Chega um momento na criação dos filhos em que é preciso descortinar todos os véus, apresentar o mundo em todas as suas cores, com todas as suas diferenças para que tenham condições de definir sua identidade e conhecer suas próprias virtudes.
Quando falo em descortinar os véus lembro de Siddharta Gautama, aquele que nasceu num reino lá no Nepal. Todo mundo conhece um pouco da história do Buda. Bom, por tradição, ele deveria ter sido destinado por nascimento para a vida de um príncipe, e tinha três palácios construídos para ele. O seu pai, desejando que o filho se tornasse um grande rei e preocupado com o extravio do filho desse caminho, tentou de todas as formas proteger o filho dos ensinamentos religiosos e do sofrimento humano. Com 29 anos, segundo biografias populares, Siddharta saiu de seu palácio para encarar suas inquietações. Apesar dos esforços de seu pai para escondê-lo dos doentes, moribundos e do sofrimento presente no mundo. Tudo o que viu para além de seus muros, deprimiram e marcaram profundamente o jovem príncipe. Foi então que percebeu que a riqueza material não era o objetivo final de sua vida. Foi então que Gautama deixou o palácio e partiu em busca da Iluminação.
Tenho pensado muito nessa história. Muitos de nós, pais e cuidadores, nos parecemos um pouco com o pai do Siddharta à medida em que tentamos a todo custo proteger nossos filhos do mundo violento que está além de nossos muros. Escolhemos as melhores escolas muitas vezes sem nem se preocupar com a pedagogia de ensino mas com a proteção e vigilância que elas podem oferecer. Damos uma selecionada nas amizades e controlamos os lugares que nossos filhos podem frequentar. Pensando nisso cheguei a conclusão de que não quero ser como o pai super protetor do Buda - este, mais emblemático - levando eu mesma os meus filhos para um passeio fora dos muros que os protegem. Um passeio guiado, é verdade, mas essencial na criação de filhos mais humanos, mais empáticos.
Como fazer isso? Acredito que a arte se propõe muito bem a este papel de fazer com que olhemos pra dentro, vislumbrando o âmago.
Na escola, Bia que está com sede do mundo, já teve contato com Pollock, Marina Abramovic, Guto Lacaz, Yoko Ono, Emma Hack, Sebastião Salgado e suas fotografias...mas queria mais. Queria histórias capazes de abrir mente e coração, histórias de outros povos, de guerras, de superação, inspiradoras enfim. Isso o cinema pode propiciar.
Selecionei alguns filmes e selecionarei uns outros tantos para assistir com essa menina que está chegando a uma nova fase de sua vida. Segue a lista inicial.
Irmão Sol Irmã Lua - esse filme que dramatiza a trajetória de vida de Giovanni di Pietro Bernardone, conhecido como Francisco de Assis, ela teve oportunidade de assistir aos 5 anos. Não foi escolhido por seu conteúdo religioso, pois não tenho religião. Mas a história desse homem sempre mexeu fundo comigo. Francisco nasceu cercado de riquezas, lutou nas Cruzadas e na sua inquietude achou um caminho. Um caminho do bem viver. Abandonou tudo e revolucionou o catolicismo de seu tempo. A história é inspiradora para dizer o mínimo e a trilha sonora belíssima. Lembro que a Bia chorou copiosamente e desde então, é admiradora desse homem e dessa história.
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A Lista de Schindler - assistimos esse filme agora, neste feriado de carnaval. Um filme para mostrar o horror da dominação de um ser humano por seu semelhante; para mostrar o despropósito da guerra e o que significa genocídio, algo que estudará de maneira superficial na escola; para mostrar a força que uns fazem pela sobrevivência e que em meio a todo esse horror há lugar para esperança, generosidade, amor e arrependimento.
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O Menino do Pijama Listrado - um filme com a mesma temática mas sob outra perspectiva, sob a perspectiva de duas crianças alheias a todo o horror das ideias nazistas e que mesmo sem entender o que as separa, aproximam-se e tentam nesse contexto viver suas infâncias sem a interferência, sem a maldade do mundo externo. A inocência é tamanha que para Bruno, o uniforme de prisioneiro era apenas um pijama e os campos de concentração fazendas onde as pessoas trabalhavam e mesmo vendo seu novo amigo, Shmuel debilitado com a perda de peso não faz ideia do horror a que está submetido. Um filme poético sobre um dos piores momentos da história da humanidade e que ensina que a amizade e o amor ao próximo podem surgir em quaisquer circunstância. O final, de uma ironia tremenda, é surpreendente.
O Sorriso de Mona Lisa - um filme que retrata os costumes e os valores morais e tradicionais dos anos 50 em que todas as personagens envolvidas são mulheres. Mulheres privilegiadas, diga-se. Nesse contexto uma professora de Arte, educada na liberal Universidade de Berkeley, chega para lecionar em Wellesley. Lá encontra as mais brilhantes jovens mulheres dos Estados Unidos recebendo uma dispendiosa educação para se transformarem em...cultas esposas e mães responsáveis! A professora, vivida por Julia Roberts, decide ir contra todas as normas enfrentando a administração da própria universidade e a resistência das próprias garotas para mostrar o quanto são capazes e que para existirem como seres autônomos não precisam viver à sombra de um homem. Um filme inspirador que mostra que o determinismo não resiste a ideias, a ideais. Como eu queria assisti-lo com minha filha! Será que esse modelo social se extinguiu completamente? - fica o questionamento.
Nascidos em Bordeis - como a arte pode transformar vidas? Este documentário dos cineastas Zana Brisk e Ross Kauffman "é uma reprodução etnográfica (e não mera reprodução da vida) das pessoas que moram no bairro da Luz Vermelha, o mais pobre da cidade de Calcutá, a quarta maior da Índia. O foco é na vida das crianças, filhas de prostitutas que trabalham nos bordeis do bairro. Zana Briski é fotógrafa e está engajada no uso da arte como forma de denúncia social e manifestação cultural. (...) Briski conseguiu autorização para morar no bordel e fotografar as prostitutas. Mas acabou se envolvendo com as crianças e, sensibilizada com o destino delas, com suas curiosidades, suas brincadeiras, sua ânsia por aprender, percebeu que seria maravilhoso ensiná-las a fotografar para que pudessem revelar e ampliar seu próprio modo de ver o mundo. Munidas (essa é a palavra correta, pois naquele momento as câmeras são como armas contra toda a opressão, é o grito de expressão daquelas crianças tão negligenciadas) de câmeras 35mm as crianças tem a missão de fotografar tudo o que lhes chama a atenção, que as impulsiona a colocar o dedo no disparador. (trecho tirado desta resenha. excelente!) Como não chorar ao ouvir de uma criança que "não há uma coisa chamada esperança no meu futuro"? O que é preciso fazer para mudar realidades como as dessas crianças, dessas mulheres?
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Bia está vivendo uma adolescência com possibilidades de escolha mas é preciso mostrar que nem todos as tem. Isso é importante na hora em que ela resolver estabelecer prioridades em sua própria vida. Ela está se construindo como indivíduo e se perceber privilegiada faz toda diferença num mundo que insiste em não reparar o mal que fez/faz a determinados grupos.
O que almejo com esse projeto? Apresentar filmes que inspiram o autoconhecimento, que despertem a busca de significados perante a própria vida além de desenvolver a capacidade crítica. Mas a minha maior ambição é a de criar filhos mais humanos. Demasiadamente humanos.
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A lista é grande e aumenta a cada dia.
Sinta-se à vontade para sugerir outros tantos.





Acredito muito no aspecto "educacional" dos filmes, tem um livro muito interessante sobre a relação pai e filho e cinema, ainda não li, vi resenhas 8 e 80 pela web. É O Clube do Filme, de David Gilmore. Conhece?
ResponderExcluirÓtimas dicas, Dani!
ResponderExcluirPor aqui também costumamos assistir filmes e tirar boas reflexões e aprendizados. A cada dia tenho mais certeza que educar os filhos para serem cidadãos e não só nossos filhos, é o caminho para a mudança (para melhor) do mundo. Curto muito a forma com que você aborda isso! :)
Puxa, Dani, vc me respondeu à pergunta que ficou me perturbando desde as discussões sobre os rolézinhos: como fazer Rosa ser capaz de empatizar com o que acontece fora da bolha de privilégios que (felizmente) podemos oferecer a ela?
ResponderExcluirFilmes! Claro!
Ainda bem que quando a gente não pensa alguém faz isso pela gente, hehehe
Como é cedo para ela ver todos esses, vou guardar as indicações com esmero. Especialmente por a lista começar com um filme que me é muitíssimo caro.
=]
E ainda vou ser cabida de sugerir mais uns pra vc ver com a Bia:
- A árvore de marcação
- Ilha das Flores
- Lixo Extraordinário
- O Fabuloso Destino de Amélie Poulin
Dá uma pesquisada sobre eles, acho que vc vai curtir.
;D
Assisti Irmão Sol, irmã Lua no final da adolescência e resolvi que seria hippie. Só cheguei a ser hippie de boutique, shame on me.
ResponderExcluirAdorei isso! Minha filha está com 13 anos, tento mostrá-la que o mundo é muito mais complicado do que o mundinho meio cor de rosa que ela vive, mas as palavras se dispersam, o que veem nos filmes não. Essas coisas marcam. Gostei das suas dicas, já assisti ao Irmão Sol... e A lista...
ResponderExcluirEu assisto a muitos filmes, mas a maioria sem eles (tenho um menino com 11 tbém), pois geralmente são filmes com grande teor psicológico ou violência ou ainda muito antigos. Costumamos assistir juntos aos filmes de heróis e às animações, vou rever isso. Obrigada pela dica que vale ouro. Grande bj!!!
Que lista bacana, Dani! Acredito mto no poder formador do Cinema. Eu posso dizer por experiência própria que eu aprendi muito com os filmes "fora do circuito" (e outros até mainstream) que assisti.
ResponderExcluirNão sei se é o foco, mas você conhece o filme Ma Vie En Rose? É a história de um menininho/uma menininha transexual. É um filme singelo mas muito tocante. Se for de seu interesse abordar também temas como a sexualidade e a identidade de gênero, eu recomendo. Recomendo também A Culpa É do Fidel. E tentei pensar em um filme com adolescentes da idade da Bia, mas que vivam uma realidade muito diferente da dela, mas só me lembrei de filmes relativamente pesados, como Osama (não, não é a história de Osama Bin Laden, não se preocupe), Tartarugas Podem Voar (sobre a guerra do Curdistão), Filhos do Paraíso (filme iraniano), etc. Bom, me lembrei de um australiano, que fala sobre o rapto das crianças aborígenes no início do século passado, chamado Geração Roubada...
Nenhum deles é muito leve (principalmente os dois primeiros que sugeri), mas todos mostram crianças e pré-adolescentes vivendo realidades muito diferentes da que podemos imaginar. De toda forma, recomendo muito todos eles para você!
Um grande abraço,
Ah, sim, uma amiga acabou de postar uma foto desse filme no Facebook e acho que é interessantíssimo para a Bia: Persépolis!
ResponderExcluirAgora sim, beijo!
Assisti hoje 'o menino e o mundo'. É uma animação maravilhosa com metáforas excelentes para diálogos. Ainda está no cinema, em poucas salas. Enfim, sinto que entra nesta lista.
ResponderExcluirBeijoca
Dani, aqui em casa tbm temos uma lista dos filmes que os filhos devem ver. Pro meu adolescente, uma lista e pras meninas outra... meu único problema está em relação às menores... minha menina mais velha tbm tem 11, mas as outras têm 9 e 8. O que tenho notado, até por elas estarem o tempo todo juntas, é que as menores tem "adolescido" antes, por causa da influência da mais velha! Fica muito difícil separar algumas atividades, entende?? Então, tem alguns filmes por exemplo, que fica difícil mostrar por causa das menores. O que tenho feito, em alguns casos, é comprar livros. Por exemplo, ao invés de ver o filme, comprei "O Menino do Pijama Listrado" pra ela ler!!
ResponderExcluirPensamos parecido em relação à educação dos filhos!!! <3
Dani, coincidência legal estarmos promovendo sessões de cinema para nossas meninas!
ResponderExcluirComo a Alice é mais nova que a Bia, eu estou apresentando para ela outras "infâncias", através de filmes que mostrem crianças em outros países e lugares na história. O netflix é maravilhoso para isso!
Até agora vimos:
Filhos do Paraíso
Cookie
Geração Roubada (preferido da Alice por enquanto)
Valentin
O menino do pijama listrado (ela foi às lágrimas)
e vimos também Os Goonies, porque depois de ver o nazismo em ação ela ficou mal.
Estão na lista:
- Chochochi
- Labirinto do Fauno
- o Pequeno Nicolau
- A Voz do Coração
- Billy Elliot
Eu queria "O ano em que meus pais saíram em viagem de férias", mas não tem no Netflix. E aceitamos sugestões!