim, mas e aí como faz depois que os alunos saem do terceiro ano?? Terão que fazer cursinho preparatório sem dúvida e aprender em um ano tudo o que não aprenderam em 10. Existem exceções. Existem. Já vi matérias de alunos destaques que saíram de escolas públicas direto para universidades boas, mas isso é um em um milhão. Como faz a maioria??
Isso tudo estou falando somente na questão do aprendizado, sem falar sobre segurança na sala de aula (não raro escuto relatos de alunos que até mesmo investem físicamente contra os professores e funcionários da escola), e sobre outras questões tbém importantes.
Analisando bem, é claro que consigo enxergar muita coisa boa nessa escola pública que cito aqui. Como eu disse os livros didáticos são ótimos, a biblioteca é bem equipada, o prédio e espaço físico é melhor que muitos particulares, a comida é boa sim (balenceada e higiênica), existem professores comprometidos (mas tbém tem muitos que não são), enfim, há uma infinidade de qualidades, no entanto, na maioria das vezes ainda está longe de ser a melhor escolha.
Sabe o q eu achei mais legal? Vc ir pesquisar e se deparar com a historiografia da educação, que é, a meu ver, um estudo fantástico! Aí tem só um adendo ao seu comentário de que a escola pública está em declínio há 30 anos. Este é o mesmo discurso usado, por exemplo, pelo fhc qdo ele foi eleito, dizendo que na época dele é q a escola era boa, ele sempre estudou em escola pública e tal. O fato é que de mais ou menos 30 anos pra cá, a escola pública diminuiu muito (mas até hj não extinguiu) suas estratégias excludentes que faziam com que os alunos-problema fossem expulsos ou saíssem por conta própria, ou seja, uma maneira de manter o nível alto dos alunos sem se importar com aqueles que estavam sendo excluídos da instituição. E quem eram os melhores alunos? Claro! Aqueles com mais recursos em casa, já que a escola sempre cobrou como conteúdo os conhecimentos que são cotidianos da classe média e sempre desconsiderou os conhecimentos populares. Isso acontece um pouco até hoje. Então porque a classe média teme? Porque agora, desde há 30 anos, depois que os mecanismos excludentes foram aliviados, os conhecimentos populares também passaram a ser conteúdo escolar! Essa foi uma luta linda de Paulo Freire. E a gente sabe que saber e poder andam, assim, de mãozinhas bem dadas, né, então o medo é de que, valorizando o saber popular, se dê mais poder para as classes mais baixas. No fundo, no fundo, essa questão toca, mesmo, no preconceito que baseia esse medo. Bom que tem um grupo de pessoas como você enfrentando esse preconceito!
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