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segunda-feira, 24 de março de 2014

O PAPEL DO PAI COMO ESTEIO EMOCIONAL - por Laura Gutman





Laura Gutman, o papel do pai, a maternidade e o encontro da própria sombra
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A função do pai se desenvolve em dois tempos: o primeiro diz respeito ao apoio entre 0 e 2 anos, e o segundo, à separação, depois que a criança completa 2 anos e começa a se separar emocionalmente da mãe e a construir o próprio eu.





O APOIO





Nos tempos modernos, as mães e os pais têm dificuldade de compreender essa atitude. Refere-se à proteção e ao cuidado que o pai deve destinar à mãe para que ela possa desempenhar seu papel materno. Requer uma atitude muito ativa.





O que significa apoiar a maternidade?





1. Facilitar a fusão mãe-bebê e defendê-la. Para estar em condições de submergir na fusão, a mãe precisa se despojar de todas as preocupações materiais e mundanas. Deve delegar todas as tarefas que não sejam imprescindíveis à sobrevivência da criança: ou seja, tudo que não se refira a amamentar, ninar, acalmar, higienizar, alimentar e apoiar o recém-nascido. As tarefas domésticas, a atenção aos filhos maiores, a organização do lar, a administração do dinheiro, os conflitos com outras pessoas, as relações intrafamiliares, o reconhecimento do mundo e as decisões mentais devem ser atribuídos ao homem, que deve tomar decisões pertinentes para liberar a mãe do reino terrestre. Para mulher puérpera, esse é um período celestial, no qual sua consciência opera mais além da lógica e da causalidade. É necessário que se despoje dos pensamentos racionais e admita que atravessa uma realidade milagrosa e sem sentido aparente. A vida cotidiana continua com suas exigências e ritmos, e a tarefa do homem é justamente a de se encarregar de organizar e administrar a rotina doméstica.





2. Defender a fusão do mundo exterior, massacrado pelos palpites, críticas e sermões que circulam acerca do que "deve ser feito". Resguardar o ninho. Ser um intermediário, constituir-se em muralha entre o mundo interno e o mundo externo. Quase tudo o que chega do mundo exterior parece hostil à mãe, porque funciona em uma frequência muito elevada e veloz para a sutileza do recém-nascido e desequilibra o mundo emocional da mulher puérpera. As mães fusionadas precisam de um defensor aguerrido que lhes possibilite se retrair em sua função específica sem precisar se armar contra o que está do lado de fora. Toda energia usada para se defender é energia subtraída do processo de criação do filho. Concretamente, o homem deve zelar para que a mãe e a criança disponham de silêncio e intimidade, para que circulem pela casa poucas pessoas ou apenas aquelas requeridas pela mulher, e prover o ninho só do alimento, do conforto e da tranquilidade necessários. É interessante observar como a maioria das aves age em seus ninhos: o macho entra e sai trazendo alimentos e evitando que algum intruso se aproxime, enquanto a fêmea não se afasta dele.





3. Apoiar ativamente a introspecção, ou seja, permitir que a mãe explore a abertura de sua sombra vivenciando com liberdade e intimidade a experiência do florescimento de sua mãe interior. O apoio e o acompanhamento afetuoso permitirão à mãe que não se assuste com suas parte ocultas, que confie no processo e saiba que há uma mão estendida que poderá segurar nos momentos mais duros. Não importa se o homem compreende ou não do que se trata; importa apenas saber que algo acontece e que talvez a compreensão racional apareça mais tarde. Não há muito a compreender, é tempo de fazer a travessia.





4. Proteger. Há muitos meios de proteger. Em nossa sociedade, isso se refere principalmente aos aspectos econômicos: é o pai quem consegue, ganha, administra e organiza o dinheiro necessário para cobrir as necessidades básicas da díade mãe-filho. Liberar a mãe dessas preocupações lhe permite sustentar a fusão e a maternidade no período inicial. O homem deve manter o espaço psíquico disponível para tomar decisões, procurar ajuda, organizar o funcionamento familiar e resolver as questões do mundo material.





5. Aceitar e amar sua mulher. Neste período, o essencial é não questionar as decisões ou intuições sutis da mãe, que surgem como redemoinhos incontroláveis, pois respondem a uma viagem interior na qual ela está embarcada e sobre a qual não tem controle. Portanto, não tem elementos para justificar suas sensações, uma vez que passa por uma transfiguração de sua existência e por um desdobramento indescritível de recordações, necessárias à fusão e a seu devir consciente. O pai não pode constituir-se em um inimigo das sensações ilógicas, dando conselhos, discutindo as mais ínfimas decisões a respeito de como erguer o bebê, alimentá-lo ou adormecê-lo, denegrindo o processo de regressão psíquica, nem impondo suas ideias sobre a educação correta do filho de ambos. Não é tempo de discussão. É tempo de aceitação e observação. É tempo de contemplação sobre como as coisas acontecem. É o Tao.





* * * *





OUTROS SEPARADORES





Quando não há um pai presente ou então o pai não consegue agir como separador, a mãe precisa permitir que algo ou alguém desempenhe esse papel.





O ideal para uma mulher é responder ao chamado da pessoa amada, que a obriga a se separar lentamente do filho fundido a ela. Por isso, depois que a criança completa 2 anos, é recomendável procurar um homem de que gostemos e com quem tenhamos vontade de compartilhar situações de adultos. Esta procura de espaços pessoais libera o filho da mãe, forçando-o a explorar outros vínculos.





O papel de separador também pode ser desempenhado por um avô ou por um amigo da mãe que esteja relativamente presente na vida cotidiana. É uma pessoa que merece a confiança da mãe e por quem se sente apoiada. O ideal é que seja um homem. Não se trata de outra mulher que ajude na criação, porque, neste caso, se estabelece uma fusão a três. Falando de separação, é necessária a presença de um homem.





Na ausência de um indivíduo que possa exercer o papel de divisor, ele pode, eventualmente, ser substituído por um trabalho pelo qual a mãe se interesse de coração, ou uma tarefa criativa, ou atividades políticas, que frequentemente são fontes de energia. E também por interesses artísticos, culturais e sociais que a mãe assuma conscientemente, sabendo que produzirão a adrenalina de que necessita para continuar ativa mais além dos cuidados com a criança. Isto ocorre, por exemplo, quando a mãe consegue se separar do filho, desculpando-se cheia de felicidade: "Não vou brincar agora porque vou trabalhar ou tenho que ir à minha aula de teatro". Quando o trabalho é gratificante, conectar-se com espaços pessoais e adultos torna-se libertador para a mãe.





Nos casos em que não há pessoas nem situações que possam desempenhar a função separadora, é necessário inventá-las depois que a criança tiver completado 2 anos. Caso contrário, a relação fusional, estendida no tempo, poderá ser abusiva para a criança: atenderá às necessidades afetivas da mãe (que retém a criança para não ficar sozinha), em vez de resolver seus problemas pendentes como adulta, liberar o filho e permitir que trilhe o próprio caminho. Nestes casos, a mãe deverá realizar as duas funções: apoiar a si mesma no que se refere à separação.





Por último, costumamos confundir separação com autoritarismo. O pai - ou a figura paterna - não precisa ser rígido nem autoritário para dizer "não". Nem as mães devem fazer ameaças usando a figura do pai para obter resultados. "Você vai ver quando seu pai chegar", esse é um péssimo recurso e a leva a perder a autoridade. O pai pode separar amorosamente. Ter autoridade é manter-se no próprio eixo. Quem desempenha o papel que lhe cabe adquire autoridade. Ora, um pai violento que precisa bater para ser ouvido perde a confiança dos filhos e fica sem condições de realizar a separação. Por outro lado, o pai que tem consciência de sua posição de divisor emocional e consegue decidir amorosamente conserva sua autoridade. "Mamãe é minha e eu vou levar você para a cama porque ela está muito cansada e quer dormir". Qualquer um dos membros do casal pode esclarecer o papel do outro para conseguir funcionalidade. É conveniente conhecer o papel do outro; é conveniente que o outro conheça o nosso papel.





Na manifestação de doenças ou comportamentos incômodos das crianças, quando elas têm mais de 2 anos e há um pai que cumpre seu papel de divisor emocional, a sombra do pai também costuma se manifestar. 








Trechos copiados na integra do livro A Maternidade e o Encontro com a Própria Sombra, p. 129-131 e 138-140, da psicoterapeuta argentina Laura Gutman.







Um comentário:

  1. Não li esse livro,ainda. Mas como estou me dedicando a visibilidade do papel do pai fiquei pensando, será que é isso mesmo? Não discordo de uma linha escrita. Entanto, penso, que dever haver um pouco mais no psicológico dos homens entre o nascimento até os dois anos,não?

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