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terça-feira, 8 de outubro de 2013

ESTOU DE OLHO - porque a regulação é para a publicidade e não para a sua conduta









infância livre de consumismo, publicidade infantil, estou de olho






O PL 5921/01, que visa regulamentar a publicidade infantil no país está em tramitação há (longos) 12 anos e não é difícil imaginar os interesses que impedem a sua aprovação. Em setembro o projeto foi encaminhado para a Comissão de Constituição e Justiça e aguarda há quase vinte dias a designação de um relator, coisa que acontece normalmente em alguns (poucos) dias. Nossa torcida é que este siga o quanto antes para a apreciação do Senado.



O mercado busca se fortalecer criando na sociedade a falsa ideia de que não é o Estado quem deve regular as relações de consumo sob pena de ferir a livre expressão comercial e que a responsabilidade é sim, exclusiva da família. Será que é só isso mesmo, dizer não e desligar a tv?



Eles se unem para preservar seus interesses e nós, a sociedade o que fazemos?



A campanha #estoudeolho veio com o objetivo de dar voz a sociedade e de mostrar a nossa força como grupo. Saiba como ajudar aqui.



Você sabe como é a regulação da publicidade pelo mundo? Eis alguns dados que nos fornecem uma perspectiva maior desse problema:







  • Suécia: é proibida a publicidade na TV dirigida a criança menor de 12 anos antes das 21h.

  • Inglaterra: é proibida a publicidade de alimentos com alto teor de gordura, açúcar e sal durante a programação de tv para público menor de 16 anos.

  • Bélgica: é proibida a publicidade para crianças nas regiões flamencas.

  • EUA: limite de 10min e 30s de publicidade por hora nos finais de semana, 12 min por hora nos dias de semana. Proibido o merchandising testemunhal.

  • Alemanha: os programas infantis não podem ser interrompidos pela publicidade.

  • Canadá: é proibida a publicidade de produtos destinados à crianças em programas infantis. Quebec: é proibida qualquer publicidade de produtos destinados à crianças de até 13 anos em qualquer mídia.

  • Dinamarca: é proibida qualquer publicidade durante os programas infantis, e ainda, 5 minutos antes e depois.

  • Irlanda: é proibida qualquer publicidade durante programas infantis em tv aberta.

  • Holanda: não é permitido publicidade dirigida às crianças com menos de 12 anos na tv pública

  • Áustria: é proibida qualquer tipo de publicidade nas escolas.

  • Itália: é proibida a publicidade de qualquer produto ou serviço durante desenhos animados.

  • Grécia: é proibida a publicidade de brinquedos entre 7 e 22h

  • Portugal: é proibido qualquer tipo de publicidade nas escolas.

  • Noruega: é proibida a publicidade direcionada à crianças com menos de 12 anos. Proibida qualquer publicidade durante os programas infantis.





{fonte: documentário Criança, a alma do negócio}






Por que devemos repensar o consumo?



Recentemente assisti ao "A História das Coisas", que é um vídeo de 20 minutos apresentado pela ambientalista Annie Leonard que trata de forma simples, sarcástica, acelerada e divertida os padrões de produção e consumo e suas implicações na sociedade e na natureza desse sistema compre-use-descarte, passando pelos cinco estágios da economia - extração, produção, distribuição, consumo e descarte.



Dentre todos os assuntos abordados nesse filme tão curtinho, destaco um: a obsolescência perceptiva. Esta é irmã da obsolescência programada, que consiste no consumo de bens que se tornam obsoletos antes do tempo. A diferença entre elas é que a obsolescência perceptiva nos convence a jogar fora coisas perfeitamente úteis. Tem a função de mudar a aparência, o design das coisas para sinalizar para os outros que vc está fazendo o círculo da economia girar através do consumo.













Os produtos que ostento, agregam-me valor. A ideologia publicitária nos leva pra uma disputa de quem tem mais e melhor. Isso interfere não só nas relações interpessoais mas no status de classes. Afinal, qual o objetivo de um anúncio senão nos fazer infelizes com o que temos? Todas as nossas frustrações serão resolvidas se formos às compras? 



As corporações hoje detém o poder de controle do Estado que um dia foi da Igreja.

A maneira como nos relacionamos em sociedade é baseada no consumo e vemos que não só há, uma mercantilização das relações humanas, como de toda a humanidade.





Governo e indústria andam de mãos dadas








  • Ministério da Saúde concede título de PARCEIRO DA SAÚDE à McDonald´s. Profissionais da saúde protestam. (aqui)

  • ANVISA é alvo de críticas por abrigar exposição patrocinada. Mostra com infográficos sobre obesidade tem o apoio da coca-cola. A obesidade pelo olhar da infografia tem o patrocínio da coca-cola. (aqui)




É como costumo dizer: o problema nunca poderá ser parte da solução.





E nós com isso?





Conheço muitas pessoas que não corroboram com a campanha que visa regular e restringir a publicidade voltada ao público infantil por inúmeros motivos:






  •  por defenderem o mercado e achar que o Estado nada tem a ver com isso;






Será que dá pra defender o mercado sabendo que a publicidade atinge as classes AB da mesma maneira que atinge aqueles que não tem condição de comprar comida? O apelo ao consumo é aplicado indistintamente. Quais as implicações sociais? Isso não me parece muito democrático. Quem se preocupa com isso? Quem se preocupa com eles, àqueles que não tem condição de comprar comida?



"Os defensores da televisão, os anunciantes e os publicitários se escudam em uma desculpa cínica e universal segundo a qual a culpa é de quem liga a televisão. Basta desligá-la para evitar tudo isso, dizem, com hipocrisia. Como qualquer sofisma, soa lógico. Mas atenta contra o valor da responsabilidade. O conteúdo dos anúncios destinados a captar consumidores infantis é psíquica e moralmente venenoso." Sergio Sinay






  • por não se sentirem ausentes na criação de seus filhos; por terem consciência de seu papel como mãe/pai/cuidador e por terem certeza de que cumprem com seu papel na atenção dispensada aos seus diariamente; 






A meu ver, isso acontece com quem gosta de se usar como parâmetro, com quem não consegue vislumbrar a realidade do outro, anulando sua existência.



Acredito que seja muito pouco produtivo negar o debate e rechaçar as pessoas que arduamente se propõem a contestar a omissão do Estado como "patrulha do politicamente correto", "radicais", "xiitas". Será mesmo que não se faz urgente discutir e achar o equilíbrio em nossas relações de consumo? Que não seja por seu filho, que seja por outras crianças.



Seu filho não toma refrigerante? Que bom, pois saiba que:




* 56% dos bebês tomam refrigerante frequentemente antes do primeiro ano de vida.

    fonte: UNIFESP: departamento de comunicação institucional




"Abra a felicidade" - é o que eles anunciam.




* O brasileiro consome cerca de 51 kg de açúcar por ano. São mais de 4 kg por pessoa por mês. O consumo excessivo de açúcar contribui para a morte de 35 milhões de pessoas por ano no mundo. O equivalente a população do Canadá.


  fonte: Journal Nature - The toxic truthabout sugar apud Portal Terra








Deve-se parar de pensar em si mesmo como consumidor para que reste claro que regular a publicidade não é uma tentativa de regular suas escolhas. Só assim passará se sentir parte de uma coletividade. Como diz Raphaela Rezende: quando vc  tenta compreender o outro baseado no que vc mesmo gosta, na sua realidade, é egoísmo. 





Não, vc não é a régua do mundo.






Deve-se começar a pensar e sobretudo, a agir como cidadãos.








5 comentários:

  1. "Você não é a régua do mundo".
    Dani, adoro seus textos, mas, vez em quando, você se supera!!! Disse TANTO em uma ÚNICA FRASE!...

    Bjos e bençãos.
    Mirys
    (sem muito tempo para pensar, refletir e escrever... e só postando fotos "permitidas"...)

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  2. Boa noite!
    Gostei muito do post. Aqui em casa eu cancelei a Sky e fiz uma assinatura da Netflix porque tem programas para crianças pequenas e não tem propaganda alguma. Cansei de ver meu filho pequeno nos pedir esse ou aquele brinquedo que via na TV, parecia uma tortura para nós e para ele...
    Aqui já estão muito atrasados na criação de instrumentos que regulem esta confusão aqui do Brasil.

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  3. Dani, seu texto ficou excelente, muito bem explicado! Essa questão é difícil, todo mundo leva para o lado pessoal. Quando perceberem que não é uma questão pessoal (como vc bem disse "você não é a régua do mundo"), talvez consigam ver com mais clareza.

    Beijo!

    Rapha

    ps: me adicione ali nos blogs que vc segue :)

    Ciranda Materna

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  4. Olá Dani...entrei no seu blog hoje e não consigo mais sair... Rsrsrsrsr

    Amei, parabéns....

    Aproveito o comentário nesse post, em especial, para te apresentar ( isso se vc realmente não conhece) uma produtora musical que começou pela mesma inquietação que vc descreveu... Consumismo infantil:

    http://www.musicaemfamilia.com.br

    Minha escola teve a oportunidade de realizar o projeto do Música em família e ao termino do projeto eles fazem um show, onde contam que idealizaram e montaram a produtora a partir do documentário : criança, a alma do negócio !!

    Vale a pena conhecer um pouco mais do trabalho deles!

    Mais uma vez, deixo aqui registrado, o prazer de ter conhecido seu blog....

    Obrigada e parabéns

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  5. O brasil é o verdadeiro laissez-faire. Aqui anda é regulado, nada é fiscalizado. E isso se reflete na nossa cruel realidade. E sem sombras de dúvida quem mais sofre com isso não as crianças.

    Em um país com uma desigualdade tão profunda como a nossa, é muito CRUEL permitirmos que a publicidade role solta sem nenhum critério, porque não temos dimensão do quão mal faz a uma pessoa em formação da personalidade.

    Por fim, se você ainda não viu, recomendo o documentário "criança a alma do negócio". é chocante e triste nos deparar com a nossa realidade.

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