Olhava pra ela ali deitada ao meu lado e abismada constatei: já ocupa o comprimento da cama. Apesar de tão grande, consigo ver seus traços de menina ainda tão fortes, que a fazem tão especial, tão diferente. Ouvi-la falar, perceber seus trejeitos, a forma como arruma o cabelo, as músicas que seleciona para ouvir fazem com que eu me reconheça nela. Outras vezes, o pai. São muito parecidos. Agora, a melhor parte, é quando eu a vejo com coisas que só pertencem a ela, a mais ninguém.
A puberdade não é uma fase tão difícil como pintam, nem tão fácil como se desejaria. Como tudo na vida, aliás. É uma fase deliciosa de descobertas, de uma vivacidade que jamais deveria nos abandonar. Os cuidados são os mesmos que temos com quem está aprendendo a andar. Porque de fato, eles estão, num outro contexto, é claro.
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Os nossos semestres começaram e com ele um desafio para toda a família. Paulinho retomou seu curso e a aula cai num dia da semana que no semestre passado estava vago para mim, coisa que não se repetiu neste. Tentamos achar uma pessoa que pudesse ficar em casa com os meninos neste dia, mas não encontramos, embora isso tenha gerado um choque entre responsabilidade e necessidade.
Bia que sempre pedia uma chance, viu nessa situação uma oportunidade e pediu que confiássemos nela, pois se sentia preparada para assumir o compromisso de ficar só em casa, cuidando do irmão por um tempo.
Em nossas conversas, sempre tentava ponderar lhe dizendo que confiávamos nela, que o fato de não permitir não significava desconfiança, mas a estávamos protegendo do inesperado, daquilo que não se pode prever. Caso acontecesse algo - sempre trabalhamos com situações hipotéticas - ela carregaria uma culpa demasiado grande por ser tão nova.
Analisando friamente, sim! estávamos desconfiando de sua capacidade e de sua maturidade para lidar com situações inesperadas. Afinal, estaria ela preparada para agir sob pressão? Como ela se sairia na hora de assumir o controle? E a pergunta voltou para nós: como nós nos sentiríamos como pais delegando esse controle? Como saber e orientar se não tentarmos? Se trabalharmos sempre com hipóteses?
Ela não desistiu e sempre trazia novos e irrefutáveis argumentos. Passamos quase um mês nos preparando mas nada lhe dissemos. Uma preocupação: as briguinhas entre eles.
Fortalecer o amor dos irmãos, fomentar a união é uma preocupação de toda mãe que tenha mais de um filho. Sempre quis que meus filhos fossem unidos, porque acredito que é uma amizade para a vida toda. Só o laço de sangue não é suficiente pra isso.
Nesse período de férias, um pouquinho antes até, um fato curioso aconteceu. Otto ao invés de tomar o caminho pra nossa cama, como eventualmente faz em noites de pesadelo, procurou o quarto da irmã. Levando travesseiro, lençol e um edredom subiu escadas. Como queria ter presenciado essa cena!
Temos presenciado uma das cenas mais lindas dessa vida de pais de dois: ver os filhos dormindo abraçados. No começo esse sumiço dele no meio da noite me rendeu sustos homéricos ao me deparar com a cama vazia, mas ele fez disso um hábito. Como os dois pareciam satisfeitos, não interviemos. Passaram a fazer coisas que irmãos adoram fazer juntos antes de dormir: cantam, conversam, contam histórias. Tudo aos sussurros. E eu sempre fingindo que nada ouvia.
Desde que meus filhos começaram a dormir juntos, estão mais unidos. Isso despertou neles a necessidade de cuidado com o outro, aprimorou o diálogo, os tornou mais cúmplices. Cama compartilhada fortalece vínculos. Quem duvida?
Isso tudo foi muito importante para definitivamente tomarmos a nossa decisão. Bia já vem demonstrando ser dona de sua capacidade volitiva e quer se fazer respeitar, quer mostrar que pode, nos pede confiança. Quer crescer. Não vê necessidade de nos acompanhar a padaria e até já manifestou vontade de ir para a escola a pé, como muitos dos seus colegas.
Além de conversamos muito, de instrui-la, contamos com uma rede de apoio. O colega de trabalho do Paulinho e nosso amigo, fica sempre de olho e atento para o que acontece na casa. Paulinho, tacitamente, fica responsável pelas ligações enquanto estamos fora. Isso jamais poderia fazer sem conter o ímpeto de pegar o carro e voltar pra casa.
Na primeira vez que aconteceu, saí de casa sem racionalizar para não perder o foco. Quando cheguei em casa, tarde da noite, ela estava a minha espera. Embevecida, a olhava enquanto ela me passava orgulhosa o relatório da noite. Terminaram de jantar sozinhos, acomodaram as louças na pia e Otto dormiu no horário de sempre. "Mãe, foi tudo tão tranquilo, como se vc estivesse em casa."
Na segunda vez, ao invés de sair como de costume, caí na besteira de olhar para trás. Os dois sentadinhos à mesa, retribuíram o olhar. Fui chorando de casa até a faculdade. Ainda na primeira aula, segurei o impulso de voltar. Pensei na Bia. O que ela acharia de mim se me visse desistir, vacilar no primeiro desafio? Que valores ela levaria para a vida dela?
Afinal, para eu estar aqui, eles estão lá. Por ela e por mim preciso ir até final. Lavei o rosto, tomei um café forte e ressignifiquei a expressão força de vontade.
Minha relação com meus filhos tem disso: me propicia atribuir novos significados a velhas palavras.
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É inegável a força do exemplo.
Bia insistiu tanto em se mostrar capaz de assumir compromissos, porque sabe que não podemos contar com ninguém. (moramos longe da família). Porque ela vê como nos desdobramos para dar conta de tudo e como nos apoiamos mutuamente. Porque ela sabe que cada um dentro dessa família tem um papel a desempenhar, para o bem estar de todos.
Ela quis enfim, assumir o dela.
"Crianças sentem o que sentimentos, acessam nossos sentimentos e são capazes de ser grandes companheiras, parceiras de vida, de uma vida inteira. Vão mudando de fases, nos surpreendem a cada fase e nosso dever, por mais violência que haja no mundo, por maiores que sejam nossas inseguranças e medos, é acompanhar e respeitar suas necessidades. (...) compreendidas e atendidas, elas também compreendem e atendem." - trecho do Buena Leche

Que texto lindo!!! Chorei!
ResponderExcluirEstou sem palavras... Aliás, nenhuma delas serviria agora!
Beijos...
Muito lindo e parabéns para todos pela confiança!!!
ResponderExcluirEu tinha 11 anos qd minha irmã nasceu, não morava com minha mãe e não lembro com que frequência ia na casa dela, mas lembro de cuidar dela qd minha mãe saia, minha irmã com uns 8 meses. Qd voltava minha mãe já encontrava minha irmã de banho tomado, alimentada e dormindo! Era como brincar de boneca. Hj acho q era irresponsabilidade largar um bb com uma garota de 11 anos, mas estamos aqui, inteiras e vivas! Sem maiores ligações afetivas por termos valores muito, mas muito diferentes! Mas o amor e o respeito estão ali no coração sempre!
Abraços,
Bruna Rauscher
desculpa a expressão, mas vc é phoda!!!
ResponderExcluiraprendo muito com vc!
super beijo.
Lindo, lindo e lindo.....
ResponderExcluirSo o que tenho a dizer..
Daninha:
ResponderExcluirQue texto inspirador!!!
Sempre adoro as coisas que você escreve (e você sabe disso). Mas, de vez em quando, você se supera!!!
Você devia, mesmo, ficar orgulhosa da Bia. E, um dia, tenha certeza, ela também será muito orgulhosa da mãe que teve e que a ENSINOU CRESCER!
Bjos e bençãos.
Mirys
www.diariodos3mosqueteiros.blogspot.com
QUE texto maravilhoso. Tenho duas filhas, pequenas ainda, 3 e 5 anos, mas a mais velha já gosta de " cuidar da mana " e elas adoram dormir juntas, mesmo amontoadas na cama e se cruzando as pernas. Que delícia que é vê-las se amando e se curtindo! Qquer mãe se realiza assim!
ResponderExcluirQue lindo. Meu maior está com 14 e este ano também comecei na pós, e as aulas às vezes passam das 5 da tarde. Tem vezes que é ele quem pega a pequena (3,8a) na escola - a 400m de casa - e fica com ela aqui até eu chegar.
ResponderExcluirE eles dois se amam muito, estão toda hora se fofando, falando coisas fofas. Eu morro de amor